O Rio, de volta ou Derramamento emocional

Em estado alterado de percepção e consciência devido a degustação dos mais finos néctares em forma de cerveja no Dum Day em Curitiba.
Em estado alterado de percepção e consciência devido a degustação dos mais finos néctares em forma de cerveja no Dum Day em Curitiba.

Enquanto meus queridos e intrépidos Escritores Na Estrada seguem para Morretes para encontrar o Gontijo e comer um barreado eu me enfurno no caos do aeroporto de Curitiba para voltar ao Rio de Janeiro.

Eu, Daud e Gontijo curiosamente conversamos dias antes na Arte e Letras sobre as limitações de algumas mulheres pós maternidade em se deslocar geografica e metaforicamente sem os filhos. Apesar de me identificar com isso, o nascimento da Liz foi tão libertador para mim que só depois do parto eu me senti autorizada como autora. E continuamos desdobrando a conversa dançando nessas dualidades.

Acontece que eu precisei efetivamente voltar ao Rio para ficar com a minha filha e não terminar a última parte da viagem e peguei esse vôo. E apesar de ter ficado triste, ambivalente e um pouco angustiada, no fim eu gosto como a maternidade se integra e vaza para minha vida. Eu não deixo de ser mãe da Liz quando estou longe dela. E uma outra maravilhosa revelação é que eu não deixo de estar com vocês, queridos escritores, mesmo estando aqui. Liz dorme ao meu lado, e eu cheiro o cabelo dela avidamente, dou uma paradinha e escrevo para vocês.

Li atentamente o Miolos Frescos no avião, Jeanne. Li como se nunca tivesse ouvido antes você o ler. Li como se nunca o tivesse lido. Quis pegar teu livro na mão como objeto inédito, como conjunto. Seu livro é tão tão lindo, querida. Sua estréia é tão madura, consciente. Eu sinto de forma palpável a permanência dos seus poemas. A posteridade. O posfácio do Dirceu não tem um único excesso – ele é preciso e sabe exatamente o que está falando. Você é tudo aquilo ali. E mais. E esse mais que eu descobri na viagem é muito bom. Tua voz calminha, seu desajuste temporal, sua figura que não precisa de uma única violência impositiva para se fazer notar. Estou com você comigo aqui.

Daud, grumpy grandpa, eu sempre gosto de ser a pessoa mais desinteressante da mesa. Ter ficado na casa da Rita em Floripa e convivido com você naquela cápsula me fez ter certeza que essa é uma preferência sábia e acertada. Suas referências e formação são tão diferentes das minhas que às vezes uma conversinha besta me dava uma perspectiva tão nova, tão surpreendente que eu esquecia o que estava pensando anteriormente. Obrigada por não ter cansado da função de olhar no olho do dark side of the moon por nós, que estávamos na maioria do tempo eufóricos o suficiente para esquecermos que existia também melancolia na estrada.

Aí vem a Tarsila, com a coragem de fazer perguntas. E fazendo perguntas a respeito dela mesma, transitando no terreno difícil da dúvida nos fez a todos fazer perguntas sobre nós mesmos. Você empreendeu a jornada mais clássica, você é nossa heroína. Era tanta doçura em cada pequena coisa, no trato, esse seu comportamento de praticar a empatia como se ela fosse a coisa mais natural do mundo e não fosse necessário nenhum esforço para isso. Navios e Foguetes me comoveu e não só pelo conteúdo (tão delicado, a aranha, a teia), mas também pela ponte que você atravessou para realizá-lo. A feitura na mão, na unha. Gosto de abandonar a metáfora e imaginar como foi literal essa feitura manual, noite adentro.

Ana, Aninha, Anuschka, Ana Ruth, Fox Spice: não é à toa que você tem tantos nomes, né? Não é à toa. Toda vez que você falava sobre a Diva, e aquela sua entonação ambígua entre irônica e séria, eu não conseguia deixar de pensar que se existe a Diva ela tinha encarnado e se manifestado na sua face Punk Pônei bem ali na nossa frente. Essa sua força realizadora é maravilhosa, parece mesmo um desastre natural, avalanche, inundação. Duvido que exista alguma coisa que você não possa, e cada desejo secreto ou exibido que partilhamos eu tenho certeza, certeza, nem uma sombrinha de dúvida que a Diva vai iluminar. Temos a prova: as nuvens sumiram e o sol apareceu em cada cidade onde colocamos nossos pés.

Gonza e Horse Spice: amo vocês muito. Se existe uma regra de alívio cômico em viagens vocês fizeram a preza com perfeição – além da funça pesada que é documentar esse caos que chamamos de turnê. Obrigada. :-)

Queridos,

Baby doll de nylon combina muito muito muito com a gente. Até nossa próxima parada.

Um estado de atenção

HITCHTRUFFAUT

O ato de escrever, como permamente exercício de alternância entre alteridade e identidade pressupõe em si um movimento. Mas esse movimento, circunscrito no imaginário do que seria um escritor, e o ato de escrever também carrega em si uma imobilidade. Sentar-se corajosamente diante da página em branco e só sair dali depois de certa luta para preenchê-la onde o movimento só acontece na interioridade.

Eis um paradoxo: o escritor deve então executar a sua obra negando o corpo, imóvel, mas sem negar o movimento.

É claro que com novas tecnologias, o escritor pode começar aqui e acolá a fazer notas de áudio, fotografar uma referência, ou mesmo fazer de seu celular um moderno bloquinho de notas, digitando furiosamente o que passou pela cabeça e parece promissor. Porém mais uma vez, temos que nos debater com a contradição: se antes a flânerie era condição fundamental para o escritor que queria contato com o mundo, como abrir mão das facilidades de uma rápida consulta ao google, ao kindle, a outro escritor ou referência no email ou inbox do facebook, ou mesmo à wikipedia, no conforto na sua cama ou mesa de trabalho?

Quando Truffaut e Hitchcock se encontram pela primeira vez e se reconhecem, diametralmente opostos e complementares há uma espécie de enlevo amoroso. O flaneur francês se apaixona perdidamente pelo mestre do suspense, que tinha como principal premissa de produção o controle. Hitchcock fez a grande maioria de suas cenas icônicas em estúdio, com portas trancadas. Já Truffaut seguia seus personagens pelas ruas de Paris, pontuando com internas aqui e acolá, mas deixando o vento da cidade entrar pelas janelas. Ambos foram dramaticamente modificados pelo encontro – Truffaut realiza A Noite Americana onde remonta um complexo set de cinema e Hitchcock revela que dará a oportunidade para o inesperado, singelamente prometendo a Truffaut deixar agora as portas do estúdio encostadas.

Como senhora da força do acaso, mesma deusa que promoveu o encontro dos dois cineastas na década de 70, Ana Rüsche nos acenou com a possibilidade de uma “turnê” de escritores. A ideia toda parecia maravilhosamente sedutora, mas ainda não tínhamos a exata noção de como materializar esse tipo de ousadia. Seria preciso se imbuir do espírito da viagem. Nos abastecermos de um sentimento de necessidade real e literal de deslocamento como exercício da escrita. Transformar o paradoxo da mobilidade versus imobilidade em aforismo – viajar é preciso. Viver é necessário e impreciso.

Será possível unir o controle e o apuro técnico a de Hicthcock com a diluição de Truffaut e seu desejo de imponderável? Bom, em comum eles tinham a obsessão pela escrita cinematográfica. Essa obsessão nada mais é do que um estado de atenção permanente para essa grafia e para essa gramática semântica do filme. Viajar é estar atento. Estaria aí o pulo do gato?

E na volta, quem sabe?

E tem volta?, quem sabe?

Nós, Escritores na Estrada, estamos fazendo uma aposta que os dois lados podem viver na mesma moeda. Estamos fazendo as nossas malas percebendo a necessidade do deslocamento como fundamental para quebrar barreiras, para estabelecer contato, para colar a nossa escrita em nossos corpos. Estamos embarcando. Estamos indo. Estamos nos escrevendo nesse momento que você está nos lendo. É com muitas mãos e muitos ethos que esse barco está sendo empurrado para o mar.