Notas sobre Encarnações

Às vezes tenho a sensação de ter vivido em diversas encarnações dentro de uma vida só.

Olhando para trás vejo longos períodos que se desenvolveram como cápsulas independentes, que funcionaram como ciclos que nasceram e findaram: Renata produtora musical, militante do PC do B, moradora da Avenida Rebouças.  E também existem as encarnações paralelas, que coexistem: Renata escritora, feminista, mãe da Liz.

Encarnação é uma palavra bonita – ela tem o vermelho, encarnado, tem a espiritualidade e tem o colocar na carne, estar na carne, que é o estar presente com o corpo em algum momento ou situação. Gosto especialmente desse sentido carnal, carnudo e terreno. Sou alguém plantada com os pés bem no chão, afinal, eu sou meu antropocentrismo odara-selvagem.

Estou encarnada na viagem, incorporada, amalgamada com a transitoriedade da nossa proposta. Estou diluída entre malas, acostamentos, banheiros de posto de gasolina, escritores e pessoas que jamais verei novamente e que já estão coladas em mim de alguma maneira.

A viagem possui o poder mágico de unir todas as nossas encarnações em uma só. Em movimento se pode ser tudo ao mesmo tempo, o passado e o inventado. A estrada aceita. A estrada permite. A estrada é.

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Leitura dos Escritores na Estrada na Mondo Cane.
Leitura dos Escritores na Estrada na Mondo Cane.

Chegamos em PoA diretamente para a Mondo Cane, onde lemos trechos dos nossos livros. Daud leu um conto inédito, Jeanne leu três poesias do Miolos frescos, Ana leu poemas do rasgada, Tarsila leu Navios e foguetes. Nosso convidado Gustavo Czekster leu um conto maravilhoso feito especialmente para nossa passagem em Porto Alegre: regras para se comportar em saraus. Vamos publicá-lo aqui no blog em breve. José Francisco Botelho estava presente e sua esposa, a linda Laura Ferrazza leu um trecho de a Árvore que falava aramaico. Eu li Esquisita, do livro Vaca e outras moças de família, um conto sobre um momento contratual da adolescência – uma festa de quinze anos – e encarnei a adolescente que estava em mim e desenvolvi um amor platônico por um rapazinho que estava por lá. Como todo bom amor platônico, nada acontece feijoada.

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Jeanne entrando na galeria hipotética.
Jeanne entrando na galeria hipotética.

Ontem estivemos na Galeria Hipotética lançando nossos livros. Foi uma noite agradabilíssima, a curadoria do Fabiano é primorosa. Estávamos cercados dessa energia artística, ouvindo música legal selecionada pelo Renato, irmão do Fabiano, moço muito simpático, proto-produtor de 18 anos, muito divertido. Bebíamos cerveja Perro Libre e encarnamos muito no Renato. Encarnar no sentindo de tirar sarro, zoar, pentelhar. Mesmo novinho, Renato foi um lord e mandou muito bem ajudando na organização.

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Nossa anfitriã, Cris Ely.
Nossa anfitriã, Cris Ely.

Uma das minhas encarnações é de militante do movimento estudantil, onde conheci a gaúcha de Novo Hamburgo Cris Ely. Ela nos recebeu em sua casa, emprestou a sua cama, nos fez cafés da manhã épicos. Uma encarnação vaza para outra promovendo uma grande festa de renascimento. Obrigada Cris!

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Ontem eu fui fazer uma tatuagem. A minha quarta. Tarsila, Ana Rüsche e Gonzalo Cuellar se empolgaram e fizeram suas primeiras tatuagens também. Fomos acolhidos pela galera da Heráclito Tatoo, na Cidade Baixa, e fomos todos tatuados pela Stephanie. Ficamos usando o wifi para trabalhar, tomando café e chocolate grátis e batendo papo sobre a vida com gente gata e tatuada. Encarnar, no sentido de colocar na carne. A viagem está marcada na nossa pele agora.

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A Van Poesia segue para Curitiba. Nos vemos no caminho!