Flanerie Carioca & Grãos Imastigáveis

Depois de oito anos vivendo em São Paulo, volto a viver na minha cidade natal, o Rio de Janeiro. Fiquei com o meu coração literalmente partido, costurado com uma linha feita de ponte aérea de tanto amor pelas duas cidades. Nesses anos aprendi várias coisas, mas também desaprendi. São Paulo não é uma cidade muita afeita a flaneries – geralmente o paulistano cria seu bunker, sua bolha ideológica pessoal, e lá permanece. Isso não é uma crítica, é uma constatação. Não necessariamente pela falta de vontade, mas pelas circunstâncias geográficas – São Paulo é imensa – e político administrativas – aparentemente os governantes das últimas décadas não curtem o intercâmbio entre bairros diminuindo e extinguindo linhas de ônibus que sequer circulam durante a madrugada, fazendo essa experimentação ficar um pouco restrita.

A trupe de autores de Grãos Imastigáveis

Ao voltar para o Rio me instalei confortavelmente em um apartamento da Zona Sul carioca e paulistanamente não explorei muitos quilômetros além do meu umbigo. Em Copacabana eu tinha amigos, comida farta e barata, ciclovia, e um professor de stand up paddle com um corpo comparável as mais exuberantes maravilhas naturais da cidade, como o Pão de Açúcar, o Arpoador e o derriére da Valesca. Mas felizmente o Rio não perdoa os imóveis. Se você não circula, você perde. A cidade acontece in loco, ela tem gosto, tem cheiro, tem clima, atmosfera que precisa se experimentada para ser apreendida e compreendida. Sucumbi, desempoerei meus sneakers de oncinha e fui me aventurar para relembrar e reescrever a minha cidade, tomá-la de volta, recupar minhas memórias cheias de fantasmas adolescentes, festas e amigos que não existiam mais.

Descobri um templo budista na ladeira Saint Roman, entrada do Pavão Pavãozinho. Mais carioca impossível, no meio do sobe e desce de moto-táxis, policiais fortemente armados, crianças em uniformes escolares e ambulantes, fazer um Zazen no mais perfeito silêncio. Alex Castro, amigo e escritor que me apresentou a essa pérola. E foi só o começo. Uma pool party gay que aceita crianças em São Conrado, a Casa Porto do Raphael Vidal recebendo o melhor da cultura negra na região portuária, um bloco de carnaval em Paraty, um baile charme Madureira, uma cooperativa restaurante vegan no centro da cidade, um wi fi com expresso a preço justo na Urca, o melhor guioza da cidade na Praça Afonso Pena, Neymar, o distribuidor das quentinhas mais baratas do Rio alimentando os funcionários famintos da Gávea, uma suruba hipster no hotel Shalimar, um bazar feminista de troca de roupas no Grajaú e eu já estava me sentindo incorporada na cidade, como se o suor do 422 tivesse virado sangue e voltado a correr nas minhas veias.

Mas nada tinha me preparado para a última que me esperava.

Semana passada o Bando Editorial Favelofágico lançou o seu primeiro livro. Até aí, lançamento de livro no Rio de Janeiro consiste na mesma chatice blasé intelectual numa livraria na extrema Zona Sul, com vinho branco quente, castanhas com passas murchas e todo mundo querendo ir embora pro boteco da frente. Só que o bando é o bando, o bando é uma editora que fez uma residência criativa com autores de periferia e não estava lançando só um livro, estava fazendo um ato festivo e político no coração de Manguinhos.

Para quem não conhece o Rio, Manguinhos mais aparece nas páginas policiais do que nos cadernos de cultura. Nada mais injusto. O complexo de favelas tem a Agenda Cultural Mandela Vive que organiza eventos com artistas do complexo e de outras favelas, um dos saraus de poesia mais antigos da cidade, o Sarau Poético de Manguinhos, que lançou nomes como Celeste Estrela, um grupo de teatro com o seu próprio dramaturgo residente, Geraldo de Andrade. Artistas com um talento vivo, pulsante. Fora a Biblioteca Parque com uma programação permanente de exposições, peças, filmes. Bom, se você carioca, não sabia, fique sabendo.

Inteirada mais ou menos de como seria o lançamento, me meti num táxi na São Francisco Xavier carregando um buquê de rosas vermelhas e amarelas para parabenizar Janaína Abílio, amiga que iria lançar pela primeira vez seus contos na antologia do Bando Editorial Favelofágico. Mas antes de continuar, uma pausa para falar sobre Janaína.

Grupo Livre de Criação Literária presente!
Grupo Livre de Criação Literária presente!

No apartamento em Copacabana eu montei o Grupo Livre de Criação Literária. Um grupo exclusivo para mulheres, onde a literatura poderia ser exercida politicamente com a maior liberdade estética, temática, formal, possível.  No primeiro dia, todas aquelas mulheres chegaram tímidas e reticentes. Expliquei a proposta do grupo, e pedi para que elas lessem o material que trouxeram, mesmo que um trabalho ainda em processo. Janaína foi a primeira. Leu um conto curto do seu blog, um conto em primeira pessoa. Suas tranças caíam pelos ombros, seus óculos de armação lilás refletindo as letras do texto. Ao final, ela olhou para um grupo atônito, 9 mulheres com cara amassada e lágrimas na cara. Eu inclusa. De lá pra cá seu texto que já era bom, só melhora. E duas das sua protagonistas mais interessantes estão em contos do livro Grãos Imastigáveis, lançado naquele dia em Manguinhos.

Janaína Abílio, rainha da noite. <3
Janaína Abílio, rainha da noite. <3

Desci do táxi, e dei de cara com uma enorme lona de circo, amarela e azul, com luzinhas por dentro. Um palco, telão, crianças correndo pelo gramado, barraquinhas vendendo livros, cerveja, arroz com lingüiça. Na projeção o vídeo apresentava os autores da antologia. Janaína, de make metálico, calças de zebra e uma timidez não compatível com o seu talento recebeu as flores. Priscila Britto, outra integrante do grupo livre estava lá acompanhada de Vitor, seu namorado, que mais tarde revelou dominar a coreô de “Beijinho no Ombro”. Dançamos clássicos do funk ao som do DJ Buchecha, ouvimos trechos dos contos, comemos, bebemos, nos empolgamos com a curta apresentação de um grupo de rap feminino, o Ladies Gang, e saímos expulsos pelo temporal, que se avolumou, fez pingar água e estragou o equipamento de som. Tínhamos livros nas bolsas e a certeza que todo lançamento deveria ter um pouco de Manguinhos no coração. Seríamos autores mais felizes e provavelmente muito mais interessantes.

Para ler Janaína Abílio: www.egomettrica.wordpress.com

Querer escutar

Ante a necessidade premente, descobrem-se o muito e o pouco que podemos. Que necessidade? Por ora, a de escrever.

Faz uma semana que voltamos do Rio. Todas as pendências se acumularam. Para nós, que trabalhamos 7 dias por semana, ausentar-se por 2 dias é muito. Some-se a isso que adoeci: na semana antes da viagem e, na volta, uma melhora apenas aparente. Faço o relatório de uma viagem, que ora se prende aos seus extremos: a casa. Porque viajar é tremendo.

Achávamo-nos em casa de Dodô, bêbados, cansados por um dos dias mais longos do ano, era sábado. Eu estava sentado numas almofadas, Raphael Vidal à minha esquerda, depois a Renata. Dodô estava trepado num móvel. Os outros, mais distantes, se espalhavam nos sofás, numa rede, nas almofadas. Volta e meia um levantava até a máquina de pinball, com medo de nunca ter outra oportunidade. Dodô explicou que só tem duas pessoas que consertam essas máquinas no Brasil, que você tem que esperar meses por uma visita e pagar a viagem do cara, além do conserto. Mas parece que vale a pena, aquela máquina reluzindo na sala com as vozes e sons do Império Contra-ataca é impagável. Em um quarto recuado ficava a máquina mais especial: Indiana Jones.

Eu prestava atenção, mas não conseguia falar. Lindos os cartazes dos filmes do Dodô Azevedo, altos na parede, em japonês, ele contando que não tiveram exibição aqui. Depois descambaram para uma discussão bizantina sobre a proximidade entre Robert Altman e Hitchcock, ou quaisquer outros diretores que não me acendiam nenhuma luz. Mas então eu já tinha desistido de acompanhar, e me equilibrava na rede semi-rasgada, tentando dormir, ou ficar acordado. Ainda estávamos no clímax da conversa.

Antes disso, eu chegara ansioso por saber mais da Mariá, que por cansaço ou discrição, também não falou muito sobre a própria escrita, apenas insistiu que precisava chegar cedo para escrever, em breve teria que buscar o filho, lá se iam as chances de trabalhar. Pelo mesmo cansaço, foi embora antes que eu chegasse. Fiquei com as breves impressões da carona até o Flamengo e do encontro na Casa Porto, onde o Vidal tinha tocado o show, isto é, o show em que nós éramos, em tese, os artistas. Em tese, porque muitos foram os encontros lá. Além do próprio Vidal, que conhecíamos da FLAP, e dos fofos Mariá e Dodô, dupla dinâmica, Thiago Ponce, que fez rápida aparição e uma leitura ainda mais rápida de Todesfuge, do Paul Celan, Francesca Cricelli, amiga linda de São Paulo que pôde ir e aproveitou para nos anunciar o lançamento de seu livro de estreia, Repátria, que foi ontem, Mariano Mantovani, que me mostrou seu livro e me arrancou elogios de bêbabo antes que eu estivesse bêbado, e ainda tantos outros, reunidos ali em nome desse encontro tão inusitado ― para nós. Estávamos num lugar não muito frequentado pelos cariocas, o Largo de São Francisco da Prainha, e no entanto estávamos na companhia de uma fraternidade incomparável.

Tento equacionar isso. É verdade que, aqui, temos a Casa das Rosas, a Biblioteca Alceu Amoroso Lima, a Mário de Andrade… ainda assim, aquilo tinha um gosto particular… ou é porque estávamos nós num lugar distante, onde encarávamos cada detalhe do lugar como único, no tempo, no espaço? Mas estou certo que não éramos os únicos a nos sentir assim.

Tínhamos chegado direto do almoço, depois da nossa oficina da manhã. A oficina foi em petit comité, consta que, se faz sol, carioca não comparece. Há de ser, porque tínhamos quinze inscritos, mas somente dois apareceram. Assim é: sol de verão em pleno inverno. Antes da oficina, dormimos pouco mais de quatro horas, porque saímos à noite de São Paulo ― trabalhamos sete dias por semana, e várias noites também. Estava acabado.

Além disso, chegando ao Flamengo, fiz um desvio, porque queria encontrar outra querida escritora, Diana de Hollanda, que carregava seu O homem dos patos com um autógrafo para mim, datado de fevereiro de 2014. Ela conversava com um garoto, um garoto, mesmo, que aparentemente está fazendo um certo sucesso com seus contos. Atendia pelo nome de Sperling (já que a Diana ficou incomodada de haver dois rafaeis no mesmo ambiente). E ela perguntava: o que vc acha do seu primeiro livro, vale a pena? Ele, muito humilde, explicou que gostava bastante de alguns dos contos, mas que também o livro novo tinha alguns dos contos do primeiro que os editores temeram em publicar. Pensei na História do olho, do Bataille, que eu tinha comprado de um cara que montou um sebo ali na Casa Porto. Esse livro estava me perseguindo, Dirceu Villa tinha me falado dele pra mim três semanas antes, depois encontrei um exemplar no sebo da Arte & Letra, em Curitiba, então resolvi que tinha que levar. E, terminado o livro, causa-me a impressão que me causava a descrição sumária que faziam meus dois companheiros dos contos do Sperling. No fim, disse a Diana que não poderia lhe entregar meu próprio livro porque, embora tenha ido para lá com esse intuito, fizera uma confusão e esquecera todos os exemplares na van Poesia, com o pessoal… Assim sendo, teria que enviá-lo por alguém, ou por correio. Ela despediu-se de mim com um tapa e um abraço.

Então eu me achava no sofá, incapaz de articular palavra, tentando fazer algo daquela viagem toda, juntar as palavras de toda a poesia que tínhamos ouvido desde cedo. Descobrira também muitas coisas que não sabia sobre a Renata, é tão incrível quando vamos ao lugar onde a pessoa cresceu, de repente a gente se dá conta: a pessoa não é só aquela pessoa que está diante de nós, que vemos e admiramos, ela é também uma porção de outras coisas, admiráveis, também, embora tão distantes. Que pensava eu, disso tudo?

Eu pensava precisamente o seguinte: que não podemos absolutamente confiar em nossos olhos e ouvidos; tudo que vemos é apenas a ponta de um iceberg, há muito mais coisas acontecendo do que alcança a nossa vista. O horizonte está mais adiante. E entre saber o que há lá, e não saber, está toda a diferença.

Tem muita gente que pensava, antes que eu começasse a refutar isso explicitamente, que eu falava alemão, porque sei pronunciar as palavras escritas, e sei ler umas poucas. A pessoa completa o que ela não sabe com aquilo que ela sabe, porque ela está ciente de sua ignorância. Mas, aquilo que não sabemos, não é igual ao que sabemos. É diferente.

E ali, no Rio, tinha a nítida impressão de que as pessoas procuravam saber, procuravam saber muito, porque desconfiavam disso; que fora do que sabiam havia alguma coisa importante acontecendo. Por isso as pessoas iam para os lugares. Quando não iam à praia, claro. O blasé e o curioso se misturam. Mas não se confundem. E isso faz toda a diferença. As coisas, de repente, tinham uma importância. Por causa disso, as pessoas se moviam, conversavam, se abraçavam.

Na porta, ainda sonolento, depois de beijar Dodô na face, ouvi ele insistir, antes de irmos embora: Então até logo!

O Rio de Janeiro são os cariocas

Então estamos colocando os pés na estrada de novo. Ainda bem! Sabem, isso vicia.

E vamos para o Rio de Janeiro, o que é ótimo, já que é a terra-mãe da Renata, a única do grupo que não mora em São Paulo ― embora não a única do grupo cuja terra-mãe não seja São Paulo; acho que já falamos disso em algum lugar: nossa natureza é a estrada.

E então eu estava pensando sobre isso, o Rio de Janeiro. Parece que os cariocas (ou como quer que se chamem esses que moram na cidade do Rio de Janeiro, em oposição aos que moram fora da capital) tratam sua cidade como uma espécie de xodó. Diferente, muito diferente, dos que moramos em São Paulo, que amamos odiá-la. Sim: São Paulo fede, São Paulo é coquete, São Paulo, base dos bandeirantes, matadores de índios. Mas nós a amamos, isso é assunto para outro post, outro livro de poesia. Mas os cariocas não odeiam sua cidade. Não amam odiá-la. Eles a amam. Eles a adoram. É o que parece, pelo menos. Bem, como poderia ser diferente?

Parece que o Rio de Janeiro continua lindo, foi o que pensei a última vez que lá estive. Então estamos bastante empolgados com essa visita, à Cidade Maravilhosa, como poderia ser diferente?

Daí me lembro algo que ouço, de vez em quando, de paulistas e cariocas alike: o Rio de Janeiro é ótimo, o rúim são as pessoas. Carioca fala “ruim”, mas a frase é a mesma. Então, também eles, eles amam odiar. Mas não odeiam a cidade, odeiam os cariocas. O inferno são os outros. Variações sobre o tema.

Claro, falar do outro, são generalizações. É por isso que as ponho aqui, publicamente: não por orgulho em fazê-las, mas pelo futuro prazer de dispensá-las. Pois as generalizações são isso, não algo que você depois confirma ou contesta, sim o que o conhecimento próximo, aprofundado, dispensa. Cariocas amam e odeiam, como nós, paulistanos. São mais parecidos conosco do que qualquer um de nós gostaríamos.

Sendo assim, e eu acredito que assim seja, e nisso, veja, misturo um pouco essa expectativa, dessa nova incursão, com algum conhecimento de causa, de vezes passadas, belos encontros, que sempre os tive nessa cidade, então: aplica-se ali o que também dizemos de São Paulo ― adoramos dizer: não importa a cidade, importam as pessoas. O que não deixa, tampouco, de ser uma generalização. Mas uma profícua: pois é pelas pessoas que se conhece uma cidade, sejam elas quem for.

E aí enfim nossa metáfora mestra, a da ponte, começa a falhar. Pois pontes unem cidades, não pessoas. Ou… estarei enganado?

Ora veremos…