A vida ou a escrita

Hoje não tenho notícias. Queria escrever um conto. Mas toda vez que sento para escrever, a mesma pergunta: que vale mais? A vida, ou a escrita? Invariavelmente, a vida vence. Escrever é tão maçante!

Mais "poesia", menos orgia
Muro no bairro do Perequê, Ilhabela. 2014.

É claro que nem todo mundo concorda. Rilke, por exemplo, falava de uma vida que só valeria a pena ser vivida para a escrita. E o cumpria! Nós agradecemos, porém não posso deixar de olhar para isso com certo desdém, o desdém com que também olho certos religiosos…

De minha parte, preferia antes uma escrita que fosse feita para a vida. Um tecido, uma tessitura ―alguns chamam assim o texto― que não fosse amarração, mas o desfazimento de alguns nós… que nos impedem de viver. Por exemplo, escrever não o drama, o que tão dignamente a ana rüsche contesta, mas seu antídoto, não sei, uma forma de filosofia, de azeite…

 

Falamos às vezes, na psicanálise, da fantasia. Ora, o que é a fantasia, senão uma narrativa? E com ela vivemos, com ela amamos… através dela enxergamos o mundo. É a narrativa que constitui nossas vidas, que nos contamos sem nem mesmo perceber que o fazemos. E daí a questão: o que é, diante de uma história tão elaborada, qualquer outra inventada?

 

Pois aí é que reside todo o mistério.