a coisa mais bela

Tróiades: remix para o próximo milênio

Remix é um troço doido. Misturar, somar, transformar ao mesmo tempo que referencia – e, muitas vezes, que homenageia. Essa sobreposição de camadas, significados, referências e meios é algo que me interessa já há algum tempo. Acho maravilhoso, e ainda mais maravilhoso porque não é algo novo, surgido com os DJs nos anos 1970. Não. Apropriações, deslocamentos e intertextualidade povoam outras artes, como a poesia, desde a Antiguidade. Estão aí, talvez, desde que a arte existe.

E por tudo isso a proposta das Tróiades: Remix Para o Próximo Milênio, do Guilherme Gontijo Flores, me pareceu muito legal: um poema-site criado “a partir de uma série de colagens, traduções e apropriações de texto, imagem, música e plataforma”. Uma proposta transmídia, de remix mesmo. Eu já achava bacana a ideia, mas daí fui fuçar no site e achei ainda mais forte.

Poeta, professor e tradutor de mão cheia, Gontijo é também um dos editores da Escamandro, revista que traz coisas incrivelmente relevantes e raras de e sobre poesia (além de ser linda, bien sûr). Tivemos o prazer de encontrá-lo em nossa viagem rumo ao Sul, em um debate na livraria Arte & Letra e depois em uma visita ao seu pequeno paraíso particular em Morretes. Foi uma tarde excelente, com direito a lira, conversa, barreado e cachacinhas.

Além de ótimo anfitrião – o que nunca é de se desprezar, rs – Gontijo realiza algo extremamente interessante nessas Tróiades. Segunda parte da tetralogia Todos os nomes que talvez tivéssemos, iniciada com em 2013 com o livro brasa enganosa, o poema-site (que foi publicado em 2014) é uma colagem das vozes dos derrotados ao longo da história. De Tróia a Canudos, fragmentos de discurso que ajudam a dar voz ao lado que normalmente não é ouvido, que normalmente não faz parte da História. O poeta remixa fragmentos traduzidos das tragédias Hecuba e Troiades, de Eurípides, Troades, de Sêneca, e do aforismo 9, de Walter Benjamin, a fotografias de situações de guerra, escravidão e derrota. A música é Genocide — Symphonic Holocaust, de Mauricio Bianchi.

Um dos meus trechos preferidos é Umbral:

 

umbral

 

Mas que membros nos deixa o precipício?
Ossos despedaçados
soltaram-se na queda
a marca ilustre do seu corpo
o rosto os traços de um pai nobre
tudo o baque sobre a funda
terra confundiu
no tombo seu pescoço se quebrou
a cabeça aberta exalava
o cérebro
…..jaz um
corpo sem formas
Nisso também
igual ao pai

[S 1110]

 

São fragmentos curtos, condensados em intensidade, com significado ampliado pela mistura com os outros registros:

 


puerilla

 

Puerilla

Mãe de uma cidade vazia
Lágrima por lágrima
Porém um morto esquece as dores

[603]

 

E todo esse material, que foi remixado em formato de poema-site, acaba de sair também em papel: as imagens e trechos viraram um livro, composto por 25 postais, publicado pela Editora Patuá. Um trabalho muito bonito, que completa o ciclo site-música-imagem-texto-tradução-impresso.

Em tempos de notícias tão sombrias, de rios e cidades devastadas, e bombas e atentados e retaliações tomando conta dos noticiários, é bom relembrar, de forma tão potente, a sobreposição de vozes de perdedores dos conflitos dessa terra, a circularidade das tragédias humanas, demasiado humanas, que vivemos desde que o mundo é mundo. A História se repetindo, como tragédia, como farsa.

Vale a pena espiar. E juro que não estou falando isso só por causa do barreado.

 

a coisa mais bela

 

A coisa mais bela

Pra que chamar os deuses
se nunca ouviram
quando chamados?

Vamos correr ao fogo
que hoje a coisa mais bela
é morrer na pátria incendiada
O sol breu sobre o céu gris
e a chama não impede
a cobiça nas mãos do vencedor

Vai pé caduco
como puder para salvar
tua cidade arruinada

[T 1280, 1275, S 17]