Hospedo uma bela poeta argentina na minha casa

A poeta argentina Nurit Kasztelan está na estrada também. No Brasil. Na casa da Renata no Rio de Janeiro. Em breve, na minha em São Paulo.

Escrevi sobre a livraria que a Nurit mantém em sua casa em Buenos Aires: Mi Casa, librería atípica – projeto incrível. A Renata escreveu um poema. Nesse toque de midas louco que hispanoablantes possuem. Extrair uma vontade de escrever lá de dentro.

Aí vai o poema da Renata que tanto gostei. Não tem título. Nem itálicos.

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Hospedo uma bela poeta argentina na minha casa. Ela não se importa com a chuva.

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Ontem em um café em Copacabana, fui encontrar uma amiga grávida. Gringos inconformados, me perguntam em inglês quando a chuva vai parar.

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Assumo a minha condição de oráculo e respondo: aparentemente nunca.

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É verão, mas já vivi invernos mais quentes no Rio de Janeiro. Não que isso queira dizer alguma coisa.

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Cariocas fantasiados com mangas compridas e botas não desconfiam que a culpa é toda minha. Eu que engoli o sol e deixei o céu branco. Não consegui evitar.

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Devolveria o sol, se pudesse.

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“Lógica de los acidentes” é o livro que a poeta argentina escreveu. Um acidente. Como comer o sol.

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Um acidente. Como o homem deitado de bruços com as pernas esticadas para fora dessa cama de hotel.

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En Méjico me contaron
de una mujer
a medida que molía el maíz,
su brazo iba desapareciendo

Soy como esa mujer
Que se muele a sí misma
me escribo
y desaparezco

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Ao menos as folhas do Parque Lage se alegram. Posso sentir enquanto caminho, o ondulante movimento dos vermes felizes debaixo da terra.

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Corro até a esquina com o cigarro na mão. Abordo os gringos distraídos e prometo que até sábado vai melhorar.

Português porteño

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Conto de minha primeira viagem a Buenos Aires na última semana. Fui a trabalho, participar dos eventos de inauguração do escritório da Fundação Rosa Luxemburgo por lá. Os demais integrantes dos Escritores na Estrada estiveram comigo na palma da mão, mediados pelas wi-fi de cafés, praças, hotéis e na saudade.

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Madres de Plaza de Mayo, Casa Rosada ao fundo.

Bem, quando soube que ia pra Buenos Aires, a primeira pessoa que pensei em visitar foi o Cristian de Nápoli. Acho que o Cristian foi o primeiro poeta vivo hispanohablante que conheci de verdade. Isso já faz nove anos. Ele veio com o projeto da Eloisa Cartonera para a Bienal de São Paulo. Lembro ainda que o livro El Ring (Black & Vermelho, 2004) me causou bastante impressão. Encontrei-o ainda no Chile depois e muitas vezes em São Paulo, sempre organizando livros, eventos. Hoje o Cristian é grande tradutor do português. Enfim, era difícil imaginar uma Buenos Aires que não tivesse um alô pro cara.

Na lógica milongueira de idas e vindas, demorei para realmente tomar pé da cidade. Numa tarde de muita chuva, depois de ver as Mães da Praça de Maio e a saída da Marcha da Maconha que aconteciam vizinhas em frente à Casa Rosada, resolvi descer a Rua Bolivar com meus companheiros de trabalhos. Ensopados e risonhos como só estrangeiros sabem ser, chegamos a La Libre (Bolivar 646), livraria em San Telmo, onde o Cristian trabalha.

Vitrine da La Libre.
Vitrine da La Libre.

As roupas molhadas e os lamentos pelos resultados das eleições argentinas logo foram esquecidos pelo café brasileiro cheiroso, muitos livros de poesia expostos e os trabalhos mais recentes de tradução do cara: sua antologia premiada de Vinícius de Morais e um outro que fez agora, Cruz e Sousa: Prosas Selectas. Levei comigo ainda o livro de contos Darth Vader & Yo (Narración Imposible, 2015), depois digo o que achei.

A livraria tem muita coisa boa, de livros a plaquetes, projetos editoriais novos. Recomendo vivamente para quem estiver naquelas bandas.

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Joana e Zé em sua estreia na Feira de San Telmo, Colectivo Bu.

Tanto recomendo que, no domingo, na Feira de San Telmo, pertíssimo da livraria, conheci um casal lindo de poetas portugueses, que faziam sua primeira aparição na feira: Joana e Zé do Colectivo Bu. Logo recomendei que fossem lá, hehe.

A Joana e o Zé já moraram em Salvador e lançam esse projeto de divulgar poesia portuguesa em Buenos Aires. Armaram um cavalete, uma caixa e vendem heterônimos do Fernando Pessoa em envelopes caprichados e sorrisos na feirinha. Conheça mais o trabalho deles aqui. Ainda de San Telmo, só faltou mesmo conseguir tomar cerveja no bar Antares (Bolivar 491), recomendado por gente muito sábia das artesanais. Lotadíssimo. Ficou pra próxima.

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EM BREVE: farei um post com traduções de poemas que escutei em uma leitura genial na livraria Mi Casa, projeto incrível capitaneado pela Nurit Kasztelan. A Nurit também é poeta e mantém uma livraria funcionando dentro de sua casa. Por lá, quem recebe as pessoas é uma gata persa lindíssima. Meu plano é solicitar aos poetas que leram alguns textos para que eu possa traduzir e compartilhar. Na melhor da vocação de atravessar pontes, espiar por um furinho no muro de Tordesilhas, que separa de forma triste tradições literárias tão bonitas.

Deixo vcs com a Orquestra Típica Sexteto Gato, que escutei por ali: ouça aqui.

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P.s.: pergunta que não quer calar – será que a Editora Patuá estará ampliando o escopo dos negócios?

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