O escritor não tem somente o seu espírito

No carro, vivenciamos grandes experiências. Porque o carro pode, sim, ser um lugar. A Van Poesia tornou-se um lugar, desde que a ocupamos. E nesse lugar, temos encontros. Depois de ter publicado o texto de ontem, no blog, o pessoal pediu pra que eu o lesse, em voz alta. E o ler em voz alta proporciona uma experiência diferente do ler em silêncio.

Historicamente, o ler em silêncio vem depois do ler em voz alta. A reflexão que essa experiência permite, o voltar-se para a interioridade, é testemunhado por Santo Agostinho, que relata observar, com espanto, um monge lendo textos bíblicos em silêncio. Mas hoje, quando tudo é tão barulhento e o ler se torna uma atividade solitária, silenciosa, a reflexão passa a ser o normal, o regular, o corriqueiro. Então, ler em voz alta passa a ser o que nos põe num lugar diverso, onde podemos escapar às nossas próprias reflexões, necessariamente limitadas, e alcançar a experiência de outros, o espírito de nossos amigos.

Também por isso lemos em silêncio, na verdade, para ouvir os mortos ― e todo autor é, em certo sentido, morto. E as reflexões que tenho feito, assim como o texto que apresentei na quarta, têm por base algumas dessas escutas. Para a viagem, tive o cuidado, de outra forma raro, de escolher não os livros que estavam atrasados, não os que estavam emperrados, mas dois, e somente dois, que servissem de guias para a investigação que eu queria empreender. Tudo isso vem muito a calhar.

Os livros, portanto, eram os seguintes: Homens interessantes e outras histórias, do Nicolai Leskov, e A pornografia, do Witold Gombrowicz. O primeiro não cheguei a abrir, o segundo estou terminando. Leskov, porém, é um autor que já vinha lendo, a partir de um outro livro de contos, publicado aqui sob o título A fraude e outras histórias. Ele é, também, creio que já mencionei isso aqui, o autor que Walter Benjamin escolheu como epítome do narrador, considerando essa uma arte em extinção. Minha aposta é contrariá-lo, em primeiro lugar: não ler Leskov como um documento histórico, ou modelo de uma época, por exemplo como Proust, mas de fato para aprender com ele, como ele faz.

Meu conto, de quarta, é o documento dessa tentativa. Eu sentia que ela fracassava, por isso o texto de ontem. Mas, fracassava em quê? Foi a Renata quem sacou.

Fracassava em que a narradora, sendo mulher, me induziu, o que não era ruim, a princípio, a adotar uma perspectiva confessional, como se buscasse o íntimo, o mais íntimo, da experiência. Não uma moral qualquer, por exemplo, mas a experiência na sua crueza, ou na sua sensibilidade, características que, de resto, como bem dito pela Jeanne em sua oficina, são, às vezes pejorativamente, atribuídas às mulheres autoras. Nisso, creio, não fracassei, provando, tangencialmente, que isso não é uma característica das mulheres como escritoras, mas um lugar possível da literatura, como outros, e se é verdade que aos homens escritores este lugar não está vedado, às mulheres não está prescrito.

Tal experiência, íntima, confessional, não menos assim por não ser a minha, ou por não poder prová-la como sendo a minha, senão pelo escrito ― mas ela não é tão única assim que o texto se valesse apenas por ela ― é o que tentei denominar ali como “uma segunda tragédia”. Por que segunda? Como a Segunda Troia, de W. B. Yeats, ela não opera singularmente. De novo: não é tão única assim que o texto se valesse apenas por ela. Apenas em sua conexão com a primeira tragédia, a tragédia comum, dos alagamentos e desabrigados em Porto Alegre, ela poderia se alçar à categoria de uma experiência comum, ou seja, não que não seja comum, ao contrário, já afirmei que não é de forma alguma única, mas que pudesse ser comunicada, que estabelecesse alguma comunicação entre essa experiência privada, íntima, confessional, e esta outra, coletiva, histórica, geográfica.

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Eu e Fred trocando o pneu a caminho de Curitiba

Isso é o que alcançam tanto Leskov quanto Gombrowicz. De fato eles o fazem de maneira explícita, evidente, e o realizam. Não que a conexão, ela mesma, entre as duas tragédias, ou dramas, ou comédias, não que esteja a cada vez necessariamente óbvio, ou evidente. Mas essa intenção claramente existe, e talvez o valor intrínseco das suas obras esteja, justamente, na emersão repentina dessa conexão, que no meu conto, evidentemente, não ocorreu. Ou, talvez, tenha ocorrido?

Seria preciso relê-lo, com essa perspectiva, reler O narrador, do Benjamin, para entender os caminhos pelos quais essa conexão pode se efetivar, e aprender a identificar quando ela ocorre, quando não, e por quê.

Um conto deve dizer algo sobre alguém, mas deve dizer algo para alguém. Essa conexão, entre as duas tragédias, é necessária. É absolutamente necessária.

“Estou ouvindo vozes!”

Como estamos juntos nessa, nunca deixamos de nos surpreender por estarmos juntos nessa. Porque cada um é um. Tem quem viaje com três calcinhas, tem quem não consiga fechar a mala. Tem quem não fez a mala ainda. Mas ainda nos surpreendemos por estar junto nessa.

Então hoje estávamos conversando, numa dessas maravilhas recentes, o Telegram, através do qual retomamos a antiga arte de escrever bilhetes ―e quem diria que o telefone, esse que não se pode ignorar, deve-se amar ou odiar, como queria Raymond Chandler, voltaria a ser um instrumento de escrita!?― e descobrimos que, cada qual, estamos ouvindo vozes!

Vozes novas, parece. Cada um está descobrindo ―isso que descobrimos!― um novo modo de escrever e de pensar sobre a escrita. Não sem contato com tudo que, cada qual, já fizemos até hoje, de maneira alguma. Mas assim mesmo um modo novo de se relacionar com o ofício.

The Purloined Letter
Gravura “The Purloined Letter”, autoria duvidosa

De minha parte ―e gostaria de guardar como segredo, mas, e daí? como a Carta Roubada, do Poe, o esconderei in plain sight― estou muito lendo Nicolai Leskov. Sim, o Narrador eleito por Benjamin. E com isso retomando algo que nunca havia sabido nomear, que exercia um pouco instintivamente, e que confundia com o próprio ato de escrever… ora, era a minha maneira de escrever! E agora estou um pouco me dando conta do que se tratou, sempre, até aqui. E que, doravante, deve prosseguir.

Em uma palavra, trata-se de uma maldade. Esses dias vi uma entrevista em que o Bataille falava justamente ―talvez um pouco justamente demais― sobre isso, o que certamente inspirou minha reflexão: escrever tem qualquer coisa de imoral, de indecente, de mau, mesmo. Escrever, ele diz, é o oposto de trabalhar. Pra mim, escrever é fazer algo mau. Era isso que ensaiei dizer, no outro dia, quando falei que o aforismo do MdA não me havia servido totalmente. Porque ele falava de escrever melhor, e eu tenho a impressão ―e creio que isso não seja fácil de engolir, mas é assim mesmo o mais verdadeiro que eu possa sustentar― que a escrita deve ser, para mim, escrever sempre pior. O que não é simples, não é não! Mas é a única maneira. Porque escrever é ouvir não o que o ouvido pede, mas o que a língua exige, deixar louça na pia, comer quando a mão descansa, e trabalhar ―se tanto!― da mão para a boca, porque não se trata de construir nada, nenhum império, senão um palácio de cristal.

E sim, o dinheiro tem tudo a ver com isso. Mas disso eu falo amanhã, porque o dinheiro… será mesmo que o dinheiro não fede?