A função ecológica do poeta

Em um mundo com excesso de informação e de palavras, o ideal seria o silêncio. Há algum tempo vendo querendo escrever sobre isso, tema de uma parte da conversa com outros escritores, em Curitiba. Foi a partir da observação do poeta Ismar Tirelli Neto, carioca, recém-chegado à capital paranaense: coisas demais são ditas o tempo todo, escritas, publicadas. O ideal seria não escrever. Mas algumas coisas pedem para ser colocadas na página, no mundo. Ismar diz que, em vez de perseguir o poema, a fagulha da ideia (não me recordo das palavras exatas, mas era algo nesse sentido), tem deixado que o poema o persiga. Ao contrário de anotar para não esquecer, deixa que o poema se vá, e se ele persiste, por dias, só então toma nota. Escreve apenas o que resiste a essa passagem, o que pede, insistente, para ser escrito.

O poeta Reuben da Cunha Rocha, o CavaloDADA, escreveu certa vez em seu Facebook: a principal função ecológica do poeta é não desperdiçar papel. Aquilo me pegou, forte. Anotei para não esquecer. Porque acredito nisso: é preciso cuidado para não adicionar ruído ao mundo. Não ser vão. Se é preciso escrever, seja lá porque razões cada um se dedica a isso, é bom que aquilo que se escreve precise mesmo ser dito, não apenas por razões emocionais (acho que as piores de todas), mas estéticas mesmo, seja lá o que for essa jabuticaba. Ideal mesmo seria o silêncio, mas na impossibilidade desse, ficar com o que resiste, o que se destaca do ruído geral.

É aí que existe, também, um conflito: como escritora e feminista, sei que uma das razões para a disparidade de gênero reside na insegurança de muitas mulheres em publicar seus textos, em mostrá-los. Resistem a chamar a si mesmas de “escritoras”. Ficam na gaveta. Muito por causa delas, a Ana Rüsche criou a oficina para destravar gavetas. Que é pra desbloquear, gerar coragem. Colocar-se no mundo. Para muitas mulheres, o silêncio é a única opção, ainda que algumas coisas peçam para ser ditas. Eis meu dilema: equilibrar o incentivo a colocar-se no mundo apesar de todas as dúvidas com minha crença, própria, na responsabilidade pela palavra dita (o que talvez a gente possa chamar critério, o qual será sempre pessoal e passível de discordância, claro). No tempo, no preparo, na espera, na não-ansiedade em publicar. Aponto isso na conversa em Curitiba: Ismar lembra que não há resposta, é sobre esse terreno movediço que caminhamos. Oscilando entre dizer e não dizer, a balança pendendo cada hora para um lado.

***

Se para a poesia seria ideal o silêncio, na vida é o contrário: muito pouco, quase nada, é de fato necessário. Comer, dormir. Talvez um teto, segurança. Saímos disso e vamos para o que não é, de fato, primordial. O dilema existencial prevalece: não há sentido dado, não há essência, o propósito será unicamente o que pudermos dar. E aí o melhor é conseguir ir além do básico, da sobrevivência em si, e conseguir injetar significado nos pequenos atos cotidianos. Nas relações. Sendo a vida um grande rascunho que não será passado a limpo até a morte – talvez nem mesmo então –, vale mais conseguir aproveitar, gozar, os caminhos. Não existem momentos vãos, a não ser pelo contexto que prega produtividade a qualquer custo. 

Algumas pessoas não conseguem, porém, aproveitar esses caminhos. Com algum defeito de recepção, são incapazes de gerar sentido nos atos miúdos da vida, nesse rascunho. O único sentido que conseguem dar é pelo que escrevem (é aí que tentam, algumas, desafiar a morte; outras, um pouco mais espertas, contentam-se com aprender a morrer).

Para essas pessoas, só resta orar às musas para que aquilo que escrevem valha a tinta e o papel em que foi impresso. E assim suas vidas não sejam, totalmente, desprovidas de sentido.

O escritor não tem somente o seu espírito

No carro, vivenciamos grandes experiências. Porque o carro pode, sim, ser um lugar. A Van Poesia tornou-se um lugar, desde que a ocupamos. E nesse lugar, temos encontros. Depois de ter publicado o texto de ontem, no blog, o pessoal pediu pra que eu o lesse, em voz alta. E o ler em voz alta proporciona uma experiência diferente do ler em silêncio.

Historicamente, o ler em silêncio vem depois do ler em voz alta. A reflexão que essa experiência permite, o voltar-se para a interioridade, é testemunhado por Santo Agostinho, que relata observar, com espanto, um monge lendo textos bíblicos em silêncio. Mas hoje, quando tudo é tão barulhento e o ler se torna uma atividade solitária, silenciosa, a reflexão passa a ser o normal, o regular, o corriqueiro. Então, ler em voz alta passa a ser o que nos põe num lugar diverso, onde podemos escapar às nossas próprias reflexões, necessariamente limitadas, e alcançar a experiência de outros, o espírito de nossos amigos.

Também por isso lemos em silêncio, na verdade, para ouvir os mortos ― e todo autor é, em certo sentido, morto. E as reflexões que tenho feito, assim como o texto que apresentei na quarta, têm por base algumas dessas escutas. Para a viagem, tive o cuidado, de outra forma raro, de escolher não os livros que estavam atrasados, não os que estavam emperrados, mas dois, e somente dois, que servissem de guias para a investigação que eu queria empreender. Tudo isso vem muito a calhar.

Os livros, portanto, eram os seguintes: Homens interessantes e outras histórias, do Nicolai Leskov, e A pornografia, do Witold Gombrowicz. O primeiro não cheguei a abrir, o segundo estou terminando. Leskov, porém, é um autor que já vinha lendo, a partir de um outro livro de contos, publicado aqui sob o título A fraude e outras histórias. Ele é, também, creio que já mencionei isso aqui, o autor que Walter Benjamin escolheu como epítome do narrador, considerando essa uma arte em extinção. Minha aposta é contrariá-lo, em primeiro lugar: não ler Leskov como um documento histórico, ou modelo de uma época, por exemplo como Proust, mas de fato para aprender com ele, como ele faz.

Meu conto, de quarta, é o documento dessa tentativa. Eu sentia que ela fracassava, por isso o texto de ontem. Mas, fracassava em quê? Foi a Renata quem sacou.

Fracassava em que a narradora, sendo mulher, me induziu, o que não era ruim, a princípio, a adotar uma perspectiva confessional, como se buscasse o íntimo, o mais íntimo, da experiência. Não uma moral qualquer, por exemplo, mas a experiência na sua crueza, ou na sua sensibilidade, características que, de resto, como bem dito pela Jeanne em sua oficina, são, às vezes pejorativamente, atribuídas às mulheres autoras. Nisso, creio, não fracassei, provando, tangencialmente, que isso não é uma característica das mulheres como escritoras, mas um lugar possível da literatura, como outros, e se é verdade que aos homens escritores este lugar não está vedado, às mulheres não está prescrito.

Tal experiência, íntima, confessional, não menos assim por não ser a minha, ou por não poder prová-la como sendo a minha, senão pelo escrito ― mas ela não é tão única assim que o texto se valesse apenas por ela ― é o que tentei denominar ali como “uma segunda tragédia”. Por que segunda? Como a Segunda Troia, de W. B. Yeats, ela não opera singularmente. De novo: não é tão única assim que o texto se valesse apenas por ela. Apenas em sua conexão com a primeira tragédia, a tragédia comum, dos alagamentos e desabrigados em Porto Alegre, ela poderia se alçar à categoria de uma experiência comum, ou seja, não que não seja comum, ao contrário, já afirmei que não é de forma alguma única, mas que pudesse ser comunicada, que estabelecesse alguma comunicação entre essa experiência privada, íntima, confessional, e esta outra, coletiva, histórica, geográfica.

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Eu e Fred trocando o pneu a caminho de Curitiba

Isso é o que alcançam tanto Leskov quanto Gombrowicz. De fato eles o fazem de maneira explícita, evidente, e o realizam. Não que a conexão, ela mesma, entre as duas tragédias, ou dramas, ou comédias, não que esteja a cada vez necessariamente óbvio, ou evidente. Mas essa intenção claramente existe, e talvez o valor intrínseco das suas obras esteja, justamente, na emersão repentina dessa conexão, que no meu conto, evidentemente, não ocorreu. Ou, talvez, tenha ocorrido?

Seria preciso relê-lo, com essa perspectiva, reler O narrador, do Benjamin, para entender os caminhos pelos quais essa conexão pode se efetivar, e aprender a identificar quando ela ocorre, quando não, e por quê.

Um conto deve dizer algo sobre alguém, mas deve dizer algo para alguém. Essa conexão, entre as duas tragédias, é necessária. É absolutamente necessária.

Sobre meu texto de quarta

Há uma certa decepção que acompanha toda realização. Gombrowicz assim o descreve:

Fiquei sozinho, decepcionado, como acontece cada vez que alguma coisa se realiza ― pois a realização é sempre tumultuosa, insuficientemente precisa, privada da grandeza e da pureza do projeto. Tendo cumprido minha tarefa, sentia-me subitamente desempregado ― que fazer? ―, literalmente esvaziado pelo evento que eu havia provocado. A noite caía. De novo, a noite caía. (W. Gombrowicz – A pornografia)

O mesmo ocorre, por exemplo, depois de publicar alguma coisa. Depois de dar uma aula. Lembro ainda quando publiquei meu primeiro poema. Tinha a impressão de que nunca mais escreveria algo à altura. Um equívoco, claro, porém faz-se preciso algo para quebrar o encanto.

Quando lidamos com um texto mais cuidado, sobre o qual já nos debruçamos mais de uma vez, costumamos conhecer suas qualidades e defeitos ― seus pontos fracos ― com mais intimidade, a permitir ver o que nosso próximo texto exigirá como superação. Sob outro aspecto, reler um texto algumas vezes faz-nos ver o que ele mesmo exige de si, para que prossiga, para que produza uma continuação, para que revele seu charme. Não assim com um texto recém escrito. Os contos têm, ao menos para mim, esse efeito: se não o realizo por inteiro, já não posso terminá-lo. Por outro lado, se o concluo, mal posso avaliar seu alcance: sou mais cego que aquele que o lê, pela primeira vez, e não sabe como se realizou. Por isso, disponho-me, agora, a analisar como fiz o texto que apresentei quarta-feira, no Mondo Cane Bar. Creio que estarei me expondo bastante, mas creio também que devo algo aos que nos levaram para lá.

Como dito, achei que não cabia ler um texto pronto. Um poema do meu livro, por exemplo. Quando começamos o projeto, pensei em levar poemas novos; não inéditos, necessariamente, mas que pertençam ao próximo livro, que planejo há tempos, sem nunca ter reunido seus poemas. Mas também queria ler uma prosa, achei que funcionaria mais. Então, chegando em Porto Alegre, já acolhido, confortável, com cobertor e aquecedor ligado ― obrigado, Marco e Ana Narvaez! ― ― esqueçam essa coisas de beatniks, nenhum de nós tem grande apreço por esse tipo de literatura, a não ser por aquilo que, neles, era periférico, e isso não por qualquer desapreço ao que seja canônico ― sentei-me à mesa e comecei a escrever, sabendo que teria apenas a quantidade de minutos disponível até o início da leitura. Não havia muito espaço para planejar.

Meu texto, então, começa tentando nos remeter ao agora ― nossa chegada a Porto Alegre, as notícias dos photo_2015-07-24_21-10-54alagamentos, os desabrigados ― ao mesmo tempo que nos remete àquilo que eu sabia que não veríamos ― os alagamentos, os desabrigados, a tragédia que isso representava, e que conhecemos tão bem, os que vimos de São Paulo. Para manter algum interesse na história, ou seja, para que ela nos tocasse num nível pessoal, já que a tragédia dos outros só nos toca quando podemos nos identificar com seus protagonistas, anuncio uma segunda tragédia, que deveria afetar minha personagem. Nesse ponto, decido, também, adotar uma personagem-narradora mulher, uma forma de me afastar ligeiramente dela, a fim de descolar minimamente minha própria chegada à cidade, da qual tirava o cenário, a inspiração e o caráter, da história que pretendia contar.

Mas que história era essa? Eu ainda não o sabia. Comecei pela preparação, sem saber a que levaria. Não é assim que eu começaria um conto, se fosse planejá-lo. Mas eu escrevia sem plano, de modo que preparava, anunciava uma tragédia, sem saber em que ela consistia. Era o preço a pagar por escrever um texto em cima da hora.

Então me recordei das redações de escola, quando sabia ser preciso escrever um certo número de linhas, sabia ter um prazo limite para escrever, e tinha total liberdade quanto ao resultado. Minhas redações eram, via de regra, consideradas competentes ― suficientes ―, então eu nunca me preocupava muito. Desta vez, era parecido: se o texto saísse ruim, eu apelaria para o plano B, leria os poemas já publicados, terreno seguro. Era parecido também sob esse outro aspecto: eu escrevia sem ter o quê, apenas para escrever, para cumprir uma tarefa ― ainda que o fizesse com gosto, com ímpeto de obter um bom resultado ―, mas sem ter sobre que falar, sem ter, a princípio, algo a dizer. Fazia o caminho ao caminhar. Como boa parte da minha escrita, que tem, então, percebo agora, essa raiz comum, as tarefas escolares da aula de redação.

Não, diferente deste texto, eu não partia sequer de uma ideia, partia simplesmente de um tatear. Quando concluí a primeira parte, a preparação realizada, pensei em parar: eu sei que este texto não está levando a lugar nenhum, mas sei que a preparação está adequada. Sei o que se diria, se eu parasse aí: que dá vontade de saber como termina. Mas, bem analisada, era uma preparação incompetente, e dessa incompetência nasceria o julgamento, a instigação, que tornaria o texto supostamente interessante: dá vontade de saber como termina. Porque se intuiria que não há como terminar, não há caminho.

Ao mesmo tempo, garantido pelo terreno sólido dos poemas que teria para ler, caso tudo desse errado, ousei prosseguir. Além disso, sabia que se parasse não poderia prosseguir, depois, que então minha explicação de que se tratava de um texto em preparação, um trecho, a ser concluído, não passaria de uma mentira, uma mentira consciente, inconsequente… achei que não seria uma chegada digna em Porto Alegre. Decidi continuar.

E a cada passo da narrativa, percebia que não havia mesmo como concluir a história. Simplesmente, a preparação não havia sido suficiente, não havia pistas, não havia ambientação, não havia profundidade psicológica, não havia conexão entre a ação, a personalidade, e os fatos que serviam de pano de fundo ou mesmo justificativa para a história ― que a tornaria relevante para nós. Nada disso. Portanto, não havia como terminar. Nada que acontecesse poderia se ler como uma tragédia, como anunciado. Talvez, uma grosseria, talvez, uma decepção, talvez, uma frustração. Mas não uma tragédia.

Conforme aproximava-se o momento da leitura ― a Ana e a Jeanne já haviam se apresentado ― eu precisava urgentemente de uma solução. Costumo escrever quase sem rasuras. Recorto, colo, acrescento ― às vezes corto ― mas sempre depois, no computador, quando releio, falo em voz alta, experimento o texto impresso. No caderno, quase nenhuma rasura. Não os últimos dois parágrafos: tinham de ser precisos, pois tinham uma função precisa: a de esconder o terrível fato, de que eu não tinha uma história, como, de resto, quase nunca tive.

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E assim fiz. A pergunta que se coloca, então, é: meu não ter história, mas haver conseguido (será?) ocultá-lo, faz com que eu tenha uma história? Será que houve espaço, no conto, para que o leitor complete minha falta de experiência com sua própria, fazendo, assim, com que meu vazio seja preenchido? Ou, então, a persona de escritor de que, escrevendo, me faço revestir, é suficiente para que a não história seja tomada por uma história? A leitura em público é muitas vezes suficiente para nos fazer ouvir a nós mesmos ― é o que pareço fazer aqui ― mas o que terão os outros ouvido? Ainda não pude constatar. A fatídica pergunta ― o que você achou? como foi? ― dificilmente alcança qualquer resultado. Não obtive qualquer resposta que me desse alguma pista. O que talvez seja, por si só, um indício: não alcancei ninguém. Mesmo que ninguém esteja pronto a admitir isso ― por generosidade, certamente. Que não me aproveita, como escritor, senão como um amigo um pouco mais contente.

Então minha decepção já não é tanto pelo realizado, mas por não encontrar meios de verificar se de fato o realizei. O que pretendia fazer, com este texto, mas também aqui verifico não ser possível. Por outro lado, isso é bom, não recaio sob a paralisia da realização. Continuo a escrever. Faço perguntas: se esse texto, feito às pressas, não funciona, o que é preciso para que funcione? Talvez não tanto ele, mas outro, um próximo. Como resolver um texto que é construído dessa forma? É possível fazê-lo? Ou essa é uma forma equivocada de construir um texto, será preciso mais preparação? Ou, ao contrário, será preciso, nesses casos, reconsiderar o que chamamos de “resolver um texto”, tomando outro resultado, diferente, sob esse título?

Nada mais digo, senão isto: esta viagem tem valido para me reconectar com este tipo de investigação. Ela foi necessária; absolutamente necessária.

Cruzando pontes

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Quando eu cruzei a ponte para chegar na ilha de Florianópolis pela primeira vez, já foi de malas prontas. Era o ano 2000, e eu tinha passado no vestibular para Jornalismo na UFSC. Não tinha estado na cidade nem mesmo para a prova, já que havia a possibilidade de fazê-la em uma cidade mais perto de casa.
Não sabia nada nada sobre Floripa, exceto que tinha mar. Não sabia que os habitantes daqui eram chamados de manezinhos, que a cidade tinha uma cena forte de rock independente, que havia uma Lagoa linda (e que eu cruzaria tantas vezes para ir ao bar mais legal que já existiu). Não sabia das cores incríveis da cidade, nem do chiado do sotaque (bora fazer um surrax, porrax).
Também não sabia muito sobre Jornalismo, o curso que eu vinha fazer. Eu achava que Jornalismo era escrever coisas. E era isso que eu queria fazer: escrever.
Da janela do ônibus, depois de 19 horas de viagem desde Uberaba, dava pra ver a ponte Hercílio Luz, essa da foto. Por cinco anos, o tempo que morei aqui, cruzar a ponte e ver a Hercílio Luz ali do lado me dava uma sensação difícil de definir, um pouco bittersweet, como a de voltar para casa, mas também a de saber da transitoriedade das coisas, do seu estado de passagem. De saber que isso não iria durar, e que eu iria embora um dia. Hoje acho que sei melhor o que era: um estado de poesia. Uma sensação bonita, de encher o peito de uma alegria ligeiramente melancólica. Coisa de beleza mesmo.
Quinze anos depois, cruzo a ponte novamente. E a Hercílio Luz está ali, em sua beleza forte e solitária. Muito parecida, percebo eu, com a ponte que está em nosso logo, criado pelo Max. Desde o início desse projeto, uma de nossas metáforas para descrever o que queríamos fazer era o “cruzar pontes”: poder nos aproximar de outros escritores e leitores, de gente interessada em poesia nas diversas cidades. Dinamitar barreiras, sim, mas principalmente fazer travessias que conectem pessoas. Ligar ilhas e continentes. E, dentro disso, faz todo o sentido que Florianópolis, essa ilha de cores lisérgicas, seja nosso primeiro ponto de parada. Aqui nossas pontes deixam de ser metafóricas para virar concretas. E comigo fazendo aquilo que eu queria fazer desde a primeira vez: escrever.
A Ana Rüsche costuma dizer que uma das maneiras que ela tem de tomar decisões na vida é ver o que a Ana de 15 anos acharia daquilo: ela prometeu a si mesma, com essa idade, nunca se desapontar. Pois bem. Acho que aquela Jeanne de 18 anos, que ainda não sabia de muita coisa quando atravessou aquela ponte, há 15 anos – acho que ela ficaria feliz.

A vida ou a escrita

Hoje não tenho notícias. Queria escrever um conto. Mas toda vez que sento para escrever, a mesma pergunta: que vale mais? A vida, ou a escrita? Invariavelmente, a vida vence. Escrever é tão maçante!

Mais "poesia", menos orgia
Muro no bairro do Perequê, Ilhabela. 2014.

É claro que nem todo mundo concorda. Rilke, por exemplo, falava de uma vida que só valeria a pena ser vivida para a escrita. E o cumpria! Nós agradecemos, porém não posso deixar de olhar para isso com certo desdém, o desdém com que também olho certos religiosos…

De minha parte, preferia antes uma escrita que fosse feita para a vida. Um tecido, uma tessitura ―alguns chamam assim o texto― que não fosse amarração, mas o desfazimento de alguns nós… que nos impedem de viver. Por exemplo, escrever não o drama, o que tão dignamente a ana rüsche contesta, mas seu antídoto, não sei, uma forma de filosofia, de azeite…

 

Falamos às vezes, na psicanálise, da fantasia. Ora, o que é a fantasia, senão uma narrativa? E com ela vivemos, com ela amamos… através dela enxergamos o mundo. É a narrativa que constitui nossas vidas, que nos contamos sem nem mesmo perceber que o fazemos. E daí a questão: o que é, diante de uma história tão elaborada, qualquer outra inventada?

 

Pois aí é que reside todo o mistério.

Na estrada, escritores

Refletimos longo tempo ― talvez fizéssemos melhor se fôssemos espíritos mais práticos, mas não ― sobre o significado da turnê. A chamá-la turnê, já damos uma imagem, essa que aparece infelizmente sem a imagem da Renata, mas com as outras três e eu, a imagem de uma banda de rock. Que, a bem dizer, é o que nós somos.

O problema está em que essa banda, ela não se chama, por exemplo, The Rolling Stones. Ela se chama Escritores na Estrada. Então começamos a fazer perguntas.

Não é preciso ser psicanalista ― embora talvez fosse vantajoso, já que é desse tipo de problema que tratamos ― para perceber que nos chamarmos Escritores na Estrada põe diante de nós dois problemas absolutamente distintos: a uma, que vamos sair de nossas casas, de nossa vida cotidiana, para nos lançar na estrada, sem saber muito o que nos espera. Não conhecemos com intimidade, ainda quando conhecemos um pouco, os outros escritores que encontraremos, que serão, assim desejamos, nossos guias e razão de viajar, nosso intercâmbio e amizade. Já isso não é mole. Já levanta certa grau de ansiedade ― embora, talvez, do tipo bom: das férias, como se fossem, de bonheur, dos bons encontros que esse tempo pode nos proporcionar.

Mas se “na Estrada” é digno de atenção, quanto mais não será “Escritores”? Pensa-se que temos cá uma carteirinha que nos autoriza? Sequer os mais de 170 apoiadores que tivemos, perto de 200, se contarmos os apoios diretos, amistosos, desapegados, que tivemos, não nos faz, do dia para a noite, escritores, ao contrário, faz-nos, aos mais sensíveis ― não somos todos? ― nos perguntar: o que faz de nós escritores, que vamos sob essa marca pôr os pés na estrada? O que, além de sermos alfabetizados, nos qualifica?

Quando organizamos, como a Renata Corrêa e a ana rüsche fizeram, grupos de criação literária que acabam recebendo uma porção de ótimos escritores que, no entanto, não se qualificam como tal; quando uns dois ou três assim ditos escritores ― e o são, como negar? ― respondem publicamente sobre a assim dita literatura feminina dizendo-nos que não há tal coisa, mesmo sendo todos homens ― e por que mesmo a eles foi dirigida a pergunta? ― então não me parece nonsense perguntar: o que faz de nós escritores, ou escritoras?

É uma pergunta que todo escritor se fez, ou se faz, vez ou outra. Eu, por exemplo, tomei por muito tempo como resposta que um escritor é quem procura um tema. Um escritor podia, inclusive, ser alguém que escreve mal, desde que tivesse em mente um tema, que busca. Ainda hoje acredito que um escritor não se distingue por escrever bem ― há tantos maravilhosos que escreviam mal, e tanta gente que escreve bem mas não faz a menor ideia do que seja o ofício literário ― mas por saber caçar seu tema. Isso é um critério, e o mantenho. Não é o bastante, porém, pois um pintor procura igualmente um tema, e pintar vitórias-régias não faz de você um escritor, porque a literatura se faz com palavras.

Mário de Andrade, que muito me serviu de modelo e ideal, ainda hoje, disse certa data que para um escritor não se trata de escrever bem, mas de escrever melhor. Isso, assim, não está de forma alguma em contradição com o que eu pensava, de modo que o adotei. Mas, escrever melhor, é como pegar o ato do escritor em pleno voo. É como congelar um salto. Como escreveu o poeta argentino Roberto Juarroz, todo salto deve voltar a apoiar-se. Assim, também o aforismo de MdA não me serviu completamente. Não por um motivo menor, também percebia que o ideal que impunha era alto demais, o de escrever sempre melhor. Há certa crueldade, nisso, a crueldade dos masoquistas, para quem nada nunca tá bom… Era preciso buscar ainda adiante.

A estrada tem um pouco dos dois: do salto, do pleno voo, e de caçar um tema. Se alguém me dissesse: o escritor é aquele que se pergunta o que é um escritor, me agradaria a tautologia, por esconder um paradoxo, mas me faria suspeito da sua extrema facilidade. Em que bases se sustenta essa pergunta? Onde ela se verifica, de fato? Que provas posso dar de ter genuinamente perguntado?

É essa espécie de reflexões que essa viagem me desperta, a cinco dias da partida, e desde antes, até.