Delmo Montenegro: Recife, No Hay

Esses dias me caiu na mão um livro do Delmo Montenegro: Recife, No Hay. Nunca tinha lido o Delmo, embora ainda lembrasse da sua figura grande, calma, que me faz pensar numa montanha. Imagino que, para ele, estar em São Paulo seja um pouco como estar entre os selvagens: mas ó, como ele sabe se portar entre selvagens. Gentil e tal, fico na incumbência de procurar algum sinal disso em sua poesia: um segredo, um truque, um guia.

Não é assim que vocês leem poesia? Procurando um caminho que já foi trilhado por outra pessoa, e que talvez você também queira trilhar? Acho que é assim que nós enfrentamos a poesia: os Escritores na Estrada. Claro que é essa minha forma de encarar, e esse o traço de identificação que me une aos outros; não sei mesmo o que eles diriam sobre isso. Não seguimos mestres, entre nós.

Seja como for: Recife, no hay. De maneira que encontro apenas pistas, como naquele filme do David Lynch. Por toda parte, tem-se apenas uma certeza: Delmo Montenegro was here. Tudo o mais parece aleatório. Ele joga para nós referências pacas, sem, é claro, fazer qualquer distinção entre as cultas e as populares, que isso seria grosseiro demais pra elegância da sua escrita, o que certamente não significa que facilite a leitura. Como quem cita o nome de ruas que ficam em lugares que você nunca visitou, ele vai mapeando suas amizades, seus amores, seus delírios, e você tenta acompanhá-lo, como quem sente que está prestes a testemunhar algo precioso acontecer.

Recife, No Hay, portanto, é o único título possível para este livro de poesia, algo raro, que denota a necessidade de tudo aquilo que se passa de maneira aleatória como a vida, diante de nós, seus leitores. Procuro um projeto, imaginando assim que um livro possa se constituir de um projeto, mas não neste caso, porque projeto não há, há ao contrário uma cartografia, nada menos que isso, feita de imagens e palavras “― não estamos falando de música, é claro”. Mas não do que ele leu, mas do que ouviu, o que torna tudo mais interessante: não se trata de alguém que leu sobre um país distante, mas de alguém que esteve lá. E daí, também, o paradoxal deste livro ter esse nome; porque aparentemente, esse país não há.

Sendo assim, creio poder dizer, também, que se trata, também ele, de um viajante. Mas ele, ao contrário deste, parece estar sempre em casa onde quer que vá.

Continuo lendo, já que não encontro aquele guia que gostaria de encontrar: ele só poderia ser guia em seu próprio país, mas isso já se exclui de saída, além de que não é o que eu poderia visitar. Como um koan budista, sua escrita se apresenta como um paradoxo: não se pode explicá-lo sem perder de vista o sentido, mas sem explicá-lo, tudo não parece um jogo alucinado? Bem, é o tipo de paradoxo que eu esperaria de uma montanha convertida em pessoa, se ela de repente ― e por que motivo, meu deus? ― se dispusesse a escrever o que se passa com ela. Mas se não explico, também não tenho do que reclamar.

PS.: Recife, No Hay foi publicado pela Companhia Editora de Pernambuco em 2013 e ganhou o Prêmio Pernambuco de Literatura.

a mala

IMG_3090Virginiana com todos em planetas em virgem faz uma mala que é uma beleza! Não precisa de lista. Acorda na madrugada, horas antes de partir, e faz a mala com precisão. Da mala é a própria. Não esquece condicionador. Nem cadeado. Nem batom. Muito menos toalha, própolis, havaiana, meia.

Mas empaco sempre no “qual livro vou levar comigo”?

Claro, tem o kindle. Que são muitos livros. Mas ainda sou salamandra desses tempos anfíbios, nem cá, nem lá. Tenho repentes. Às vezes, me faz a falta terrível o papel. A presença. Em muitas viagens, levei um capa dura, nada prático, o Teoria do drama moderno [1880-1950] do Peter Szondi. Lembro de ter ido pro México. Não me pergunte o motivo. Talvez seja para evitar o drama.

Noutras, compro livros em aeroporto, rodoviária. Dessas edições porcarias que amo, em papel jornal, que se desfazem ao final da leitura. Um que me marcou foi o Norwegian Wood do Murakami que li na Etiópia – bastante pós-moderna a situação “brasileira lê japonês em inglês em Adis”. Ficava xingando o drama barato, mas do livro não largava. Talvez o Szondi já não pudesse me ajudar.

Desta vez, já tenho dois candidatos. O livro do Delmo, Recife, no hay. Pra lembrar que vamos rumo Sul, mas com outros céus em vista. E um outro livro que me chegou de surpresa, um presente na mesa do trabalho. Autografado pelo organizador, Alberto Dines. Um livro sobre o século passado, O mundo insone e outros ensaios, do Stefan Zweig. Pra lembrar que vamos ao futuro, mas com a história nos mordendo os calcanhares.

Fred, não me xinga, que juro que minha bagagem é pouca.

Trago muito contrabandeado aqui por dentro.