De Nova Iorque para Curitiba. Com amor.

A turnê dos Escritores na Estrada passou pelo Sul do Brasil estreitando laços, desvirtualizando corpos, demonstrando por A + B que o olho no olho ainda é a maneira mais eficiente e amorosa de aproximação.

Depois de voltar ao Rio de Janeiro embarquei para Nova Iorque, numa dessas conjunções astrais que fazem todas as coisas do mundo coincidirem. Acabou que continuei a flanar, e entre bagels, dançarinos de hip hop, taxistas indianos, e enormes hambúrgueres e coffees to go lembro daquela manhã maravilhosa na Arte e Letra em Curitiba.

Os seus poemas estão comigo, queridos poetas. Passeando na quinta avenida, me emocionando quando viro uma esquina e encontro uma orquestra de gays e lésbicas tocando New York New York, quando vejo Allen Ginsberg pichado em um muro.

Pra dividir um pouco com os leitores do blog essa sensação, coloco aqui os poemas lidos naquele dia. Tão diversos e particulares, assim como os seus donos.

Ismar Tirelli chegou usando a máscara arquetípica do Pícaro e leu seu poema com a serenidade de um mestre zen. Transformações possíveis e impossíveis acontecem quando se está em boa companhia.

Um funcionário
 
Agora que voltei ao escritório, voltarei também ao lirismo?
Dobrar-me-ão de passagem para a copa
as vergas
d’O Cântico dos CânticosAs Mil e Uma Noites,
certa nota de jornal enfiada à carteira
a versar sobre a infinita divisibilidade de Homero
agora com postulados algébricos?
Ora, merda.
A quem cantarei agora estas maravilhas?
pergunto-me
fixando abobado um glossário de termos petrolíferos
uma fotocópia
largada sobre minha mesa, encarquilhada de manuseio
(falando-me do manuseio, falando-me a muitas mãos. Quase tomando-a por algo belo)
gongo à garganta da ascensorista
desce
uma malha de corredores vazios, espalha-se a ordem por
lajotas de mármore
maravilhas?
Coisas tão miscíveis em seu próprio tempo,
que tipo de operação as dissociaria de tão entramada geral?
Eu tratava o divórcio entre as coisas.
Eu tinha tempo.
Estava ainda por topar a palavra Absoluto
em meio a uma interminável lista de aromatizantes…
(Era embasbacá-la, era – sim, um dever moral).
A quem cantarei agora
Óleo absoluto de rosa damascena
                            Óleo absoluto de rosa damascena?
Bem que me disseram que esta era a cidade das coincidências,
que não havia meios de escapar,
que, como toda a gente, eu ainda reencontraria no metrô algum velho
conhecido dos tempos de colégio
abotoado dos pés à cabeça,
que eu ainda seria levado a pensar, forçosamente, na fraternidade dos homens,
nestas partilhas ásperas,
minudentes,
levadas a cabo no mais entalado silêncio.
Eu sabia destas coisas.
Julgava-me – em alguma medida – preparado.
Inclinava as pupilas com a luz branca,
recebia dócil, alegre até,
o beco trabalhado em minha testa.
Mas eu olho para baixo e o que vejo, ao fim do dia, são os sapatos de um outro.
O verniz de um outro.
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A presença dela iluminou o dia. Mari Quarentei é tudo isso e muito mais:
Mariângela Quarentei (Mari) libriana de São Paulo/SP. Terapeuta ocupacional pela FMUSP, implicou-se desde os anos 80 com a temática da desconstrução do manicômio, a criação de novos modos para acolher a loucura, e de dispositivos híbridos entre clínica, vida e arte. Em 2010 retoma a escrita poética a partir do contato com a cena artística de Curitiba, onde reside desde 2013 e faz parte do coletivo marianas de poetas e escritoras. Seu trabalho se dá a conhecer nos saraus e na rede, bem informalmente. Publicou “caderninho de Imagem I” pela “quaseeditora”, Curitiba, 2014 (artesanal). E é também artista visual/pós-graduanda em Poéticas Visuais (EMBAP), desenvolvendo o experimento “Dar a palavra… à palavra: entre a escrita e pintura”.

Poema negro

O poema É VERTIGEM NEGRA

ABSINTO

CRACK

O POEMA EX-PELHA VOCE NUA

NA CORDA DE VêNUS

Deixou-a débil , sutil

incerta… . . .humana

SUJA

PUS PUSTULA

LÂMINA

L Anima

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Mari Costa, por ela mesma:

“Nasci Mariana Raquel, mas a vida me fez Diva. E atualmente como divar não paga as contas, estou advogata.”

Eu a conheci e não tenho como duvidar de uma palavra. =)

Aí vai seu poema:

O busão lotado
De neguinho abarrotado
Vai e vem
A propaganda na janela traseira traz o mandamento
“Pichação é crime”
“Denuncie”
Mas no alto do prédio encontro o paralelo
Do marginal a denúncia:
“Só paro de pichar quando a política funcionar”
Entendeu?
Ou quer que eu grafite?
::
Marcia tem aquela qualidade emocional, o poema foi lido de cor e parecia que ela inteira lia: corpo-alma-coração-dedos das mãos.
“Marcia Pfleger é escritora e jornalista, nasceu no interior do Paraná e mora em Curitiba. Seu primeiro livro de poemas será lançado em setembro deste ano, pela Editora 7Letras. Também tem trabalhos publicados na Revista Parênteses; na Antologia Paralelos – Contos Fantásticos, da Editora Inverso; e no Dossiê Woofianas – Mulheres que Escrevem nos Séculos XX e XXI, organizado pela UFPR. É autora do blog “Unha que risca a lousa”.

Dorflex para meninos-lobos

lembro sim
do surto das amoreiras
sobre os muros arregimentando a
gulodice de pivetes as
mãos ensanguentadas
de suco

lembro esmeraldas em anéis
de lata
joelhos ralados por rolimãs
o mundão no fundo do quintal
seu mapa para sempre
perdido

lembro a época de
coisas assopradas no ar:
bolhas de sabão
dentes-de-leão
pipas coloridas
a esperança…

o tempo em que
fomos felizes
a dor alcançava
apenas ¼ de mim…
era fácil então
despi-la
junto com as meias

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Lubi Prates fala baixinho, parece mansinha e vai lá e cresce uns vinte centímetros a cada verso.

Lubi Prates nasceu em 86, em São Paulo. Estudante de Psicologia. Tem publicado o livro ‘coração na boca’ e algumas participações em revistas e antologias literárias nacionais. Escreve no blog coração na boca. Edita a Parênteses, revista literária virtual e traduz.

carrego mágoas enormes
nos bolsos do casaco:
esse repetir dores imaginárias
e repetir repetir até acreditar.

sou um viaduto carneosso
não ergo meu corpo do asfalto.
o peso disfarço
enquanto amarro os sapatos.
::
Andreia é daquelas moças tão interessantes que você não sabe o que é melhor – ela falando da vida, ela falando da arte ou ela lendo. Difícil escolha.
Andréia Carvalho (Gavita): Poeta. Editora de multimídia na Revista Zunái. Idealizadora do Coletivo Marianas. Autora de “A cortesã do infinito transparente” (2011), “Camafeu Escarlate” (2012) e “Grimório de Gavita” (2014), publicados pela Editora Lumme (SP).
*o êxtase do santo leitor
Queria que me interpretassem demônio esfuziante. Por que me caio e me sinto belo, muito bonito em minha periculosidade efêmera, quando leio os poemas todos de vós. Digo vós por se tratar de uma segunda pessoa, como eu convosco, em medievalidade ritualística.
Fico apaixonado por mim quando vos leio. Depois passa. Como o desejo da moça ex-violinista que só queria o violino para umas erudições clássicas. Depois que foi por um dia o corpo de estradivário, extraindo de suas cordas neurológicas a música que a esticava em escalas estilhaçadas, passou. O desejo findo. Então o espelho, sem pronomes retos.
Assim o faço. Depois de ser belo pela música escrita de vossa alma, recolho-me ao fragmento cortante e luminoso do eu, sem som nenhum, expulsa do vosso paraíso que ousei rastrear. Recolho-me e me diriam anjo calado, pois ao longe pareço dormir, perpétuo como estátua que vela féretros. Então me interpreto. Corrompido pela vossa contemporaneidade. E só há o desejo demoníaco de que me interpretassem dodecafônico pergaminho. Mesmo que a beleza seja inexistente em sua heresia de pulsões. Pois o espelho veio depois da leitura da gravidade. A redação massificante da queda de uma maçã, no jardim de vós, físicos e apaixonados. Sois arcanjos modernos e espalhafatosos, um êxtase para escultor.
::
E por fim o caubói de Morretes, domador de crianças e barreados, Guilherme.
Guilherme Gontijo Flores (brasília, 1984) é poeta, professor e tradutor. estreiou com os poemas de brasa enganosa (2013)publicou traduções de as janelas, seguidas de poemas em prosa franceses, de rainer maria rilke (em parceria com bruno d’abruzzo), e d’a anatomia da melancolia, de robert burton, em 4 volumes (prêmio apca de melhor tradução). neste momento prepara a tradução integral das elegias de sexto propércio. participa do blog coletivo escamandro

song of itself

polar bear track 5 diz o ipod enquanto estico o pé pra fora do ônibus & aponto para a borda do passeio públicosenhoras junto ao lago espreguiçam seus braços nos modos do tai chi
apalpo o bolso pelo fumo insalubre que insisto em carregar nas manhãs
cachorros & madamas cruzam meu caminho sem pestanejar
de fumo em riste ensaio apertar um cigarro a passos largos
são truques estranhos que faço & me imagino caubói spaghetti montado em seu cavalo apertando o palhoso numa só
mão
– seus olhos malignos & calmos seu fumo maligno & calmo a câmera em close ganha força pela trilha sonora –
& causo algum frisson em dois adolescentes
que neste instante me tomam por herói maconheiro em praça pública
eu sou o maconheiro em praça pública mesmo fumando tabaco
sou cadela sadia que conduz sua dona de casa ao passeio como variante do tédio diário
sou dois ou mais adolescentes em busca de crimes menores & heroicos do asfalto
sou mesmo o asfalto do passeio onde passo & que também me atravessa
(fiz um pacto contigo walt whitman
sou-te & deixo-te fora dos pedestais
entregue ao gosto dos pedestres)
& poderia comparar toda esta cena a um quadro de maliévitch ou às cores de godard
para assim dar mais gosto erudito a esta composição canhestra
delendum momentum penso que bem poderia ser a morte que espreita o cidadão mais gordo que sou & corro do outro
lado deste parque num suor de bicas
a cocota sarada o estudante vadio o professor de latim nossas baratas metropolitanas nos bueiros as curvas suaves
dos galhos do ipê sem flor
a próxima faixa deste ipod em minha mão que denuncia minha classe em modos neomarxistas
(também fiz pactos contigo fernando pessoa diversos
mas não pretendo cumpri-los todos & te estendo a mão como um amigo)
as cores de godard ou pinturas de mailévitch ou goya previamente não citado
um neomarxista de barba aparada com tênis allstar & calças milimetricamente surradas
o parque termina antes da música o poema nunca termina o passeio segue adiante

 

Comecei esse post na Union Square e terminei no Brooklyn – a cada parada um pouquinho de vocês. Obrigada queridos, e até breve.

Curitiba: o que teve?

Teve festa, teve amor, teve escritores, teve curto circuito literário, teve carne de onça. E teve SOL. Juro. Teve sol.

Chegamos em Curitiba mortos de frio e fome. Eu e Ana sequer tínhamos tirado os pijamas que tínhamos dormido na noite anterior em Porto Alegre. Ricardo Pontoglio, nosso anfitrião, nos recebeu no Bar Baran. Bar recomendadíssimo por várias pessoas pela seleção de cerveja e a elogiada comida ucraniana. A cozinha fechava 23:30. Olhamos no relógio: 23:33.  Não existiu negociação possível. Frustrados, molhados, esfomeados, esfarrapados tentávamos nos agarrar ao último fio de bom humor brincando com uma tiara de chifres carnavalesca que era a metáfora perfeita de todos nós: vistosa porém um pouco despencada pelo uso. Ricardo nosso anfitrião conseguiu deixar a moral da tropa alta nos levando até a Mercearia Fantinato. A recomendação do garçom simpático era a Carne de Onça, iguaria curitibana que consistia em carne de vaca crua temperada com páprica, pimenta do reino, cebola, cebolinha, ou seja: gostoso. Uma parte da mesa torceu o nariz, mas eu, Fred e Daud demos um salto de fé e apostamos. Experiências gastronômicas fazem parte de qualquer viagem que se preze – Indiana Jones comeu miolos frescos, viu Jeanne? – e logo nosso entusiasmo curioso contagiou a mesa.

No meio, Ricardo, nosso anfitrião corajoso.
No meio, Ricardo, nosso anfitrião corajoso.

Finalmente estávamos de barriga cheia e prontos para apagar. Ricardo foi o louco que nos recebeu todos na mesma casa. Foi a primeira vez que isso aconteceu na turnê. Jeanne e Fred num colchão inflável no átrio, Daud e Ricardo no segundo andar, Gonza e Tarsila no sofá do primeiro andar acompanhados por mim e pela Ana que estávamos no chão com os sacos de dormir. Estávamos super cansados, a viagem de PoA foi muito longa – teve engarrafamento, pneu furado, chuva. Demoramos cerca de 13 horas no percurso. E claro que com isso, acordamos atrasados para nossa leitura e encontro com escritores na Arte & Letra.

Simplesmente ninguém colocou o celular para despertar e a coisa toda começou a ganhar contornos épicos com a gente se enfiando na van poesia como loucos. Deu tudo certo. O lugar era lindo de morrer, uma casa de pedra, um jardim que a cada ventinho fazia folhas amarelas caírem sobre nossas cabeças. Alguns poetas e escritores já estavam lá, o Thiago tinha deixado todo ambiente bem acolhedor. Para abrir os trabalhos cantamos trechos de músicas que cantávamos na estrada. A escolhida foi “Deixa Acontecer Naturalmente” do Grupo Revelação. Foi bem divertido. Fizemos uma breve leitura de nossos livros e dos livros dos nossos convidados. Estavam presentes Andreia Carvalho, Guilherme Gontijo, Ismar Tirelli, Lubi Prates, Marcia Pfleger, Mari Quarentei, Mariana, Ricardo Pontoglio. Se eu esqueci alguém por favor se manifeste para eu poder incluir. O que teve depois foi um dos momentos mais gostosos da turnê, um bate papo sobre a cena literária da cidade, diversidade, processo criativo, mercado editorial. É delicioso poder dialogar com nossos pares, vislumbrar frestas, aparar arestas, construir algo através dessa troca. Fred e Gonza super atentos na funça, captando tudo que podia ser captado.

Escritores na Arte & Letra
Escritores na Arte & Letra

Almoçamos na correria e seguimos para o espaço Das Nuvens que receberia o Curto Circuito Literário. A Keiko além de nos receber no espaço ainda providenciou os cartões postais que iríamos mandar de curitiba. Muito agilizo. O espaço era inspirador e estava lotado. Grupo diverso, atento, interessado. Ana fez as apresentações, eu comecei com a Trajetória do Herói, seguida pela Jeanne com o Leia Mulheres (Suave Pantera não me sai da cabeça), Ana com sua oficina anti engavetamento, Tarsila que botou a galera pra se mexer e Daud com a Escrita do Inconsciente, que sempre faz os oficineiros fazerem Ohs e Ahs de espanto. Ao fim da oficina autografamos alguns livros, e fizemos uma visita ao espaço e entendemos perfeitamente o nome do lugar. É um skyline maravilhoso de Curitiba com as cores de um pôr do sol de tirar o fôlego. Espia só.

Nas nuvens do Das Nuvens.
Nas nuvens do Das Nuvens.

Depois partimos para o Dum Day. Mas isso é outra história que espero que um dos meus companheiros tenha a generosidade de narrar.

Eu e Tarsila mandamos beijinho no ombro para quem perdeu.
Eu e Tarsila mandamos beijinho no ombro para quem perdeu.

 

 

O Rio, de volta ou Derramamento emocional

Em estado alterado de percepção e consciência devido a degustação dos mais finos néctares em forma de cerveja no Dum Day em Curitiba.
Em estado alterado de percepção e consciência devido a degustação dos mais finos néctares em forma de cerveja no Dum Day em Curitiba.

Enquanto meus queridos e intrépidos Escritores Na Estrada seguem para Morretes para encontrar o Gontijo e comer um barreado eu me enfurno no caos do aeroporto de Curitiba para voltar ao Rio de Janeiro.

Eu, Daud e Gontijo curiosamente conversamos dias antes na Arte e Letras sobre as limitações de algumas mulheres pós maternidade em se deslocar geografica e metaforicamente sem os filhos. Apesar de me identificar com isso, o nascimento da Liz foi tão libertador para mim que só depois do parto eu me senti autorizada como autora. E continuamos desdobrando a conversa dançando nessas dualidades.

Acontece que eu precisei efetivamente voltar ao Rio para ficar com a minha filha e não terminar a última parte da viagem e peguei esse vôo. E apesar de ter ficado triste, ambivalente e um pouco angustiada, no fim eu gosto como a maternidade se integra e vaza para minha vida. Eu não deixo de ser mãe da Liz quando estou longe dela. E uma outra maravilhosa revelação é que eu não deixo de estar com vocês, queridos escritores, mesmo estando aqui. Liz dorme ao meu lado, e eu cheiro o cabelo dela avidamente, dou uma paradinha e escrevo para vocês.

Li atentamente o Miolos Frescos no avião, Jeanne. Li como se nunca tivesse ouvido antes você o ler. Li como se nunca o tivesse lido. Quis pegar teu livro na mão como objeto inédito, como conjunto. Seu livro é tão tão lindo, querida. Sua estréia é tão madura, consciente. Eu sinto de forma palpável a permanência dos seus poemas. A posteridade. O posfácio do Dirceu não tem um único excesso – ele é preciso e sabe exatamente o que está falando. Você é tudo aquilo ali. E mais. E esse mais que eu descobri na viagem é muito bom. Tua voz calminha, seu desajuste temporal, sua figura que não precisa de uma única violência impositiva para se fazer notar. Estou com você comigo aqui.

Daud, grumpy grandpa, eu sempre gosto de ser a pessoa mais desinteressante da mesa. Ter ficado na casa da Rita em Floripa e convivido com você naquela cápsula me fez ter certeza que essa é uma preferência sábia e acertada. Suas referências e formação são tão diferentes das minhas que às vezes uma conversinha besta me dava uma perspectiva tão nova, tão surpreendente que eu esquecia o que estava pensando anteriormente. Obrigada por não ter cansado da função de olhar no olho do dark side of the moon por nós, que estávamos na maioria do tempo eufóricos o suficiente para esquecermos que existia também melancolia na estrada.

Aí vem a Tarsila, com a coragem de fazer perguntas. E fazendo perguntas a respeito dela mesma, transitando no terreno difícil da dúvida nos fez a todos fazer perguntas sobre nós mesmos. Você empreendeu a jornada mais clássica, você é nossa heroína. Era tanta doçura em cada pequena coisa, no trato, esse seu comportamento de praticar a empatia como se ela fosse a coisa mais natural do mundo e não fosse necessário nenhum esforço para isso. Navios e Foguetes me comoveu e não só pelo conteúdo (tão delicado, a aranha, a teia), mas também pela ponte que você atravessou para realizá-lo. A feitura na mão, na unha. Gosto de abandonar a metáfora e imaginar como foi literal essa feitura manual, noite adentro.

Ana, Aninha, Anuschka, Ana Ruth, Fox Spice: não é à toa que você tem tantos nomes, né? Não é à toa. Toda vez que você falava sobre a Diva, e aquela sua entonação ambígua entre irônica e séria, eu não conseguia deixar de pensar que se existe a Diva ela tinha encarnado e se manifestado na sua face Punk Pônei bem ali na nossa frente. Essa sua força realizadora é maravilhosa, parece mesmo um desastre natural, avalanche, inundação. Duvido que exista alguma coisa que você não possa, e cada desejo secreto ou exibido que partilhamos eu tenho certeza, certeza, nem uma sombrinha de dúvida que a Diva vai iluminar. Temos a prova: as nuvens sumiram e o sol apareceu em cada cidade onde colocamos nossos pés.

Gonza e Horse Spice: amo vocês muito. Se existe uma regra de alívio cômico em viagens vocês fizeram a preza com perfeição – além da funça pesada que é documentar esse caos que chamamos de turnê. Obrigada. :-)

Queridos,

Baby doll de nylon combina muito muito muito com a gente. Até nossa próxima parada.