O Rio de Janeiro são os cariocas

Então estamos colocando os pés na estrada de novo. Ainda bem! Sabem, isso vicia.

E vamos para o Rio de Janeiro, o que é ótimo, já que é a terra-mãe da Renata, a única do grupo que não mora em São Paulo ― embora não a única do grupo cuja terra-mãe não seja São Paulo; acho que já falamos disso em algum lugar: nossa natureza é a estrada.

E então eu estava pensando sobre isso, o Rio de Janeiro. Parece que os cariocas (ou como quer que se chamem esses que moram na cidade do Rio de Janeiro, em oposição aos que moram fora da capital) tratam sua cidade como uma espécie de xodó. Diferente, muito diferente, dos que moramos em São Paulo, que amamos odiá-la. Sim: São Paulo fede, São Paulo é coquete, São Paulo, base dos bandeirantes, matadores de índios. Mas nós a amamos, isso é assunto para outro post, outro livro de poesia. Mas os cariocas não odeiam sua cidade. Não amam odiá-la. Eles a amam. Eles a adoram. É o que parece, pelo menos. Bem, como poderia ser diferente?

Parece que o Rio de Janeiro continua lindo, foi o que pensei a última vez que lá estive. Então estamos bastante empolgados com essa visita, à Cidade Maravilhosa, como poderia ser diferente?

Daí me lembro algo que ouço, de vez em quando, de paulistas e cariocas alike: o Rio de Janeiro é ótimo, o rúim são as pessoas. Carioca fala “ruim”, mas a frase é a mesma. Então, também eles, eles amam odiar. Mas não odeiam a cidade, odeiam os cariocas. O inferno são os outros. Variações sobre o tema.

Claro, falar do outro, são generalizações. É por isso que as ponho aqui, publicamente: não por orgulho em fazê-las, mas pelo futuro prazer de dispensá-las. Pois as generalizações são isso, não algo que você depois confirma ou contesta, sim o que o conhecimento próximo, aprofundado, dispensa. Cariocas amam e odeiam, como nós, paulistanos. São mais parecidos conosco do que qualquer um de nós gostaríamos.

Sendo assim, e eu acredito que assim seja, e nisso, veja, misturo um pouco essa expectativa, dessa nova incursão, com algum conhecimento de causa, de vezes passadas, belos encontros, que sempre os tive nessa cidade, então: aplica-se ali o que também dizemos de São Paulo ― adoramos dizer: não importa a cidade, importam as pessoas. O que não deixa, tampouco, de ser uma generalização. Mas uma profícua: pois é pelas pessoas que se conhece uma cidade, sejam elas quem for.

E aí enfim nossa metáfora mestra, a da ponte, começa a falhar. Pois pontes unem cidades, não pessoas. Ou… estarei enganado?

Ora veremos…

Um estado de atenção

HITCHTRUFFAUT

O ato de escrever, como permamente exercício de alternância entre alteridade e identidade pressupõe em si um movimento. Mas esse movimento, circunscrito no imaginário do que seria um escritor, e o ato de escrever também carrega em si uma imobilidade. Sentar-se corajosamente diante da página em branco e só sair dali depois de certa luta para preenchê-la onde o movimento só acontece na interioridade.

Eis um paradoxo: o escritor deve então executar a sua obra negando o corpo, imóvel, mas sem negar o movimento.

É claro que com novas tecnologias, o escritor pode começar aqui e acolá a fazer notas de áudio, fotografar uma referência, ou mesmo fazer de seu celular um moderno bloquinho de notas, digitando furiosamente o que passou pela cabeça e parece promissor. Porém mais uma vez, temos que nos debater com a contradição: se antes a flânerie era condição fundamental para o escritor que queria contato com o mundo, como abrir mão das facilidades de uma rápida consulta ao google, ao kindle, a outro escritor ou referência no email ou inbox do facebook, ou mesmo à wikipedia, no conforto na sua cama ou mesa de trabalho?

Quando Truffaut e Hitchcock se encontram pela primeira vez e se reconhecem, diametralmente opostos e complementares há uma espécie de enlevo amoroso. O flaneur francês se apaixona perdidamente pelo mestre do suspense, que tinha como principal premissa de produção o controle. Hitchcock fez a grande maioria de suas cenas icônicas em estúdio, com portas trancadas. Já Truffaut seguia seus personagens pelas ruas de Paris, pontuando com internas aqui e acolá, mas deixando o vento da cidade entrar pelas janelas. Ambos foram dramaticamente modificados pelo encontro – Truffaut realiza A Noite Americana onde remonta um complexo set de cinema e Hitchcock revela que dará a oportunidade para o inesperado, singelamente prometendo a Truffaut deixar agora as portas do estúdio encostadas.

Como senhora da força do acaso, mesma deusa que promoveu o encontro dos dois cineastas na década de 70, Ana Rüsche nos acenou com a possibilidade de uma “turnê” de escritores. A ideia toda parecia maravilhosamente sedutora, mas ainda não tínhamos a exata noção de como materializar esse tipo de ousadia. Seria preciso se imbuir do espírito da viagem. Nos abastecermos de um sentimento de necessidade real e literal de deslocamento como exercício da escrita. Transformar o paradoxo da mobilidade versus imobilidade em aforismo – viajar é preciso. Viver é necessário e impreciso.

Será possível unir o controle e o apuro técnico a de Hicthcock com a diluição de Truffaut e seu desejo de imponderável? Bom, em comum eles tinham a obsessão pela escrita cinematográfica. Essa obsessão nada mais é do que um estado de atenção permanente para essa grafia e para essa gramática semântica do filme. Viajar é estar atento. Estaria aí o pulo do gato?

E na volta, quem sabe?

E tem volta?, quem sabe?

Nós, Escritores na Estrada, estamos fazendo uma aposta que os dois lados podem viver na mesma moeda. Estamos fazendo as nossas malas percebendo a necessidade do deslocamento como fundamental para quebrar barreiras, para estabelecer contato, para colar a nossa escrita em nossos corpos. Estamos embarcando. Estamos indo. Estamos nos escrevendo nesse momento que você está nos lendo. É com muitas mãos e muitos ethos que esse barco está sendo empurrado para o mar.