Constelações e perguntas

Fizemos uma reunião muito bonita esses dias. Foi na sexta. 13 de novembro. Chovia e trovejava. Casa da Tarsila. Sofá para todos os Escritores na Estrada reunidos. Sem muito apertar, cabia ainda o cãozinho Canek. O maior sofá do mundo é onde estão os teus amigos.

Só assim para aguentar as pílulas de desgraça via twitter. Ligação do amigo. Se sabia algo da brasileira atingida na França, se teria como descobrir. Mariana. A lama. As bonitezas do mundo desfazendo pelas mãos. Mais de 120 mortos confirmados em Paris. O arsênico. Os peixes. O mangue. Só no maior sofá do mundo com teus amigos escritores, pertinho, numa noite de toró, com cerveja e cabelos molhados.

Ontem a promessa era que eu escrevesse aqui sobre uma viagem que fiz. Não consegui. Fiquei rabiscando o poema em prosa em que segue. Às vezes, parece bem fútil escrever sobre bons momentos e felicidade. Enquanto o gosto amargo não passa. Abraço. Bom ter vcs comigo.

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constelações e perguntas

mesmo com toda a fama, com toda lama. e me diga, quem matou o rio? o rio que dava título ao teu nome. arsênico. no morro e no vale, a vaca cheia de leite. leite que sonha doce de leite, que sonha queijo, que sonha. arsênico. quem matou o rio e peixes boiam, potros boiam, boiada de bichinhos que se vão em vale. e a cidade-luz se apaga. que bom. assim poderíamos enxergar as estrelas no céu. como se enxergam as estrelas no céu em mariana. mas não. já se apagou. é muito clara a cidade-luz. é muito clara. as noites. e os dias. ofusca. ofusca. o que se passa em outras latitudes? as meninas. como perguntar para as meninas na nigéria, daí vc enxerga o cruzeiro do sul? aqui é madrugada. nem de noite. nem de dia. só o papa que diz da terceira guerra mundial. o mundo claro dos homens. do deus dos homens. quanto deus, meu deus. e vão levando, vão levando todo emblema, todo problema. e quem fica? as estrelas que não enxergo. a menina que salvou o filhote de cão. a mulher que se pendurou da janela. o médico do pronto socorro do plantão sem fim. a baleia azul que resta como um sonho sem arsênico ou luz. as estrelas sem nome, sem sul. isso fica. e a gente se pergunta, se amor é tudo isso.

A função ecológica do poeta

Em um mundo com excesso de informação e de palavras, o ideal seria o silêncio. Há algum tempo vendo querendo escrever sobre isso, tema de uma parte da conversa com outros escritores, em Curitiba. Foi a partir da observação do poeta Ismar Tirelli Neto, carioca, recém-chegado à capital paranaense: coisas demais são ditas o tempo todo, escritas, publicadas. O ideal seria não escrever. Mas algumas coisas pedem para ser colocadas na página, no mundo. Ismar diz que, em vez de perseguir o poema, a fagulha da ideia (não me recordo das palavras exatas, mas era algo nesse sentido), tem deixado que o poema o persiga. Ao contrário de anotar para não esquecer, deixa que o poema se vá, e se ele persiste, por dias, só então toma nota. Escreve apenas o que resiste a essa passagem, o que pede, insistente, para ser escrito.

O poeta Reuben da Cunha Rocha, o CavaloDADA, escreveu certa vez em seu Facebook: a principal função ecológica do poeta é não desperdiçar papel. Aquilo me pegou, forte. Anotei para não esquecer. Porque acredito nisso: é preciso cuidado para não adicionar ruído ao mundo. Não ser vão. Se é preciso escrever, seja lá porque razões cada um se dedica a isso, é bom que aquilo que se escreve precise mesmo ser dito, não apenas por razões emocionais (acho que as piores de todas), mas estéticas mesmo, seja lá o que for essa jabuticaba. Ideal mesmo seria o silêncio, mas na impossibilidade desse, ficar com o que resiste, o que se destaca do ruído geral.

É aí que existe, também, um conflito: como escritora e feminista, sei que uma das razões para a disparidade de gênero reside na insegurança de muitas mulheres em publicar seus textos, em mostrá-los. Resistem a chamar a si mesmas de “escritoras”. Ficam na gaveta. Muito por causa delas, a Ana Rüsche criou a oficina para destravar gavetas. Que é pra desbloquear, gerar coragem. Colocar-se no mundo. Para muitas mulheres, o silêncio é a única opção, ainda que algumas coisas peçam para ser ditas. Eis meu dilema: equilibrar o incentivo a colocar-se no mundo apesar de todas as dúvidas com minha crença, própria, na responsabilidade pela palavra dita (o que talvez a gente possa chamar critério, o qual será sempre pessoal e passível de discordância, claro). No tempo, no preparo, na espera, na não-ansiedade em publicar. Aponto isso na conversa em Curitiba: Ismar lembra que não há resposta, é sobre esse terreno movediço que caminhamos. Oscilando entre dizer e não dizer, a balança pendendo cada hora para um lado.

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Se para a poesia seria ideal o silêncio, na vida é o contrário: muito pouco, quase nada, é de fato necessário. Comer, dormir. Talvez um teto, segurança. Saímos disso e vamos para o que não é, de fato, primordial. O dilema existencial prevalece: não há sentido dado, não há essência, o propósito será unicamente o que pudermos dar. E aí o melhor é conseguir ir além do básico, da sobrevivência em si, e conseguir injetar significado nos pequenos atos cotidianos. Nas relações. Sendo a vida um grande rascunho que não será passado a limpo até a morte – talvez nem mesmo então –, vale mais conseguir aproveitar, gozar, os caminhos. Não existem momentos vãos, a não ser pelo contexto que prega produtividade a qualquer custo. 

Algumas pessoas não conseguem, porém, aproveitar esses caminhos. Com algum defeito de recepção, são incapazes de gerar sentido nos atos miúdos da vida, nesse rascunho. O único sentido que conseguem dar é pelo que escrevem (é aí que tentam, algumas, desafiar a morte; outras, um pouco mais espertas, contentam-se com aprender a morrer).

Para essas pessoas, só resta orar às musas para que aquilo que escrevem valha a tinta e o papel em que foi impresso. E assim suas vidas não sejam, totalmente, desprovidas de sentido.

Querer escutar

Ante a necessidade premente, descobrem-se o muito e o pouco que podemos. Que necessidade? Por ora, a de escrever.

Faz uma semana que voltamos do Rio. Todas as pendências se acumularam. Para nós, que trabalhamos 7 dias por semana, ausentar-se por 2 dias é muito. Some-se a isso que adoeci: na semana antes da viagem e, na volta, uma melhora apenas aparente. Faço o relatório de uma viagem, que ora se prende aos seus extremos: a casa. Porque viajar é tremendo.

Achávamo-nos em casa de Dodô, bêbados, cansados por um dos dias mais longos do ano, era sábado. Eu estava sentado numas almofadas, Raphael Vidal à minha esquerda, depois a Renata. Dodô estava trepado num móvel. Os outros, mais distantes, se espalhavam nos sofás, numa rede, nas almofadas. Volta e meia um levantava até a máquina de pinball, com medo de nunca ter outra oportunidade. Dodô explicou que só tem duas pessoas que consertam essas máquinas no Brasil, que você tem que esperar meses por uma visita e pagar a viagem do cara, além do conserto. Mas parece que vale a pena, aquela máquina reluzindo na sala com as vozes e sons do Império Contra-ataca é impagável. Em um quarto recuado ficava a máquina mais especial: Indiana Jones.

Eu prestava atenção, mas não conseguia falar. Lindos os cartazes dos filmes do Dodô Azevedo, altos na parede, em japonês, ele contando que não tiveram exibição aqui. Depois descambaram para uma discussão bizantina sobre a proximidade entre Robert Altman e Hitchcock, ou quaisquer outros diretores que não me acendiam nenhuma luz. Mas então eu já tinha desistido de acompanhar, e me equilibrava na rede semi-rasgada, tentando dormir, ou ficar acordado. Ainda estávamos no clímax da conversa.

Antes disso, eu chegara ansioso por saber mais da Mariá, que por cansaço ou discrição, também não falou muito sobre a própria escrita, apenas insistiu que precisava chegar cedo para escrever, em breve teria que buscar o filho, lá se iam as chances de trabalhar. Pelo mesmo cansaço, foi embora antes que eu chegasse. Fiquei com as breves impressões da carona até o Flamengo e do encontro na Casa Porto, onde o Vidal tinha tocado o show, isto é, o show em que nós éramos, em tese, os artistas. Em tese, porque muitos foram os encontros lá. Além do próprio Vidal, que conhecíamos da FLAP, e dos fofos Mariá e Dodô, dupla dinâmica, Thiago Ponce, que fez rápida aparição e uma leitura ainda mais rápida de Todesfuge, do Paul Celan, Francesca Cricelli, amiga linda de São Paulo que pôde ir e aproveitou para nos anunciar o lançamento de seu livro de estreia, Repátria, que foi ontem, Mariano Mantovani, que me mostrou seu livro e me arrancou elogios de bêbabo antes que eu estivesse bêbado, e ainda tantos outros, reunidos ali em nome desse encontro tão inusitado ― para nós. Estávamos num lugar não muito frequentado pelos cariocas, o Largo de São Francisco da Prainha, e no entanto estávamos na companhia de uma fraternidade incomparável.

Tento equacionar isso. É verdade que, aqui, temos a Casa das Rosas, a Biblioteca Alceu Amoroso Lima, a Mário de Andrade… ainda assim, aquilo tinha um gosto particular… ou é porque estávamos nós num lugar distante, onde encarávamos cada detalhe do lugar como único, no tempo, no espaço? Mas estou certo que não éramos os únicos a nos sentir assim.

Tínhamos chegado direto do almoço, depois da nossa oficina da manhã. A oficina foi em petit comité, consta que, se faz sol, carioca não comparece. Há de ser, porque tínhamos quinze inscritos, mas somente dois apareceram. Assim é: sol de verão em pleno inverno. Antes da oficina, dormimos pouco mais de quatro horas, porque saímos à noite de São Paulo ― trabalhamos sete dias por semana, e várias noites também. Estava acabado.

Além disso, chegando ao Flamengo, fiz um desvio, porque queria encontrar outra querida escritora, Diana de Hollanda, que carregava seu O homem dos patos com um autógrafo para mim, datado de fevereiro de 2014. Ela conversava com um garoto, um garoto, mesmo, que aparentemente está fazendo um certo sucesso com seus contos. Atendia pelo nome de Sperling (já que a Diana ficou incomodada de haver dois rafaeis no mesmo ambiente). E ela perguntava: o que vc acha do seu primeiro livro, vale a pena? Ele, muito humilde, explicou que gostava bastante de alguns dos contos, mas que também o livro novo tinha alguns dos contos do primeiro que os editores temeram em publicar. Pensei na História do olho, do Bataille, que eu tinha comprado de um cara que montou um sebo ali na Casa Porto. Esse livro estava me perseguindo, Dirceu Villa tinha me falado dele pra mim três semanas antes, depois encontrei um exemplar no sebo da Arte & Letra, em Curitiba, então resolvi que tinha que levar. E, terminado o livro, causa-me a impressão que me causava a descrição sumária que faziam meus dois companheiros dos contos do Sperling. No fim, disse a Diana que não poderia lhe entregar meu próprio livro porque, embora tenha ido para lá com esse intuito, fizera uma confusão e esquecera todos os exemplares na van Poesia, com o pessoal… Assim sendo, teria que enviá-lo por alguém, ou por correio. Ela despediu-se de mim com um tapa e um abraço.

Então eu me achava no sofá, incapaz de articular palavra, tentando fazer algo daquela viagem toda, juntar as palavras de toda a poesia que tínhamos ouvido desde cedo. Descobrira também muitas coisas que não sabia sobre a Renata, é tão incrível quando vamos ao lugar onde a pessoa cresceu, de repente a gente se dá conta: a pessoa não é só aquela pessoa que está diante de nós, que vemos e admiramos, ela é também uma porção de outras coisas, admiráveis, também, embora tão distantes. Que pensava eu, disso tudo?

Eu pensava precisamente o seguinte: que não podemos absolutamente confiar em nossos olhos e ouvidos; tudo que vemos é apenas a ponta de um iceberg, há muito mais coisas acontecendo do que alcança a nossa vista. O horizonte está mais adiante. E entre saber o que há lá, e não saber, está toda a diferença.

Tem muita gente que pensava, antes que eu começasse a refutar isso explicitamente, que eu falava alemão, porque sei pronunciar as palavras escritas, e sei ler umas poucas. A pessoa completa o que ela não sabe com aquilo que ela sabe, porque ela está ciente de sua ignorância. Mas, aquilo que não sabemos, não é igual ao que sabemos. É diferente.

E ali, no Rio, tinha a nítida impressão de que as pessoas procuravam saber, procuravam saber muito, porque desconfiavam disso; que fora do que sabiam havia alguma coisa importante acontecendo. Por isso as pessoas iam para os lugares. Quando não iam à praia, claro. O blasé e o curioso se misturam. Mas não se confundem. E isso faz toda a diferença. As coisas, de repente, tinham uma importância. Por causa disso, as pessoas se moviam, conversavam, se abraçavam.

Na porta, ainda sonolento, depois de beijar Dodô na face, ouvi ele insistir, antes de irmos embora: Então até logo!

O que é preciso para ser escritor

o kit é de fácil aquisição:
um emprego medíocre,
um amor falido.
um amor furado,
um emprego banal,
que deixa a desejar.
uma paixão que valha quase nada
uma função que valha só o suficiente
apenas para manter-se à beira.
Apreço pelas beiras:
mise en abyme.
as nucas, as orelhas, as sombras
as memórias, os processos, os suspiros
os quases. é preciso se concentrar
nos contornos. saber tentar desenhar.
saber não conseguir desenhar.
O escritor é um sujeito que perde.
Um franco fracasso
mestre na arte de ainda ignorar.
Veja que para ser escritor
não é preciso quase nada.
E no entanto. E no entanto
é tão difícil. E no entanto,
nada. Somos tão avaros que
nem isso. Avaros, a ponto
de fingir ter tudo. Qualquer coisa
além de um amor falido,
um emprego medíocre.
Qualquer coisa que não
uma paixão pelos contornos
à beira da perda.

Oficina de criação na Casa Amarela

 

imageOficina de criacao literaria. Casa Amarela. A cor eh das que a Renata e eu mais gostamos. Chegaram a Gloria Celeste Bahia de Brito, Mic Paiva, a Pri Brito. O comeco foi aos pos. Sabado cedo. Muito cansaco da viagem de ontem, saimos de Sao Paulo, aka Mordor, numa sexta-feira umas 21h, chegamos no Rio de Janeiro num final de madrugada. Acolhidos pela Bel, irma da Renata, com lencois, camas macias. A sorte de ficarmos os seis na mesma casa.

Claro que teve o episodio gato de madrugada. Como alergica que soy, ha uma atracao natural. A treta com gatos. Desta vez, a pelagem era da cor do cabelo da Je. Linda. Daud e eu nao sabiamos se era gato, gata, gatx. O que sabiamos era a fama. Demonio da Tijuca.

Como eu jah tinha sofrido ataques da Lola, gatinha furiosa de Porto Alegre, que nao titubeou em fazer um ataque aereo, saltando do batente da janela impiedosamente ate minha cabeca no sofa, sabia que eu seria a escolhida. Ceci, a gatinha tijucana, fez algo surpreendente. Nenhum ataque aereo. Ou unhas na cabeca dos outros. Miou desesperadamente, brava e escandalosa. Miou, miou, miou. Na solidao, que soh um gato de madrugada pode expressar. Ate eu entender, afagar a orelha e ela se aquietar. Havia o risco. Nem sempre consigo parar de espirrar depois de tocar um gato. Ou respirar. Mas tudo certo. Sem coceiras no nariz. Ate tentei chamar pra dormir comigo. Com a Lola de Porto Alegre, quando o quentinho do sofa domou a ferocidade. Mas nao consegui convidar direito. Nao me comunico bem com gatos. Uma hora depois, ela fez ainda outro escandalo, miou, miou, miou. Silenciou aquietada novamente com carinho. Dai a regra sobre a ferocidade. Se vc estiver ante a ferocidade com garras prontas, acarinhe corajosamente. Mesmo se for colocar tua respiração em risco. Works.

Hoje minha oficina foi diferente. Passei um exercicio sobre utopia, curti. E falei de impossibilidades de imaginar e a necessidade de escrever. A Renata tambem fez outra coisa. Estamos criando e recriando as oficinas. As exposicoes. Os exercicios. Fico tao feliz. Eh como se lambessemos a cria, ajustassemos o rumo. Mesmo a Jeanne, que disse que faria a mesma coisa e que esta falando neste exato momento em que escrevo, jah foi muito mais longe do que costuma ir.

Tarsila acaba de fazer uma intervencao interssantissima. Daud se exaltou e disse que vai fazer uma nota publica. O Rio de Janeiro vai te iluminar, me disseram ontem. Tenho certeza. E, no caso, eu eh uma definicao muito pequena pra se referir as Escritoras na Estrada.

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* hoje o post sem acentos, tah horrivel, sorry, mas adoro escrever a palavra jah, hehe. Nas urgencias do que precisa ser dito.

O Rio de Janeiro são os cariocas

Então estamos colocando os pés na estrada de novo. Ainda bem! Sabem, isso vicia.

E vamos para o Rio de Janeiro, o que é ótimo, já que é a terra-mãe da Renata, a única do grupo que não mora em São Paulo ― embora não a única do grupo cuja terra-mãe não seja São Paulo; acho que já falamos disso em algum lugar: nossa natureza é a estrada.

E então eu estava pensando sobre isso, o Rio de Janeiro. Parece que os cariocas (ou como quer que se chamem esses que moram na cidade do Rio de Janeiro, em oposição aos que moram fora da capital) tratam sua cidade como uma espécie de xodó. Diferente, muito diferente, dos que moramos em São Paulo, que amamos odiá-la. Sim: São Paulo fede, São Paulo é coquete, São Paulo, base dos bandeirantes, matadores de índios. Mas nós a amamos, isso é assunto para outro post, outro livro de poesia. Mas os cariocas não odeiam sua cidade. Não amam odiá-la. Eles a amam. Eles a adoram. É o que parece, pelo menos. Bem, como poderia ser diferente?

Parece que o Rio de Janeiro continua lindo, foi o que pensei a última vez que lá estive. Então estamos bastante empolgados com essa visita, à Cidade Maravilhosa, como poderia ser diferente?

Daí me lembro algo que ouço, de vez em quando, de paulistas e cariocas alike: o Rio de Janeiro é ótimo, o rúim são as pessoas. Carioca fala “ruim”, mas a frase é a mesma. Então, também eles, eles amam odiar. Mas não odeiam a cidade, odeiam os cariocas. O inferno são os outros. Variações sobre o tema.

Claro, falar do outro, são generalizações. É por isso que as ponho aqui, publicamente: não por orgulho em fazê-las, mas pelo futuro prazer de dispensá-las. Pois as generalizações são isso, não algo que você depois confirma ou contesta, sim o que o conhecimento próximo, aprofundado, dispensa. Cariocas amam e odeiam, como nós, paulistanos. São mais parecidos conosco do que qualquer um de nós gostaríamos.

Sendo assim, e eu acredito que assim seja, e nisso, veja, misturo um pouco essa expectativa, dessa nova incursão, com algum conhecimento de causa, de vezes passadas, belos encontros, que sempre os tive nessa cidade, então: aplica-se ali o que também dizemos de São Paulo ― adoramos dizer: não importa a cidade, importam as pessoas. O que não deixa, tampouco, de ser uma generalização. Mas uma profícua: pois é pelas pessoas que se conhece uma cidade, sejam elas quem for.

E aí enfim nossa metáfora mestra, a da ponte, começa a falhar. Pois pontes unem cidades, não pessoas. Ou… estarei enganado?

Ora veremos…

De Nova Iorque para Curitiba. Com amor.

A turnê dos Escritores na Estrada passou pelo Sul do Brasil estreitando laços, desvirtualizando corpos, demonstrando por A + B que o olho no olho ainda é a maneira mais eficiente e amorosa de aproximação.

Depois de voltar ao Rio de Janeiro embarquei para Nova Iorque, numa dessas conjunções astrais que fazem todas as coisas do mundo coincidirem. Acabou que continuei a flanar, e entre bagels, dançarinos de hip hop, taxistas indianos, e enormes hambúrgueres e coffees to go lembro daquela manhã maravilhosa na Arte e Letra em Curitiba.

Os seus poemas estão comigo, queridos poetas. Passeando na quinta avenida, me emocionando quando viro uma esquina e encontro uma orquestra de gays e lésbicas tocando New York New York, quando vejo Allen Ginsberg pichado em um muro.

Pra dividir um pouco com os leitores do blog essa sensação, coloco aqui os poemas lidos naquele dia. Tão diversos e particulares, assim como os seus donos.

Ismar Tirelli chegou usando a máscara arquetípica do Pícaro e leu seu poema com a serenidade de um mestre zen. Transformações possíveis e impossíveis acontecem quando se está em boa companhia.

Um funcionário
 
Agora que voltei ao escritório, voltarei também ao lirismo?
Dobrar-me-ão de passagem para a copa
as vergas
d’O Cântico dos CânticosAs Mil e Uma Noites,
certa nota de jornal enfiada à carteira
a versar sobre a infinita divisibilidade de Homero
agora com postulados algébricos?
Ora, merda.
A quem cantarei agora estas maravilhas?
pergunto-me
fixando abobado um glossário de termos petrolíferos
uma fotocópia
largada sobre minha mesa, encarquilhada de manuseio
(falando-me do manuseio, falando-me a muitas mãos. Quase tomando-a por algo belo)
gongo à garganta da ascensorista
desce
uma malha de corredores vazios, espalha-se a ordem por
lajotas de mármore
maravilhas?
Coisas tão miscíveis em seu próprio tempo,
que tipo de operação as dissociaria de tão entramada geral?
Eu tratava o divórcio entre as coisas.
Eu tinha tempo.
Estava ainda por topar a palavra Absoluto
em meio a uma interminável lista de aromatizantes…
(Era embasbacá-la, era – sim, um dever moral).
A quem cantarei agora
Óleo absoluto de rosa damascena
                            Óleo absoluto de rosa damascena?
Bem que me disseram que esta era a cidade das coincidências,
que não havia meios de escapar,
que, como toda a gente, eu ainda reencontraria no metrô algum velho
conhecido dos tempos de colégio
abotoado dos pés à cabeça,
que eu ainda seria levado a pensar, forçosamente, na fraternidade dos homens,
nestas partilhas ásperas,
minudentes,
levadas a cabo no mais entalado silêncio.
Eu sabia destas coisas.
Julgava-me – em alguma medida – preparado.
Inclinava as pupilas com a luz branca,
recebia dócil, alegre até,
o beco trabalhado em minha testa.
Mas eu olho para baixo e o que vejo, ao fim do dia, são os sapatos de um outro.
O verniz de um outro.
::
A presença dela iluminou o dia. Mari Quarentei é tudo isso e muito mais:
Mariângela Quarentei (Mari) libriana de São Paulo/SP. Terapeuta ocupacional pela FMUSP, implicou-se desde os anos 80 com a temática da desconstrução do manicômio, a criação de novos modos para acolher a loucura, e de dispositivos híbridos entre clínica, vida e arte. Em 2010 retoma a escrita poética a partir do contato com a cena artística de Curitiba, onde reside desde 2013 e faz parte do coletivo marianas de poetas e escritoras. Seu trabalho se dá a conhecer nos saraus e na rede, bem informalmente. Publicou “caderninho de Imagem I” pela “quaseeditora”, Curitiba, 2014 (artesanal). E é também artista visual/pós-graduanda em Poéticas Visuais (EMBAP), desenvolvendo o experimento “Dar a palavra… à palavra: entre a escrita e pintura”.

Poema negro

O poema É VERTIGEM NEGRA

ABSINTO

CRACK

O POEMA EX-PELHA VOCE NUA

NA CORDA DE VêNUS

Deixou-a débil , sutil

incerta… . . .humana

SUJA

PUS PUSTULA

LÂMINA

L Anima

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Mari Costa, por ela mesma:

“Nasci Mariana Raquel, mas a vida me fez Diva. E atualmente como divar não paga as contas, estou advogata.”

Eu a conheci e não tenho como duvidar de uma palavra. =)

Aí vai seu poema:

O busão lotado
De neguinho abarrotado
Vai e vem
A propaganda na janela traseira traz o mandamento
“Pichação é crime”
“Denuncie”
Mas no alto do prédio encontro o paralelo
Do marginal a denúncia:
“Só paro de pichar quando a política funcionar”
Entendeu?
Ou quer que eu grafite?
::
Marcia tem aquela qualidade emocional, o poema foi lido de cor e parecia que ela inteira lia: corpo-alma-coração-dedos das mãos.
“Marcia Pfleger é escritora e jornalista, nasceu no interior do Paraná e mora em Curitiba. Seu primeiro livro de poemas será lançado em setembro deste ano, pela Editora 7Letras. Também tem trabalhos publicados na Revista Parênteses; na Antologia Paralelos – Contos Fantásticos, da Editora Inverso; e no Dossiê Woofianas – Mulheres que Escrevem nos Séculos XX e XXI, organizado pela UFPR. É autora do blog “Unha que risca a lousa”.

Dorflex para meninos-lobos

lembro sim
do surto das amoreiras
sobre os muros arregimentando a
gulodice de pivetes as
mãos ensanguentadas
de suco

lembro esmeraldas em anéis
de lata
joelhos ralados por rolimãs
o mundão no fundo do quintal
seu mapa para sempre
perdido

lembro a época de
coisas assopradas no ar:
bolhas de sabão
dentes-de-leão
pipas coloridas
a esperança…

o tempo em que
fomos felizes
a dor alcançava
apenas ¼ de mim…
era fácil então
despi-la
junto com as meias

::

Lubi Prates fala baixinho, parece mansinha e vai lá e cresce uns vinte centímetros a cada verso.

Lubi Prates nasceu em 86, em São Paulo. Estudante de Psicologia. Tem publicado o livro ‘coração na boca’ e algumas participações em revistas e antologias literárias nacionais. Escreve no blog coração na boca. Edita a Parênteses, revista literária virtual e traduz.

carrego mágoas enormes
nos bolsos do casaco:
esse repetir dores imaginárias
e repetir repetir até acreditar.

sou um viaduto carneosso
não ergo meu corpo do asfalto.
o peso disfarço
enquanto amarro os sapatos.
::
Andreia é daquelas moças tão interessantes que você não sabe o que é melhor – ela falando da vida, ela falando da arte ou ela lendo. Difícil escolha.
Andréia Carvalho (Gavita): Poeta. Editora de multimídia na Revista Zunái. Idealizadora do Coletivo Marianas. Autora de “A cortesã do infinito transparente” (2011), “Camafeu Escarlate” (2012) e “Grimório de Gavita” (2014), publicados pela Editora Lumme (SP).
*o êxtase do santo leitor
Queria que me interpretassem demônio esfuziante. Por que me caio e me sinto belo, muito bonito em minha periculosidade efêmera, quando leio os poemas todos de vós. Digo vós por se tratar de uma segunda pessoa, como eu convosco, em medievalidade ritualística.
Fico apaixonado por mim quando vos leio. Depois passa. Como o desejo da moça ex-violinista que só queria o violino para umas erudições clássicas. Depois que foi por um dia o corpo de estradivário, extraindo de suas cordas neurológicas a música que a esticava em escalas estilhaçadas, passou. O desejo findo. Então o espelho, sem pronomes retos.
Assim o faço. Depois de ser belo pela música escrita de vossa alma, recolho-me ao fragmento cortante e luminoso do eu, sem som nenhum, expulsa do vosso paraíso que ousei rastrear. Recolho-me e me diriam anjo calado, pois ao longe pareço dormir, perpétuo como estátua que vela féretros. Então me interpreto. Corrompido pela vossa contemporaneidade. E só há o desejo demoníaco de que me interpretassem dodecafônico pergaminho. Mesmo que a beleza seja inexistente em sua heresia de pulsões. Pois o espelho veio depois da leitura da gravidade. A redação massificante da queda de uma maçã, no jardim de vós, físicos e apaixonados. Sois arcanjos modernos e espalhafatosos, um êxtase para escultor.
::
E por fim o caubói de Morretes, domador de crianças e barreados, Guilherme.
Guilherme Gontijo Flores (brasília, 1984) é poeta, professor e tradutor. estreiou com os poemas de brasa enganosa (2013)publicou traduções de as janelas, seguidas de poemas em prosa franceses, de rainer maria rilke (em parceria com bruno d’abruzzo), e d’a anatomia da melancolia, de robert burton, em 4 volumes (prêmio apca de melhor tradução). neste momento prepara a tradução integral das elegias de sexto propércio. participa do blog coletivo escamandro

song of itself

polar bear track 5 diz o ipod enquanto estico o pé pra fora do ônibus & aponto para a borda do passeio públicosenhoras junto ao lago espreguiçam seus braços nos modos do tai chi
apalpo o bolso pelo fumo insalubre que insisto em carregar nas manhãs
cachorros & madamas cruzam meu caminho sem pestanejar
de fumo em riste ensaio apertar um cigarro a passos largos
são truques estranhos que faço & me imagino caubói spaghetti montado em seu cavalo apertando o palhoso numa só
mão
– seus olhos malignos & calmos seu fumo maligno & calmo a câmera em close ganha força pela trilha sonora –
& causo algum frisson em dois adolescentes
que neste instante me tomam por herói maconheiro em praça pública
eu sou o maconheiro em praça pública mesmo fumando tabaco
sou cadela sadia que conduz sua dona de casa ao passeio como variante do tédio diário
sou dois ou mais adolescentes em busca de crimes menores & heroicos do asfalto
sou mesmo o asfalto do passeio onde passo & que também me atravessa
(fiz um pacto contigo walt whitman
sou-te & deixo-te fora dos pedestais
entregue ao gosto dos pedestres)
& poderia comparar toda esta cena a um quadro de maliévitch ou às cores de godard
para assim dar mais gosto erudito a esta composição canhestra
delendum momentum penso que bem poderia ser a morte que espreita o cidadão mais gordo que sou & corro do outro
lado deste parque num suor de bicas
a cocota sarada o estudante vadio o professor de latim nossas baratas metropolitanas nos bueiros as curvas suaves
dos galhos do ipê sem flor
a próxima faixa deste ipod em minha mão que denuncia minha classe em modos neomarxistas
(também fiz pactos contigo fernando pessoa diversos
mas não pretendo cumpri-los todos & te estendo a mão como um amigo)
as cores de godard ou pinturas de mailévitch ou goya previamente não citado
um neomarxista de barba aparada com tênis allstar & calças milimetricamente surradas
o parque termina antes da música o poema nunca termina o passeio segue adiante

 

Comecei esse post na Union Square e terminei no Brooklyn – a cada parada um pouquinho de vocês. Obrigada queridos, e até breve.

guia do mochileiro da van poesia

Vamos lá. Este vai ser um post em mutação, já que a viagem ainda não terminou. Mas comecemos, antes que seja tarde e nos vejamos engolidos novamente pelo ritmo de São Paulo/ Rio.

O ponto 1 já foi, está neste link aqui.

Sigamos (OVERSHARING ALERT – mas só tem um pouquinho)

Ponto 2: Se você estiver em sete pessoas e uma doblô, vai começar a achar que aquele limite medíocre da mala de mão no avião é na verdade um super luxo.

2a: Mesmo assim, esqueça aquilo que eu tinha falado no começo sobre viajar só com três calcinhas, a menos que você tenha hospedagem fixa por uns 3 dias seguidos ou sol abundante. Rapidamente, você se perceberá cantando músicas delirantes, pedindo apenas por uma calcinha limpa e seca.

3: Logo, o secador de cabelo da amiguinha vai servir, apesar de que provavelmente não serviria pra nada se você não tivesse tirado sarro da presença dele.

3a: Mas pensando melhor de novo, calcinha nem é tão importante assim. Né?

4: Porque afinal, como diz a regra da Renata: numa viagem de muitos dias com muitas pessoas, o tabu da nudez se desfaz.

5: Aliás, parece que todas as viagens atravessam essa mesma trajetória: a viagem sempre começa modernete, com as pessoas todas descoladas falando de sexo (mais falando do que fazendo, diga-se de passagem). Depois elas transitam pra fase da sofrência, onde elas falam de infâncias tristes e recheadas de traumas. Mas sempre a viagem termina com as pessoas falando incansavelmente sobre: cocô – aqui a equivalência entre falar e fazer já fica mais próxima, apesar da constipação habitual em viagens longas.

6: Vários pensamentos aflitivos e existenciais podem invadir a sua alma, mas em geral têm uma origem bastante simples, como o tormento dos nenês que têm sono. Por exemplo: se durante a viagem você está obcecada com ideais de leveza e preocupada em excesso com a sua gordura corporal, tenha certeza: é gases.

7: Ainda sobre o que fazemos em espaços privados, atenção: As paredes no sul são finas. E as chaves tem segredos. Ouvi dizer.

8: Várias coisas simples vão assegurar a moral alta da trupe, além da já conhecida toalha: O dramin, a água e lanchinhos com carboidratos já imaginávamos. Já o Tumblr foi uma surpresa agradável, mantendo o humor leve e a cabeça distraída durante os trechos mais difíceis com uma enxurrada de nudes.

9: Voltando para o lance das músicas delirantes. Se você introduzir na viagem a memória daquela música chiclete incrível que você conheceu pela galera do escritório, haverá um preço: Ela dará rebote e você cantará por 3 dias seguidos, ou mais.

9a: Alias, esta música e todas as outras três que você usar para tentar tirar a primeira música da cabeça.

9b: Seus amigos ainda por cima vão institucionalizar todas essas músicas e incluí-las formalmente nas performances, vídeos, lançamentos, oficinas. Respire, sorria e acene. E cante. E dance. Afinal a viagem é sua mesmo, e parece que só se vive uma vez.

9c: Essas músicas são também uma ótima oportunidade para desenvolver novas habilidades, como paciência, dança, performance, pronúncia alemã, ou seja, em última análise, o amor.

9d: Pra próxima etapa da viagem vou pesquisar todo um novo repertório. Preparem-se.

10: Fazer tatuagens de galera em viagens é uma ótima ideia: Faça. Mesmo se tiver que parcelar em três vezes.

11: Encontre os amigos antigos perdidos pelas cidades afora, vai ser incrível. Viu, amigos antigos perdidos pelas próximas cidades?

12: Aproveite as mil horas de daydreaming no carro e as conversas aleatórias captadas aos pedaços, elas valem por um ano e meio de análise, 200 horas de oficina criativa, 3 férias de 30 dias, possivelmente mudarão sua escrita, quiçá sua vida.

13: Recursos cênicos (como os nossos chifrinhos, carinhosamente chamados de MacGuffin): Use, use para quebrar o gelo, para dialogar mais fácil com pessoas desconhecidas, use para brincar com a ideia do ridículo, use para passar a palavra, use para trazer novas vozes e ideias à tona, use para empoderar, use para animar crianças, use para passar a gasolina no crédito e pra comer um espetinho de frango, use para ir no banheiro e para comprar bebidas no boteco do interior, use sem moderação, até esqueça que está usando. Tá todo mundo esperando que alguém abra a pista de dança pra se sentir mais à vontade para dançar. No nosso caso acho que seria tirar o sapato para entrar no tanquinho de areia e brincar.

14: Leve uma pessoa de exatas. Alguém precisa fazer as contas, e você, escritor, provavelmente não será essa pessoa. Um adulto também serve. Nós levamos o Fred, meio de exatas, meio adulto. Funcionou.

Alguém tem algum conselho amigo para considerarmos na nossa viagem para o Rio de Janeiro e para Belo Horizonte? Coloque nos comentários!

Beijos

 

rascunho preliminar sobre o guia do mochileiro da van poesia

estou preparando um texto compilando os aprendizados da viagem, mas dyva-do-céu, eu não tenho o pique dessa equipe que escreve posts quilométricos na estrada não. eu bocejo profunda e repetidamente, fico mau humorada às 21h30 e estou babando as 22h. Especialmente agora depois dessa viagem corrida, em que eu estou basicamente intercalando entre dormir, comer e tentar trabalhar.

mas vamos começar do começo, ou seja, do que eu cuspi hoje de manhã no divã às 9am depois de ir dormir as 3am:

Aprendizado número 1:

– sabe aquele desgaste natural que rola quando você viaja com os seus amigos fazendo uma função-trabalho, cumprindo horários puxados, passando frio, dormindo em lares desconhecidos e se espremendo num veículo apertado?

então. é mentira. não existe desgaste natural porra nenhuma. dá pra não ter esse desgaste, mesmo tendo problemas no percurso, e dá pra terminar a viagem sentindo ondas de amor e querendo mais.

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tipo aquela passagem do matrix em que a criança pega a colher e fala: there is no spoon. e a colher entorta. o desgaste natural que você espera é uma construção, inventada por alguéns que não puderam achar outro caminho.

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agora beijos que já são dez e meia e estou morrendo de cansaço.

:*

Deixa acontecer naturalmente

Eu e Ana em seu apartamento, já de volta a SP
Eu e Ana em seu apartamento, já de volta a SP

E foi assim que aconteceu: naturalmente. Em geral não gosto desse termo, “naturalmente”. Tanto de nossa experiência, se não toda ela, é permeada pelo social, pelo cultural e pelo histórico, que fica difícil não desconfiar. Beira-se sempre o essencialismo e o determinismo. Mas a palavra tem esse outro sentido, de deixar rolar, de ver o que acontece. De não planejar em excesso e de acolher as surpresas.

Nós sabíamos que essa viagem seria cheia de aventuras e imprevistos. De certa maneira, nos preparamos para isso. Mas, mesmo dispostos a abraçar o que viesse, era impossível não imaginar e especular o que aconteceria. Difícil não criar expectativas. Deixar acontecer naturalmente é mais complicado do que parece.

Mas o mais louco da estrada é que ela não está nem aí para suas expectativas. Se quer que a Dyva dê uma boa gargalhada, conte a ela seus planos, já diz o ditado. E assim é que essa jornada foi se costurando em surpresas, em pequenas alegrias e milagres de conexão e contato. Sim, tivemos também desventuras: fim da gasolina, pneus furados, incerteza sobre onde dormir, inseguranças sobre nossas leituras e performances, fomes e atrasos e cansaços. Mas as recompensas foram tão imensas que as provações, no fim, ficaram minúsculas. Cumpriram seu papel, nos fortaleceram, nos mostraram coisas. Mas não nos dominaram.

E entre as surpresas que a estrada trouxe está esse transbordamento que estou sentindo – e que percebo que os outros sentem também. Aqui não cabem ironias ou cinismos; só aquilo que sabemos ser a característica das cartas de amor: o ridículo. Ao chegar no Rio, a Renata nos avisou por Telegram que tinha escrito um post cafona. Bom, também eu me cubro de sentimentos cafonas, porque termino a primeira parte dessa turnê (ainda faltam BH e Rio) amando muito mais essas pessoas – Ana, Renata, Tarsila, Daud, Gonza e Fred – do que quando começamos.

Sim, eu já as amava, por supuesto. Somos amigos, e é por isso que resolvemos encarar essa empreitada. Mas entre essas expectativas e ilusões que criei, estava a ideia de que a gente ia acabar se agastando uns com os outros, que tretas surgiriam, que terminaríamos a viagem querendo nos esganar.

Para minha surpresa, o contrário aconteceu. Estamos relutantes em nos separar, e morrendo de saudades da Renata, que foi embora mais cedo. A Dyva riu da minha visão pessimista da humanidade e me presenteou com essa dorzinha melancólica de antecipação da separação, uma dor boa, porque denota a presença do afeto. Há amor: por isso a saudade. E tudo isso rolou naturalmente, muito naturalmente, contra as expectativas pessimistas dos hobbesianos entre nós. Claro, criamos as condições e o ambiente para que coisas acontecessem. Mas o que viria daí, não sabíamos. Nao havia garantias.

Agora estamos quase em São Paulo. Mordor se aproxima, e já podemos sentir seus tentáculos: o cinza se insinua na noite e nos lembra das contas a pagar, das louças a lavar, das rotinas e empregos e burocracias. A ansiedade ameaça tomar conta. Como voltar à rotina, depois de conhecer o mundo especial? Como retornar ao Kansas, depois de Oz? O consolo é saber que não é um retorno; as coisas serão diferentes dessa vez. Sim, é verdade que Mordor continua, e continuará, a mesma, com seu céu sem cor, seus preços altos, seu trânsito e sufocamento. A megalópole segue rumo à catástrofe e paralisia, e não poderemos restabelecer a ordem, nossas armas são delicadas e insuficientes. Mas nós não somos os mesmos. Trazemos conosco alguma espécie de elixir: os laços criados e fortalecidos, os aprendizados, as experiências, a poesia. Uma tiara de chifrinhos vermelhos e o poder de nos transformar em seres mitológicos.

Louco constatar que tudo isso já estava lá o tempo todo: no fundo, o elixir sempre foi a gente, nossa amizade, e nosso amor pela poesia, pela literatura. Pode não salvar o mundo, mas salva o minuto, como disse a poeta portuguesa Matilde Campilho. E isso há de ser suficiente. E Mordor já não será, então, a mesma.

A mesma foto? Olhe de novo...
A mesma foto? Olhe de novo…