“Estou ouvindo vozes!”

Como estamos juntos nessa, nunca deixamos de nos surpreender por estarmos juntos nessa. Porque cada um é um. Tem quem viaje com três calcinhas, tem quem não consiga fechar a mala. Tem quem não fez a mala ainda. Mas ainda nos surpreendemos por estar junto nessa.

Então hoje estávamos conversando, numa dessas maravilhas recentes, o Telegram, através do qual retomamos a antiga arte de escrever bilhetes ―e quem diria que o telefone, esse que não se pode ignorar, deve-se amar ou odiar, como queria Raymond Chandler, voltaria a ser um instrumento de escrita!?― e descobrimos que, cada qual, estamos ouvindo vozes!

Vozes novas, parece. Cada um está descobrindo ―isso que descobrimos!― um novo modo de escrever e de pensar sobre a escrita. Não sem contato com tudo que, cada qual, já fizemos até hoje, de maneira alguma. Mas assim mesmo um modo novo de se relacionar com o ofício.

The Purloined Letter
Gravura “The Purloined Letter”, autoria duvidosa

De minha parte ―e gostaria de guardar como segredo, mas, e daí? como a Carta Roubada, do Poe, o esconderei in plain sight― estou muito lendo Nicolai Leskov. Sim, o Narrador eleito por Benjamin. E com isso retomando algo que nunca havia sabido nomear, que exercia um pouco instintivamente, e que confundia com o próprio ato de escrever… ora, era a minha maneira de escrever! E agora estou um pouco me dando conta do que se tratou, sempre, até aqui. E que, doravante, deve prosseguir.

Em uma palavra, trata-se de uma maldade. Esses dias vi uma entrevista em que o Bataille falava justamente ―talvez um pouco justamente demais― sobre isso, o que certamente inspirou minha reflexão: escrever tem qualquer coisa de imoral, de indecente, de mau, mesmo. Escrever, ele diz, é o oposto de trabalhar. Pra mim, escrever é fazer algo mau. Era isso que ensaiei dizer, no outro dia, quando falei que o aforismo do MdA não me havia servido totalmente. Porque ele falava de escrever melhor, e eu tenho a impressão ―e creio que isso não seja fácil de engolir, mas é assim mesmo o mais verdadeiro que eu possa sustentar― que a escrita deve ser, para mim, escrever sempre pior. O que não é simples, não é não! Mas é a única maneira. Porque escrever é ouvir não o que o ouvido pede, mas o que a língua exige, deixar louça na pia, comer quando a mão descansa, e trabalhar ―se tanto!― da mão para a boca, porque não se trata de construir nada, nenhum império, senão um palácio de cristal.

E sim, o dinheiro tem tudo a ver com isso. Mas disso eu falo amanhã, porque o dinheiro… será mesmo que o dinheiro não fede?

A vida ou a escrita

Hoje não tenho notícias. Queria escrever um conto. Mas toda vez que sento para escrever, a mesma pergunta: que vale mais? A vida, ou a escrita? Invariavelmente, a vida vence. Escrever é tão maçante!

Mais "poesia", menos orgia
Muro no bairro do Perequê, Ilhabela. 2014.

É claro que nem todo mundo concorda. Rilke, por exemplo, falava de uma vida que só valeria a pena ser vivida para a escrita. E o cumpria! Nós agradecemos, porém não posso deixar de olhar para isso com certo desdém, o desdém com que também olho certos religiosos…

De minha parte, preferia antes uma escrita que fosse feita para a vida. Um tecido, uma tessitura ―alguns chamam assim o texto― que não fosse amarração, mas o desfazimento de alguns nós… que nos impedem de viver. Por exemplo, escrever não o drama, o que tão dignamente a ana rüsche contesta, mas seu antídoto, não sei, uma forma de filosofia, de azeite…

 

Falamos às vezes, na psicanálise, da fantasia. Ora, o que é a fantasia, senão uma narrativa? E com ela vivemos, com ela amamos… através dela enxergamos o mundo. É a narrativa que constitui nossas vidas, que nos contamos sem nem mesmo perceber que o fazemos. E daí a questão: o que é, diante de uma história tão elaborada, qualquer outra inventada?

 

Pois aí é que reside todo o mistério.

Na estrada, escritores

Refletimos longo tempo ― talvez fizéssemos melhor se fôssemos espíritos mais práticos, mas não ― sobre o significado da turnê. A chamá-la turnê, já damos uma imagem, essa que aparece infelizmente sem a imagem da Renata, mas com as outras três e eu, a imagem de uma banda de rock. Que, a bem dizer, é o que nós somos.

O problema está em que essa banda, ela não se chama, por exemplo, The Rolling Stones. Ela se chama Escritores na Estrada. Então começamos a fazer perguntas.

Não é preciso ser psicanalista ― embora talvez fosse vantajoso, já que é desse tipo de problema que tratamos ― para perceber que nos chamarmos Escritores na Estrada põe diante de nós dois problemas absolutamente distintos: a uma, que vamos sair de nossas casas, de nossa vida cotidiana, para nos lançar na estrada, sem saber muito o que nos espera. Não conhecemos com intimidade, ainda quando conhecemos um pouco, os outros escritores que encontraremos, que serão, assim desejamos, nossos guias e razão de viajar, nosso intercâmbio e amizade. Já isso não é mole. Já levanta certa grau de ansiedade ― embora, talvez, do tipo bom: das férias, como se fossem, de bonheur, dos bons encontros que esse tempo pode nos proporcionar.

Mas se “na Estrada” é digno de atenção, quanto mais não será “Escritores”? Pensa-se que temos cá uma carteirinha que nos autoriza? Sequer os mais de 170 apoiadores que tivemos, perto de 200, se contarmos os apoios diretos, amistosos, desapegados, que tivemos, não nos faz, do dia para a noite, escritores, ao contrário, faz-nos, aos mais sensíveis ― não somos todos? ― nos perguntar: o que faz de nós escritores, que vamos sob essa marca pôr os pés na estrada? O que, além de sermos alfabetizados, nos qualifica?

Quando organizamos, como a Renata Corrêa e a ana rüsche fizeram, grupos de criação literária que acabam recebendo uma porção de ótimos escritores que, no entanto, não se qualificam como tal; quando uns dois ou três assim ditos escritores ― e o são, como negar? ― respondem publicamente sobre a assim dita literatura feminina dizendo-nos que não há tal coisa, mesmo sendo todos homens ― e por que mesmo a eles foi dirigida a pergunta? ― então não me parece nonsense perguntar: o que faz de nós escritores, ou escritoras?

É uma pergunta que todo escritor se fez, ou se faz, vez ou outra. Eu, por exemplo, tomei por muito tempo como resposta que um escritor é quem procura um tema. Um escritor podia, inclusive, ser alguém que escreve mal, desde que tivesse em mente um tema, que busca. Ainda hoje acredito que um escritor não se distingue por escrever bem ― há tantos maravilhosos que escreviam mal, e tanta gente que escreve bem mas não faz a menor ideia do que seja o ofício literário ― mas por saber caçar seu tema. Isso é um critério, e o mantenho. Não é o bastante, porém, pois um pintor procura igualmente um tema, e pintar vitórias-régias não faz de você um escritor, porque a literatura se faz com palavras.

Mário de Andrade, que muito me serviu de modelo e ideal, ainda hoje, disse certa data que para um escritor não se trata de escrever bem, mas de escrever melhor. Isso, assim, não está de forma alguma em contradição com o que eu pensava, de modo que o adotei. Mas, escrever melhor, é como pegar o ato do escritor em pleno voo. É como congelar um salto. Como escreveu o poeta argentino Roberto Juarroz, todo salto deve voltar a apoiar-se. Assim, também o aforismo de MdA não me serviu completamente. Não por um motivo menor, também percebia que o ideal que impunha era alto demais, o de escrever sempre melhor. Há certa crueldade, nisso, a crueldade dos masoquistas, para quem nada nunca tá bom… Era preciso buscar ainda adiante.

A estrada tem um pouco dos dois: do salto, do pleno voo, e de caçar um tema. Se alguém me dissesse: o escritor é aquele que se pergunta o que é um escritor, me agradaria a tautologia, por esconder um paradoxo, mas me faria suspeito da sua extrema facilidade. Em que bases se sustenta essa pergunta? Onde ela se verifica, de fato? Que provas posso dar de ter genuinamente perguntado?

É essa espécie de reflexões que essa viagem me desperta, a cinco dias da partida, e desde antes, até.