Delmo Montenegro: Recife, No Hay

Esses dias me caiu na mão um livro do Delmo Montenegro: Recife, No Hay. Nunca tinha lido o Delmo, embora ainda lembrasse da sua figura grande, calma, que me faz pensar numa montanha. Imagino que, para ele, estar em São Paulo seja um pouco como estar entre os selvagens: mas ó, como ele sabe se portar entre selvagens. Gentil e tal, fico na incumbência de procurar algum sinal disso em sua poesia: um segredo, um truque, um guia.

Não é assim que vocês leem poesia? Procurando um caminho que já foi trilhado por outra pessoa, e que talvez você também queira trilhar? Acho que é assim que nós enfrentamos a poesia: os Escritores na Estrada. Claro que é essa minha forma de encarar, e esse o traço de identificação que me une aos outros; não sei mesmo o que eles diriam sobre isso. Não seguimos mestres, entre nós.

Seja como for: Recife, no hay. De maneira que encontro apenas pistas, como naquele filme do David Lynch. Por toda parte, tem-se apenas uma certeza: Delmo Montenegro was here. Tudo o mais parece aleatório. Ele joga para nós referências pacas, sem, é claro, fazer qualquer distinção entre as cultas e as populares, que isso seria grosseiro demais pra elegância da sua escrita, o que certamente não significa que facilite a leitura. Como quem cita o nome de ruas que ficam em lugares que você nunca visitou, ele vai mapeando suas amizades, seus amores, seus delírios, e você tenta acompanhá-lo, como quem sente que está prestes a testemunhar algo precioso acontecer.

Recife, No Hay, portanto, é o único título possível para este livro de poesia, algo raro, que denota a necessidade de tudo aquilo que se passa de maneira aleatória como a vida, diante de nós, seus leitores. Procuro um projeto, imaginando assim que um livro possa se constituir de um projeto, mas não neste caso, porque projeto não há, há ao contrário uma cartografia, nada menos que isso, feita de imagens e palavras “― não estamos falando de música, é claro”. Mas não do que ele leu, mas do que ouviu, o que torna tudo mais interessante: não se trata de alguém que leu sobre um país distante, mas de alguém que esteve lá. E daí, também, o paradoxal deste livro ter esse nome; porque aparentemente, esse país não há.

Sendo assim, creio poder dizer, também, que se trata, também ele, de um viajante. Mas ele, ao contrário deste, parece estar sempre em casa onde quer que vá.

Continuo lendo, já que não encontro aquele guia que gostaria de encontrar: ele só poderia ser guia em seu próprio país, mas isso já se exclui de saída, além de que não é o que eu poderia visitar. Como um koan budista, sua escrita se apresenta como um paradoxo: não se pode explicá-lo sem perder de vista o sentido, mas sem explicá-lo, tudo não parece um jogo alucinado? Bem, é o tipo de paradoxo que eu esperaria de uma montanha convertida em pessoa, se ela de repente ― e por que motivo, meu deus? ― se dispusesse a escrever o que se passa com ela. Mas se não explico, também não tenho do que reclamar.

PS.: Recife, No Hay foi publicado pela Companhia Editora de Pernambuco em 2013 e ganhou o Prêmio Pernambuco de Literatura.

Lembrar é uma arte

Ars memoriae. Li esses dias num texto dum cara chamado Paul Ricoeur. Talvez o nome não soe para alguns, talvez soe muito. De minha parte, havia feito a promessa, muito tempo atrás, de nunca saber nada sobre ele. E vinha cumprindo essa promessa a contento, até que ontem fui obrigado a destituir a promessa. Num grupo de estudos de que participo, trouxeram esse texto para estudarmos. Um capítulo de um livro chamado A memória, a história, o esquecimento.

E eu lembrava da promessa. Foi em 2007, exatamente. Haveria uma palestra sobre o filósofo, mas um amigo disse: vamos beber. Então nos fizemos a promessa de que jamais viríamos a saber nada sobre Paul Ricoeur. E vínhamos cumprindo, ora. Pelo menos eu. Recontei a história, como faço aqui. Uma amiga, parceira nessa promessa, está nesse mesmo grupo de estudos. E ela me lembrou que o motivo era exatamente esse. Queríamos beber. Recalcamos, portanto, Ricoeur, para beber. Anos mais tarde, percebi que em cima da estante tinha uma cachaça, de maneira que pudemos, como um sintoma que se forma, fazer coexistirem a tarefa de estudar Paul Ricoeur e beber cachaça. Foi maravilhoso. O texto é excepcional, do pouco que acompanhei ― não tanto pela cachaça, mas pela quantidade de assonâncias que esse texto ecoava ―, vale a pena. Talvez não tivesse valido naquela época, mas valeu.

E lembro também de outra coisa: um dia eu decidi que a grande tarefa do ser humano era decidir o que deve ser lembrado e o que deve ser esquecido: não se pode lembrar de tudo, mas é preciso lembrar de muito. Eu lembro exatamente o momento em que fui até o quarto de minha mãe, aquela profusão de livros sobre a cama, como ficavam durante o dia, e disse, olha, isso de filosofia é muito bonito, e a literatura, mas a minha tarefa, realmente, é aprender a lembrar do que deve ser lembrado e esquecer o que deve ser esquecido. Então eu não fazia ideia do quanto isso vinculava-se ao que seria meu trabalho cotidiano, anos depois, a psicanálise. Mas eu lembrei disso tudo.

E meu amigo de cachaças muitas, mas não de promessa, sendo quem me introduziu Paul Ricoeur, afinal, conta que numa passagem do texto a experiência dos medievais escolásticos com a memória, com a ars memoriae, é relatada cuidadosamente ― ou então foi o cuidado dele em nos expor algo que, de outra forma, dificilmente saberíamos, qual seja, que os mosteiros possuem o formato que conhecemos, com um recuo quadrado ou retangular em torno de um pátio, para que os monges pudessem andar enquanto faziam seus exercícios de memorização. Do mesmo modo como eu me lembro vivamente de entrar no quarto de minha mãe, quanto anunciava meu projeto, como me lembro de ter prometido, à saída da casa do Contraponto, na rua Medeiros de Albuquerque, onde estudávamos psicanálise naquela época, beber ao invés de saber, ou beber à saúde de Paul Ricoeur, e à minha, ao invés de sobriamente desaprender qualquer coisa, também os monges entravam e saíam, e caminhando memorizavam, como se a memória fosse um palácio que é preciso visitar ― parece que essa metáfora data do tempo de São Tomás de Aquino, que era capaz de memorizar a oposição que três centenas de alunos faziam a uma proposição filosófica que ele houvesse ficado responsável por defender, durante os debates que consistiam o ensino escolástico ― enganam-se os que creem se tratar de alguma forma de decoreba esse tipo de ensino ―, para então respondê-las, uma a uma, as trezentas, na mesma ordem em que haviam sido feitas. Sempre gostei dessa história, não lembro mais de quem a ouvi. Mas já me ouvi contando-a uma porção de vezes.

Ricouer conta outra história, a de um poeta que, tendo sido convocado para fora de uma casa, durante um banquete, acaba salvo do desabamento monumental que soterra todos os convivas. Será que um poeta é detentor de algum poder especial, e por arte dele se salva? Antes, aponta o filósofo, é o que ele faz depois o que importa: pela posição em que cada um se sentava, é capaz de identificar sua presença, ou de seu cadáver, de outro modo destruído ― as ciências forenses estavam nascendo, ou talvez ainda longe de nascer ―, e preservar, de algum modo, a existência daquele ser que já não era mais, porém, vivente.

Eu não tenho esses poderes de memória, e me tornei muito mais proficiente em esquecer que em lembrar, realizando, provavelmente, apenas a metade do meu projeto antigo. Considerando, pelo menos, que não o esqueci, ainda é tempo de recuperar sua existência.

E se digo essas coisas, é tanto por um projeto pessoal, como por achar que este é um projeto urgente. Por isso viajamos, creio eu. Viajar, para nós, é nossa maneira de visitar aquele palácio da memória. Não conhecemos outra forma.

E mais do que nunca é preciso lembrar, depois da catástrofe, o assento que tomavam aqueles que sob ela sucumbiram, para que, soterrados, abatidos, embora interrompido o curso de suas vidas, não deixe de correr até nós sua promessa.

Querer escutar

Ante a necessidade premente, descobrem-se o muito e o pouco que podemos. Que necessidade? Por ora, a de escrever.

Faz uma semana que voltamos do Rio. Todas as pendências se acumularam. Para nós, que trabalhamos 7 dias por semana, ausentar-se por 2 dias é muito. Some-se a isso que adoeci: na semana antes da viagem e, na volta, uma melhora apenas aparente. Faço o relatório de uma viagem, que ora se prende aos seus extremos: a casa. Porque viajar é tremendo.

Achávamo-nos em casa de Dodô, bêbados, cansados por um dos dias mais longos do ano, era sábado. Eu estava sentado numas almofadas, Raphael Vidal à minha esquerda, depois a Renata. Dodô estava trepado num móvel. Os outros, mais distantes, se espalhavam nos sofás, numa rede, nas almofadas. Volta e meia um levantava até a máquina de pinball, com medo de nunca ter outra oportunidade. Dodô explicou que só tem duas pessoas que consertam essas máquinas no Brasil, que você tem que esperar meses por uma visita e pagar a viagem do cara, além do conserto. Mas parece que vale a pena, aquela máquina reluzindo na sala com as vozes e sons do Império Contra-ataca é impagável. Em um quarto recuado ficava a máquina mais especial: Indiana Jones.

Eu prestava atenção, mas não conseguia falar. Lindos os cartazes dos filmes do Dodô Azevedo, altos na parede, em japonês, ele contando que não tiveram exibição aqui. Depois descambaram para uma discussão bizantina sobre a proximidade entre Robert Altman e Hitchcock, ou quaisquer outros diretores que não me acendiam nenhuma luz. Mas então eu já tinha desistido de acompanhar, e me equilibrava na rede semi-rasgada, tentando dormir, ou ficar acordado. Ainda estávamos no clímax da conversa.

Antes disso, eu chegara ansioso por saber mais da Mariá, que por cansaço ou discrição, também não falou muito sobre a própria escrita, apenas insistiu que precisava chegar cedo para escrever, em breve teria que buscar o filho, lá se iam as chances de trabalhar. Pelo mesmo cansaço, foi embora antes que eu chegasse. Fiquei com as breves impressões da carona até o Flamengo e do encontro na Casa Porto, onde o Vidal tinha tocado o show, isto é, o show em que nós éramos, em tese, os artistas. Em tese, porque muitos foram os encontros lá. Além do próprio Vidal, que conhecíamos da FLAP, e dos fofos Mariá e Dodô, dupla dinâmica, Thiago Ponce, que fez rápida aparição e uma leitura ainda mais rápida de Todesfuge, do Paul Celan, Francesca Cricelli, amiga linda de São Paulo que pôde ir e aproveitou para nos anunciar o lançamento de seu livro de estreia, Repátria, que foi ontem, Mariano Mantovani, que me mostrou seu livro e me arrancou elogios de bêbabo antes que eu estivesse bêbado, e ainda tantos outros, reunidos ali em nome desse encontro tão inusitado ― para nós. Estávamos num lugar não muito frequentado pelos cariocas, o Largo de São Francisco da Prainha, e no entanto estávamos na companhia de uma fraternidade incomparável.

Tento equacionar isso. É verdade que, aqui, temos a Casa das Rosas, a Biblioteca Alceu Amoroso Lima, a Mário de Andrade… ainda assim, aquilo tinha um gosto particular… ou é porque estávamos nós num lugar distante, onde encarávamos cada detalhe do lugar como único, no tempo, no espaço? Mas estou certo que não éramos os únicos a nos sentir assim.

Tínhamos chegado direto do almoço, depois da nossa oficina da manhã. A oficina foi em petit comité, consta que, se faz sol, carioca não comparece. Há de ser, porque tínhamos quinze inscritos, mas somente dois apareceram. Assim é: sol de verão em pleno inverno. Antes da oficina, dormimos pouco mais de quatro horas, porque saímos à noite de São Paulo ― trabalhamos sete dias por semana, e várias noites também. Estava acabado.

Além disso, chegando ao Flamengo, fiz um desvio, porque queria encontrar outra querida escritora, Diana de Hollanda, que carregava seu O homem dos patos com um autógrafo para mim, datado de fevereiro de 2014. Ela conversava com um garoto, um garoto, mesmo, que aparentemente está fazendo um certo sucesso com seus contos. Atendia pelo nome de Sperling (já que a Diana ficou incomodada de haver dois rafaeis no mesmo ambiente). E ela perguntava: o que vc acha do seu primeiro livro, vale a pena? Ele, muito humilde, explicou que gostava bastante de alguns dos contos, mas que também o livro novo tinha alguns dos contos do primeiro que os editores temeram em publicar. Pensei na História do olho, do Bataille, que eu tinha comprado de um cara que montou um sebo ali na Casa Porto. Esse livro estava me perseguindo, Dirceu Villa tinha me falado dele pra mim três semanas antes, depois encontrei um exemplar no sebo da Arte & Letra, em Curitiba, então resolvi que tinha que levar. E, terminado o livro, causa-me a impressão que me causava a descrição sumária que faziam meus dois companheiros dos contos do Sperling. No fim, disse a Diana que não poderia lhe entregar meu próprio livro porque, embora tenha ido para lá com esse intuito, fizera uma confusão e esquecera todos os exemplares na van Poesia, com o pessoal… Assim sendo, teria que enviá-lo por alguém, ou por correio. Ela despediu-se de mim com um tapa e um abraço.

Então eu me achava no sofá, incapaz de articular palavra, tentando fazer algo daquela viagem toda, juntar as palavras de toda a poesia que tínhamos ouvido desde cedo. Descobrira também muitas coisas que não sabia sobre a Renata, é tão incrível quando vamos ao lugar onde a pessoa cresceu, de repente a gente se dá conta: a pessoa não é só aquela pessoa que está diante de nós, que vemos e admiramos, ela é também uma porção de outras coisas, admiráveis, também, embora tão distantes. Que pensava eu, disso tudo?

Eu pensava precisamente o seguinte: que não podemos absolutamente confiar em nossos olhos e ouvidos; tudo que vemos é apenas a ponta de um iceberg, há muito mais coisas acontecendo do que alcança a nossa vista. O horizonte está mais adiante. E entre saber o que há lá, e não saber, está toda a diferença.

Tem muita gente que pensava, antes que eu começasse a refutar isso explicitamente, que eu falava alemão, porque sei pronunciar as palavras escritas, e sei ler umas poucas. A pessoa completa o que ela não sabe com aquilo que ela sabe, porque ela está ciente de sua ignorância. Mas, aquilo que não sabemos, não é igual ao que sabemos. É diferente.

E ali, no Rio, tinha a nítida impressão de que as pessoas procuravam saber, procuravam saber muito, porque desconfiavam disso; que fora do que sabiam havia alguma coisa importante acontecendo. Por isso as pessoas iam para os lugares. Quando não iam à praia, claro. O blasé e o curioso se misturam. Mas não se confundem. E isso faz toda a diferença. As coisas, de repente, tinham uma importância. Por causa disso, as pessoas se moviam, conversavam, se abraçavam.

Na porta, ainda sonolento, depois de beijar Dodô na face, ouvi ele insistir, antes de irmos embora: Então até logo!

Um pouquinho de tristeza

Passamos um dia maravilhoso em Morretes hoje. Mercê de nosso novo amigo, Guilherme Gontijo, grande poeta, professor de latim em Curitiba e tradutor rico. Temo falar demais e expor alguém que, se não é tímido, parece viver de maneira reservada ― o que, também, pode ser unicamente nossa fantasiação sobre um certo modo de viver que não tem necessariamente qualquer coisa que ver com reserva. É um pequeno punk pônei, em resumo. Sua filha é uma graça, além de malandra. Tiozinho bonitinho foi o apelido que me impingiu ― junto com sua amiga inseparável ― o que está em algum lugar entre uma declaração de amor e um desprezo sobranceiro, os quais, se isoladamente não são atitudes estranhas a crianças e gatos, surpreendem pela ambiguidade precoce, maliciosa, irônica.

Isso, junto com a doçura do pequeno poeta italiano de 1 ano de idade que é seu filho, e de sua esposa, a Fernanda, mais a companhia dos tantos amigos, os vizinhos, que vieram para o barreado, prato típico da cidade, tão esperado, e que tivera de ser suspenso no domingo passado, na vinda, por circunstâncias pesarosas, fizeram com que esse convite, depois da ótima leitura que fizemos juntos ontem, na Livraria Arte & Letra, em Curitiba, se tornasse uma surpresa imensamente bem-vinda. Assim foi que acordamos meio de ressaca, depois da maravilhosa festa da Cervejaria DUM, ontem à noite, no Museu Oscar Niemeyer, também dito Museu do Olho, empolgadíssimos, ansiosos por ir a Morretes e conhecer o lugar onde vivia essa pessoa tão carinhosa, tão generosa, que é o Guilherme, e não menos que isso, conhecer seu lugar de estudo, e talvez obter uma resposta à pergunta que depois lhe fiz: como você trabalha?

Eu faço uma coisa por dia. Acho que essa talvez seja, se fosse possível resumir em uma frase toda nossa conversa, a resposta. Mas, fizemos tantas coisas! Ele nos contou sobre a casa, o riacho que passa lá atrás, as frutinhas chamadas inphoto_2015-07-27_00-01-31hotingas, que talvez virem uma boa cerveja, como ele nos disse que preparou uma pimenta com elas; entramos no riacho e, na volta, ele nos mostrou a fruta do urucum, e as sementinhas, que esmagadas, soltam uma forte tinta laranja, com a qual pintamos o rosto, como guerreiros famintos… ele próprio conseguiu o tom avermelhado, recobrindo a tinta com várias camadas; a experiência faz diferença. E as cachaças! Cachaças da região, curtidas com frutas e cascas de árvore e outras partículas vegetais que eu não pude identificar, mas não de maneira descuidada, propositadamente grosseira, mas cuidadosa, artesanal, resultando em bebidas que lembravam vermute, conhaque, uísque… depois um doce de banana, nossa! Comemos muito muito muito, realmente. E a conversa, o ar, o sol… A verdade é que fizemos uma coisa nesse dia. A volta a São Paulo, então, foi só isso, a volta a São Paulo, depois de uma tarde deliciosa. Depois de uma semana deliciosa. Depois de uma viagem deliciosa.

 

E agora, às onze e meia da noite, depois de uma parada no caminho, pra esticar ― impressionantemente, minha coluna suportou super bem a viagem toda, mesmo dormindo em lugares variados, conquanto confortabilíssimos, mesmo com a Van Poesia apertada, e quase sem exercícios, já que estávamos na pegada ― e mijar, já que nenhum de nós mijou por um mês, e até comer, porque a boa comida não apenas satisfaz o apetite, ela também o amplia, paro pra pensar nessa tristezinha, de sentar com o computador aberto aqui e tentar escrever sobre o que vivemos… tristeza porque, nisso, obrigo-me a admitir que é vivido, passado particípio, já não tanto presente. Já começa a fazer falta…

Melencolia I - Albrecht Dürer
Melencolia I – Albrecht Dürer

Mas não nos paralisamos, não! Temos dois planos em andamento. O primeiro, uma oficina. Nossa oficina, o Curto Circuito Literário, deu muito certo. Estamos preparando uma oficina, não só pros outros, mas pra nós mesmos. Pra trabalhar. Pra deixar não só o que ensinamos, mas o que aprendemos, o que ouvimos, nessa viagem, dos outros escritores, tudo isso decantar em nós. Leva um tempo. Isso é um.

O outro, falar do amor. Porque essa foi uma viagem muito amorosa. Com toda a ambiguidade que o amor carrega, seja o das crianças, dos gatos, ou dos poetas. Que é do nosso estilo. Do meu mau humor, do meu preconceito, minha intolerância, que eu tive que superar minimamente pra poder estar com essas pessoas, e que eu queria tanto. E de todas as coisas que, tratando-se de amor, também dizem respeito à saudade, ao tesão, às carências, ao desamparo, às paredes finas, às camisinhas que vieram na mala, às paradas nas churrascarias na estrada, aos pneus furados, às hospedagens perdidas, à falta de gasolina, ao apagar o fogo com gasolina. Mas para isso o relato cronológico não basta. Então é um plano. Vamos ver como daremos tratamento a ele.

O escritor não tem somente o seu espírito

No carro, vivenciamos grandes experiências. Porque o carro pode, sim, ser um lugar. A Van Poesia tornou-se um lugar, desde que a ocupamos. E nesse lugar, temos encontros. Depois de ter publicado o texto de ontem, no blog, o pessoal pediu pra que eu o lesse, em voz alta. E o ler em voz alta proporciona uma experiência diferente do ler em silêncio.

Historicamente, o ler em silêncio vem depois do ler em voz alta. A reflexão que essa experiência permite, o voltar-se para a interioridade, é testemunhado por Santo Agostinho, que relata observar, com espanto, um monge lendo textos bíblicos em silêncio. Mas hoje, quando tudo é tão barulhento e o ler se torna uma atividade solitária, silenciosa, a reflexão passa a ser o normal, o regular, o corriqueiro. Então, ler em voz alta passa a ser o que nos põe num lugar diverso, onde podemos escapar às nossas próprias reflexões, necessariamente limitadas, e alcançar a experiência de outros, o espírito de nossos amigos.

Também por isso lemos em silêncio, na verdade, para ouvir os mortos ― e todo autor é, em certo sentido, morto. E as reflexões que tenho feito, assim como o texto que apresentei na quarta, têm por base algumas dessas escutas. Para a viagem, tive o cuidado, de outra forma raro, de escolher não os livros que estavam atrasados, não os que estavam emperrados, mas dois, e somente dois, que servissem de guias para a investigação que eu queria empreender. Tudo isso vem muito a calhar.

Os livros, portanto, eram os seguintes: Homens interessantes e outras histórias, do Nicolai Leskov, e A pornografia, do Witold Gombrowicz. O primeiro não cheguei a abrir, o segundo estou terminando. Leskov, porém, é um autor que já vinha lendo, a partir de um outro livro de contos, publicado aqui sob o título A fraude e outras histórias. Ele é, também, creio que já mencionei isso aqui, o autor que Walter Benjamin escolheu como epítome do narrador, considerando essa uma arte em extinção. Minha aposta é contrariá-lo, em primeiro lugar: não ler Leskov como um documento histórico, ou modelo de uma época, por exemplo como Proust, mas de fato para aprender com ele, como ele faz.

Meu conto, de quarta, é o documento dessa tentativa. Eu sentia que ela fracassava, por isso o texto de ontem. Mas, fracassava em quê? Foi a Renata quem sacou.

Fracassava em que a narradora, sendo mulher, me induziu, o que não era ruim, a princípio, a adotar uma perspectiva confessional, como se buscasse o íntimo, o mais íntimo, da experiência. Não uma moral qualquer, por exemplo, mas a experiência na sua crueza, ou na sua sensibilidade, características que, de resto, como bem dito pela Jeanne em sua oficina, são, às vezes pejorativamente, atribuídas às mulheres autoras. Nisso, creio, não fracassei, provando, tangencialmente, que isso não é uma característica das mulheres como escritoras, mas um lugar possível da literatura, como outros, e se é verdade que aos homens escritores este lugar não está vedado, às mulheres não está prescrito.

Tal experiência, íntima, confessional, não menos assim por não ser a minha, ou por não poder prová-la como sendo a minha, senão pelo escrito ― mas ela não é tão única assim que o texto se valesse apenas por ela ― é o que tentei denominar ali como “uma segunda tragédia”. Por que segunda? Como a Segunda Troia, de W. B. Yeats, ela não opera singularmente. De novo: não é tão única assim que o texto se valesse apenas por ela. Apenas em sua conexão com a primeira tragédia, a tragédia comum, dos alagamentos e desabrigados em Porto Alegre, ela poderia se alçar à categoria de uma experiência comum, ou seja, não que não seja comum, ao contrário, já afirmei que não é de forma alguma única, mas que pudesse ser comunicada, que estabelecesse alguma comunicação entre essa experiência privada, íntima, confessional, e esta outra, coletiva, histórica, geográfica.

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Eu e Fred trocando o pneu a caminho de Curitiba

Isso é o que alcançam tanto Leskov quanto Gombrowicz. De fato eles o fazem de maneira explícita, evidente, e o realizam. Não que a conexão, ela mesma, entre as duas tragédias, ou dramas, ou comédias, não que esteja a cada vez necessariamente óbvio, ou evidente. Mas essa intenção claramente existe, e talvez o valor intrínseco das suas obras esteja, justamente, na emersão repentina dessa conexão, que no meu conto, evidentemente, não ocorreu. Ou, talvez, tenha ocorrido?

Seria preciso relê-lo, com essa perspectiva, reler O narrador, do Benjamin, para entender os caminhos pelos quais essa conexão pode se efetivar, e aprender a identificar quando ela ocorre, quando não, e por quê.

Um conto deve dizer algo sobre alguém, mas deve dizer algo para alguém. Essa conexão, entre as duas tragédias, é necessária. É absolutamente necessária.

Sobre meu texto de quarta

Há uma certa decepção que acompanha toda realização. Gombrowicz assim o descreve:

Fiquei sozinho, decepcionado, como acontece cada vez que alguma coisa se realiza ― pois a realização é sempre tumultuosa, insuficientemente precisa, privada da grandeza e da pureza do projeto. Tendo cumprido minha tarefa, sentia-me subitamente desempregado ― que fazer? ―, literalmente esvaziado pelo evento que eu havia provocado. A noite caía. De novo, a noite caía. (W. Gombrowicz – A pornografia)

O mesmo ocorre, por exemplo, depois de publicar alguma coisa. Depois de dar uma aula. Lembro ainda quando publiquei meu primeiro poema. Tinha a impressão de que nunca mais escreveria algo à altura. Um equívoco, claro, porém faz-se preciso algo para quebrar o encanto.

Quando lidamos com um texto mais cuidado, sobre o qual já nos debruçamos mais de uma vez, costumamos conhecer suas qualidades e defeitos ― seus pontos fracos ― com mais intimidade, a permitir ver o que nosso próximo texto exigirá como superação. Sob outro aspecto, reler um texto algumas vezes faz-nos ver o que ele mesmo exige de si, para que prossiga, para que produza uma continuação, para que revele seu charme. Não assim com um texto recém escrito. Os contos têm, ao menos para mim, esse efeito: se não o realizo por inteiro, já não posso terminá-lo. Por outro lado, se o concluo, mal posso avaliar seu alcance: sou mais cego que aquele que o lê, pela primeira vez, e não sabe como se realizou. Por isso, disponho-me, agora, a analisar como fiz o texto que apresentei quarta-feira, no Mondo Cane Bar. Creio que estarei me expondo bastante, mas creio também que devo algo aos que nos levaram para lá.

Como dito, achei que não cabia ler um texto pronto. Um poema do meu livro, por exemplo. Quando começamos o projeto, pensei em levar poemas novos; não inéditos, necessariamente, mas que pertençam ao próximo livro, que planejo há tempos, sem nunca ter reunido seus poemas. Mas também queria ler uma prosa, achei que funcionaria mais. Então, chegando em Porto Alegre, já acolhido, confortável, com cobertor e aquecedor ligado ― obrigado, Marco e Ana Narvaez! ― ― esqueçam essa coisas de beatniks, nenhum de nós tem grande apreço por esse tipo de literatura, a não ser por aquilo que, neles, era periférico, e isso não por qualquer desapreço ao que seja canônico ― sentei-me à mesa e comecei a escrever, sabendo que teria apenas a quantidade de minutos disponível até o início da leitura. Não havia muito espaço para planejar.

Meu texto, então, começa tentando nos remeter ao agora ― nossa chegada a Porto Alegre, as notícias dos photo_2015-07-24_21-10-54alagamentos, os desabrigados ― ao mesmo tempo que nos remete àquilo que eu sabia que não veríamos ― os alagamentos, os desabrigados, a tragédia que isso representava, e que conhecemos tão bem, os que vimos de São Paulo. Para manter algum interesse na história, ou seja, para que ela nos tocasse num nível pessoal, já que a tragédia dos outros só nos toca quando podemos nos identificar com seus protagonistas, anuncio uma segunda tragédia, que deveria afetar minha personagem. Nesse ponto, decido, também, adotar uma personagem-narradora mulher, uma forma de me afastar ligeiramente dela, a fim de descolar minimamente minha própria chegada à cidade, da qual tirava o cenário, a inspiração e o caráter, da história que pretendia contar.

Mas que história era essa? Eu ainda não o sabia. Comecei pela preparação, sem saber a que levaria. Não é assim que eu começaria um conto, se fosse planejá-lo. Mas eu escrevia sem plano, de modo que preparava, anunciava uma tragédia, sem saber em que ela consistia. Era o preço a pagar por escrever um texto em cima da hora.

Então me recordei das redações de escola, quando sabia ser preciso escrever um certo número de linhas, sabia ter um prazo limite para escrever, e tinha total liberdade quanto ao resultado. Minhas redações eram, via de regra, consideradas competentes ― suficientes ―, então eu nunca me preocupava muito. Desta vez, era parecido: se o texto saísse ruim, eu apelaria para o plano B, leria os poemas já publicados, terreno seguro. Era parecido também sob esse outro aspecto: eu escrevia sem ter o quê, apenas para escrever, para cumprir uma tarefa ― ainda que o fizesse com gosto, com ímpeto de obter um bom resultado ―, mas sem ter sobre que falar, sem ter, a princípio, algo a dizer. Fazia o caminho ao caminhar. Como boa parte da minha escrita, que tem, então, percebo agora, essa raiz comum, as tarefas escolares da aula de redação.

Não, diferente deste texto, eu não partia sequer de uma ideia, partia simplesmente de um tatear. Quando concluí a primeira parte, a preparação realizada, pensei em parar: eu sei que este texto não está levando a lugar nenhum, mas sei que a preparação está adequada. Sei o que se diria, se eu parasse aí: que dá vontade de saber como termina. Mas, bem analisada, era uma preparação incompetente, e dessa incompetência nasceria o julgamento, a instigação, que tornaria o texto supostamente interessante: dá vontade de saber como termina. Porque se intuiria que não há como terminar, não há caminho.

Ao mesmo tempo, garantido pelo terreno sólido dos poemas que teria para ler, caso tudo desse errado, ousei prosseguir. Além disso, sabia que se parasse não poderia prosseguir, depois, que então minha explicação de que se tratava de um texto em preparação, um trecho, a ser concluído, não passaria de uma mentira, uma mentira consciente, inconsequente… achei que não seria uma chegada digna em Porto Alegre. Decidi continuar.

E a cada passo da narrativa, percebia que não havia mesmo como concluir a história. Simplesmente, a preparação não havia sido suficiente, não havia pistas, não havia ambientação, não havia profundidade psicológica, não havia conexão entre a ação, a personalidade, e os fatos que serviam de pano de fundo ou mesmo justificativa para a história ― que a tornaria relevante para nós. Nada disso. Portanto, não havia como terminar. Nada que acontecesse poderia se ler como uma tragédia, como anunciado. Talvez, uma grosseria, talvez, uma decepção, talvez, uma frustração. Mas não uma tragédia.

Conforme aproximava-se o momento da leitura ― a Ana e a Jeanne já haviam se apresentado ― eu precisava urgentemente de uma solução. Costumo escrever quase sem rasuras. Recorto, colo, acrescento ― às vezes corto ― mas sempre depois, no computador, quando releio, falo em voz alta, experimento o texto impresso. No caderno, quase nenhuma rasura. Não os últimos dois parágrafos: tinham de ser precisos, pois tinham uma função precisa: a de esconder o terrível fato, de que eu não tinha uma história, como, de resto, quase nunca tive.

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E assim fiz. A pergunta que se coloca, então, é: meu não ter história, mas haver conseguido (será?) ocultá-lo, faz com que eu tenha uma história? Será que houve espaço, no conto, para que o leitor complete minha falta de experiência com sua própria, fazendo, assim, com que meu vazio seja preenchido? Ou, então, a persona de escritor de que, escrevendo, me faço revestir, é suficiente para que a não história seja tomada por uma história? A leitura em público é muitas vezes suficiente para nos fazer ouvir a nós mesmos ― é o que pareço fazer aqui ― mas o que terão os outros ouvido? Ainda não pude constatar. A fatídica pergunta ― o que você achou? como foi? ― dificilmente alcança qualquer resultado. Não obtive qualquer resposta que me desse alguma pista. O que talvez seja, por si só, um indício: não alcancei ninguém. Mesmo que ninguém esteja pronto a admitir isso ― por generosidade, certamente. Que não me aproveita, como escritor, senão como um amigo um pouco mais contente.

Então minha decepção já não é tanto pelo realizado, mas por não encontrar meios de verificar se de fato o realizei. O que pretendia fazer, com este texto, mas também aqui verifico não ser possível. Por outro lado, isso é bom, não recaio sob a paralisia da realização. Continuo a escrever. Faço perguntas: se esse texto, feito às pressas, não funciona, o que é preciso para que funcione? Talvez não tanto ele, mas outro, um próximo. Como resolver um texto que é construído dessa forma? É possível fazê-lo? Ou essa é uma forma equivocada de construir um texto, será preciso mais preparação? Ou, ao contrário, será preciso, nesses casos, reconsiderar o que chamamos de “resolver um texto”, tomando outro resultado, diferente, sob esse título?

Nada mais digo, senão isto: esta viagem tem valido para me reconectar com este tipo de investigação. Ela foi necessária; absolutamente necessária.

Meu texto de ontem

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Quem é você? Você que estava tão contente porque tocavam Thelonius Monk no exato momento em que você entrou no bar, e naquele exato momento se esqueceram de que tinham botado Thelonius Monk pra tocar e deixaram o mesmo disco do Monk tocando por mais quarenta minutos, tempo suficiente pra que você se sentisse em casa naquele bar, descobrisse o espírito mais apropriado que se bebe naquele bar, até que, por um golpe de sorte, no meio de uma música dos The Doors, que começou a tocar depois, a música parasse, e não foi antes de começar a conversar com alguém, alguém que começou a puxar conversa com você porque, talvez, tinha gostado dos seus cabelos castanhos, dos seus olhos escuros, da sua silhueta magra e oferecida ― sem saberem por quê ― foi que você ficou sabendo que se tratava de um mau-funcionamento elétrico, causado talvez pela umidade ou por uma franca infiltração, o que dificilmente poderia ser evitado, ainda que tivessem previsto a quantidade de água que desabaria dos céus, coisa que você não viu, não chegou a ver, embora pudesse bem imaginar, vindo de São Paulo como vinha, de maneira que pôde oferecer de imediato sua simpatia, sua consternação, no entanto sem perceber que a tragédia real não havia ainda acontecido, não teria em todo caso de imediato sido causada pelas chuvas, nem sequer pelos alagamentos e nem, para manter o raciocínio puro, pelos desabamentos causados pela chuva, ainda esperando, a real tragédia, esperando o concurso de alguns outros fatores para acontecer, e que você, tendo chegado tardiamente para acompanhar o início do fatos, chegou cedo o bastante para ser tomada pela tragédia, ser tragada pela espiral dos acontecimentos que, sem direta relação com aquela desgraça comum, acabaria culminando naquilo que você, mais tarde, teria que chamar uma tragédia.

Por que motivo, senão, essa pessoa havia se aproximado de você, olhando por cima, como se contasse com você levantar os olhos para ele, por que razão, portanto, dirigia a palavra a você dessa forma, exigindo que você levantasse os olhos para si como se não pudesse de outra forma prosseguir a conversa, o que de toda forma seria verdade, já que é muito desagradável conversar como se fosse com os pés da pessoa, ou com seu umbigo, dessa forma fazendo com que você se obrigasse a levantar os olhos para essa pessoa para evitar um desconforto maior, que poderia ser seu, mas que acabaria inevitavelmente sendo dele também, ao ver que você se recusa, por falta de à vontade ou por excesso de vontade própria, a obedecer-lhe o intento insistente, que mantém com aqueles olhos, de resto bonitos, mas que olham de cima, condescendentes, desinteressados na medida mesma de seu interesse, distraídos na medida mesma de sua atenção, não como os olhos de quem cumpre um dever com desgosto, o de conversar com essa forasteira, essa recém-chegada, com sua magra silhueta, mas como os olhos de quem espera o cumprimento de um dever, pacificamente, pacientemente, quieto, embora ele não esteja quieto, fale sem parar, pareça não poder ficar quieto nem por um segundo, a ponto mesmo de me fazer esquecer: o que mesmo ele queria de mim? Porque mesmo começou a conversar comigo, minha silhueta magra, meu batom borrado?

Levantei minha mão, num gesto brusco, como que para introduzir a pergunta: por quê? Mas o gesto pareceu exagerado, muito brusco, e afinal, como se antecipava à pergunta que o justificaria, e que demorou a se esboçar, pareceu também completamente inútil, e por isso desajeitado. Tentei pousar novamente a mão sobre a perna, recobrar a graça, a postura, o sentido, mas era tarde. Ao descer de encontro à minha coxa, minha mão encontrou a dele, inesperada, indesejada, incongruente. Dessa forma, já não pude recuperar a graça, nem o sentido. Ele se levantou e fez um gesto para que eu o acompanhasse. Eu o acompanhei.

Conforme percorríamos o curto espaço entre as mesas em direção ao banheiro, você não pode abandonar esse curto pensamento: se o acompanho, estou sem graça, mas se fico, também. Agora, já estou de pé, é preciso caminhar. Não olhar atrás, cabeça erguida, erguer os olhos. Ele abriu a porta do banheiro e eu entrei, sem hesitar. Tropeço no pé dele, que havia parado para ver se eu o seguia. Eu já não o seguia, eu o empurrava para dentro do banheiro, antes que alguém nos visse.

Tranquei a porta. Ele pôs as mãos no bolso como se tivesse algo a anunciar, e que fosse coisa séria. E começou novamente a falar, mas eu já não estava mais ouvindo. Não ouvia mais. Porque me dei conta, naquele momento, de que não era ele falando, senão eu mesma, que o que quer que eu quisesse que ele fosse dizer, é o que ele diria, e se eu quisesse que se calasse, ele se calaria. Não porque quisesse alguma coisa de mim, mas precisamente porque não queria nada. Não queria nada comigo, nada de mim, mas nada de si mesmo, também. Se eu tirasse o baseado que tinha no bolso e desse a ele, ele sairia contente, como bem-sucedido, e era tudo o que queria. Não o baseado, mas a saída triunfante. Era só disso que precisava, naquele momento. Por isso ainda falava. Por isso eu já não mais escutava.

Andei até a cabine. Não vomitei. Não joguei o baseado fora. Ele esperava. Sentei-me, abaixei a calcinha. Mijei. Mijei como se mijasse por um mês inteiro. E ao me levantar, de frente para o espelho, não pude deixar de perceber que a silhueta que eu via, aquela silhueta continuaria a ficar, pouco a pouco, sorrateiramente, silenciosamente, cada vez mais magra, até um dia, talvez, desaparecer. E eu já não estaria ali para impedir.

A person from Porlock

A bateria está acabando. Não temos muito tempo até Porto Alegre e ainda a maior parte de nós não tem onde dormir. Não temos reservas em hotéis, menos ainda dinheiro para isso. Temos uma leitura marcada num lugar chamado Mondo Cane. Parece que é famoso. Eu não saberia, tudo o que sei sobre Porto Alegre é que possui alguns grandes escritores, de quem quase sempre nada li, entre os quais o nome Erico Verissimo me é especialmente caro. Sinto-me deslocado, entrando em um mundo que não é o meu. Rio Grande do Sul me soa como outro país, como alguns gaúchos, segundo consta, queriam. Penso no Cidadão Kane, talvez por mais de um único motivo, que não saberia precisar. Xanadu. Gostaria, por um momento, de ser um escritor romântico inglês. Não Byron, claro, mais especificamente Coleridge. Vocês sabem, não? Aquele que não terminou de escrever o poema porque uma pessoa de Porlock veio perturbá-lo? Veio arrancá-lo de seus devaneios? E quando, demitido o intruso, tentou voltar ao poema, já não sabia como terminá-lo? Eu gostaria de ser Coleridge. Sinto-me a pessoa de Porlock. Temo terminar a viagem como Keats. Exagero, claro. Talvez já esteja me aproximando deles.

Gostaria de escrever algo para a leitura. Não quero ler algo que já está escrito. Porque não é o local, não é. O problema é: não sei que lugar é esse, para quem vou escrever. Acabo de receber notícias da minha oficina, da oficina em geral, mas da minha especificamente. Parece que mexeu com algumas pessoas. Isso foi bonito saber. Mas eu gostaria que eu pudesse realmente me conectar com essas pessoas. Mas pra isso é preciso superar minhas próprias limitações, meus preconceitos, vários. Vencer a preguiça, a vontade de voltar pra casa, cada vez mais insistente. Tenho meu computador, minha segunda casa, tenho meus livros ― dos quais ainda quero lhes falar. Mas não é o bastante. E parece que tenho/não tenho minha escrita. Veja: viemos para construir pontes, mas cada vez que nos embrenhamos mais para o Sul (e em minha vida, Curitiba está mais ao Sul do que tudo, fazendo com que nosso itinerário obedeça a esse entranhamento), mais pareço me enfurnar dentro de mim mesmo, cético e refratário a tudo que vem de fora. E sou eu o que vem de fora. Eu sou a pessoa de Porlock.

Procuro uma saída, e ela está aí, logo aí. Mas não sei onde procurá-la. Aquilo que eu tinha por guia deixou de valer. A maldade? Não, não se trata disso, porque a maldade só é degradação, e portanto, criação, quando próxima da bondade. E aqui não se vê nada disso, porque estamos no ermo. No ermo, onde não me reconheço, não posso ser reconhecido, portanto não posso contar com a bondade de ninguém. Talvez haja alguma condescendência, mas é só. O que não me resolve nada. A bateria ainda não acabou, mas continuarei no papel. Continuarei no papel o texto que lerei em Rosebud. Continuarei a escrever no papel alguma coisa que me sirva para me levar para longe. Para onde eu deveria estar indo. Para um lugar em que a locução calamidade pública possa ter algum sentido maior que uma imagem repetida e inócua.

Como eu vim parar aqui?

Não sou de viajar. Os que gostam de signos não podem entender, porque o prazer em viajar é a primeira característica de sagitário. Mas eu realmente não gosto de viajar.

Sinto falta do piano, sinto falta da minha rede, sinto falta de pessoas que não estão aqui. Demoro pra entender a cidade nova, a me acostumar com o fato de que não vou entender nada, de fato. Não tenho essa ânsia por andar um monte e ver tudo que for possível, gosto na medida do possível fazer as mesmas coisas que faço em casa, um bom café da manhã, comer bem, dormir um pouco, sentar pra ler. O fato de não estar trabalhando aguça ainda mais essa vontade. Quero aproveitar as férias. O lugar, é contingente. Mal de ter construído para si um lugar agradável, e chamá-lo de minha própria casa. Um teto só meu.

De maneira que nunca teria, por impulso desmotivado, aberto mão desses pequenos privilégios, que me são tão caros, pra ir ao Sul do País a fim de ver coisas que não conheço e que, para um investigador exigente, terminaria necessariamente por admitir que não poderei mesmo conhecer. Não que o piano inesperado na sala de estar de nossa querida anfitriã ajudem a me tirar da zona de conforto. De jeito nenhum.

Rita Paschoalin, nossa anfitriã, e Rê Corrêa
Rita Paschoalin, nossa anfitriã, e Rê Corrêa

Deixar São Paulo, aliás, tirar férias é, em si, coisa que me põe profundamente ansioso. Penso que estou fazendo algo errado, que estou sendo irresponsável, que estou sendo petulante, já que pouco direito tenho a qualquer coisa, eu que não produzi nada de permanente neste mundo… Ando tenso, três manchas amarelas aparecendo na perna, uma veia dilatada a ponto de doer, tudo porque preciso deixar tudo resolvido antes de me sentir autorizado. Tudo resolvido. Tudo resolvido.

Deixar São Paulo para uma aventura não é coisa que eu faria de caso pensado. É coisa que parece, à primeira vista, para alguém como eu, uma péssima ideia. Mas para algumas pessoas pareceu um lance legal, então o que aconteceu, simplesmente, foi que suspendi meu próprio julgamento, por mais radical que fosse em seu conservadorismo, em nome do julgamento de meus amigos. Um escritor não tem somente seu espírito, dizia Nietzsche, tem também o espírito de seus amigos. Então eu fiz o esforço, maior do que a impossibilidade de deixar tudo resolvido antes de sair de cena, o esforço de abandonar a pretensão de deixar tudo resolvido. Não era uma viagem que faríamos por nós mesmos, para nós mesmos. Mas fazer com os outros, e em certo sentido, para os outros, cala a exigência superegoica o bastante para que possamos fazer isso. Não é uma viagem que faríamos, mas é uma viagem que faríamos com os outros.

E então, finalmente, explica-se a exigência superegoica, como se estivéssemos devendo algo, devendo muito… explica-se a exigência de deixar tudo resolvido, antes de pôr o pé na estrada… porque uma vez com o pé na estrada, já não me preocuparia com o muito não resolvido, nem com qualquer outra coisa que não fosse aquilo que estivesse efetivamente fazendo. O que poderia ser muito, ou nada ― e que bom termos um cronograma, leituras marcadas, cursos ― porque verdadeiramente já estava somente ocupado com o que está acontecendo agora. Um estado de disponibilidade enorme. Nenhuma exigência, a não ser… o que está acontecendo agora?

Agora estamos no bar Sambaqui, em Santa Mônica, Ilha de Santa Catarina, dita Florianópolis, antiga Desterro, tomando cervejas wit fabricadas pelo dono, preparando a leitura que faremos daqui a pouco. O público já se avoluma, o bar é pequeno, o que faz parecer maior ainda o grupo… leitores ávidos, percebe-se. A música é boa, a conversa divertida. No corpo, ainda o efeito das conversas da tarde, provocadas pelo Fred, que se impôs a tarefa de fazer um documentários sobre nós, sobre o projeto, sobre… não sabemos ao certo, apenas que ele nos manda gravar nossas opiniões num CD e vender na Santa Ifigênia. Não lhe interessa nossas opiniões. Nem a nós, verdadeiramente, mas apenas o que fazemos. Mas o que fazemos?

Daqui a pouco vamos ler. E tirante os relatos de nossa viagem, dos efeitos e reflexões que nos provoca, e o que escrevemos aqui, e o que já fizemos, no passado, e publicamos, o que será que fazemos, tão intensamente, compenetrados, sensíveis, suscetíveis? O que fazemos, agora?

Mas será que você estava prestando atenção?

Minha dose de drama

Quem vê no Faceinbox não sabe, a saída de São Paulo não foi tão fácil quanto pensávamos. Teve gente que acabou a bateria do celular no meio da noite e ficou sem alarme, daí que tinham abusado ― todos abusamos, nos últimos dias, tinha uma tensão permanente por não sabermos bem o que nos espera, se os planos vão dar certo, se estamos fazendo algo certo… ― e o resultado foi um atraso de umas quatro horas, no total.

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Eu, fugindo enquanto é tempo

Mas esse foi só o começo, porque somos sete e o carro leva sete… sem bagagem. Compramos um bagageiro enorme, quinhentos litros, mas tínhamos muita coisa pra levar. Sacos de dormir, agasalhos grandes ―ainda torço para que o tempo não vire e tenhamos calor―, livros.

Nossos documentaristas, o Fred e o Gonza, começaram a filmar, mas logo tiveram que interromper pra tentar enfiar as coisas dentro do bagageiro. Levou cerca de uma hora pra fazer isso, ainda assim porque nos desfizemos de algumas coisas, inclusive computadores. Não foi minha escolha, como veem, na verdade minha mala já estava bem enxuta e levo poucos livros: 11, pra ser exato, remanescentes da 2ª tiragem do meu Poemas para o Século XX. Só de pensar que teremos que fazer toda essa manobra em cada parada, sentia angústia. Mas isso também você não vai ver no documentário, porque rimos, fazemos piada, e prometi antes de sair de casa que não iria ser angustiento. Por mais que viajar me deixe nervoso e inseguro.

Então sentei na cadeirinha preparado pro caminho. Ana do meu lado, já um pouco mais confortáveis, depois da primeira tentativa, daí descobrimos que ela passa mal na estrada. Eu também, uma tontura, se fico muito tempo na frente da tela brilhante. Ler até que consigo. Saca o Dramin da bolsa, pede a água. Dramin é um drama pequeno, saca? Diz a Ana: é a minha dose permitida de drama nessa viagem.