Flanerie Carioca & Grãos Imastigáveis

Depois de oito anos vivendo em São Paulo, volto a viver na minha cidade natal, o Rio de Janeiro. Fiquei com o meu coração literalmente partido, costurado com uma linha feita de ponte aérea de tanto amor pelas duas cidades. Nesses anos aprendi várias coisas, mas também desaprendi. São Paulo não é uma cidade muita afeita a flaneries – geralmente o paulistano cria seu bunker, sua bolha ideológica pessoal, e lá permanece. Isso não é uma crítica, é uma constatação. Não necessariamente pela falta de vontade, mas pelas circunstâncias geográficas – São Paulo é imensa – e político administrativas – aparentemente os governantes das últimas décadas não curtem o intercâmbio entre bairros diminuindo e extinguindo linhas de ônibus que sequer circulam durante a madrugada, fazendo essa experimentação ficar um pouco restrita.

A trupe de autores de Grãos Imastigáveis

Ao voltar para o Rio me instalei confortavelmente em um apartamento da Zona Sul carioca e paulistanamente não explorei muitos quilômetros além do meu umbigo. Em Copacabana eu tinha amigos, comida farta e barata, ciclovia, e um professor de stand up paddle com um corpo comparável as mais exuberantes maravilhas naturais da cidade, como o Pão de Açúcar, o Arpoador e o derriére da Valesca. Mas felizmente o Rio não perdoa os imóveis. Se você não circula, você perde. A cidade acontece in loco, ela tem gosto, tem cheiro, tem clima, atmosfera que precisa se experimentada para ser apreendida e compreendida. Sucumbi, desempoerei meus sneakers de oncinha e fui me aventurar para relembrar e reescrever a minha cidade, tomá-la de volta, recupar minhas memórias cheias de fantasmas adolescentes, festas e amigos que não existiam mais.

Descobri um templo budista na ladeira Saint Roman, entrada do Pavão Pavãozinho. Mais carioca impossível, no meio do sobe e desce de moto-táxis, policiais fortemente armados, crianças em uniformes escolares e ambulantes, fazer um Zazen no mais perfeito silêncio. Alex Castro, amigo e escritor que me apresentou a essa pérola. E foi só o começo. Uma pool party gay que aceita crianças em São Conrado, a Casa Porto do Raphael Vidal recebendo o melhor da cultura negra na região portuária, um bloco de carnaval em Paraty, um baile charme Madureira, uma cooperativa restaurante vegan no centro da cidade, um wi fi com expresso a preço justo na Urca, o melhor guioza da cidade na Praça Afonso Pena, Neymar, o distribuidor das quentinhas mais baratas do Rio alimentando os funcionários famintos da Gávea, uma suruba hipster no hotel Shalimar, um bazar feminista de troca de roupas no Grajaú e eu já estava me sentindo incorporada na cidade, como se o suor do 422 tivesse virado sangue e voltado a correr nas minhas veias.

Mas nada tinha me preparado para a última que me esperava.

Semana passada o Bando Editorial Favelofágico lançou o seu primeiro livro. Até aí, lançamento de livro no Rio de Janeiro consiste na mesma chatice blasé intelectual numa livraria na extrema Zona Sul, com vinho branco quente, castanhas com passas murchas e todo mundo querendo ir embora pro boteco da frente. Só que o bando é o bando, o bando é uma editora que fez uma residência criativa com autores de periferia e não estava lançando só um livro, estava fazendo um ato festivo e político no coração de Manguinhos.

Para quem não conhece o Rio, Manguinhos mais aparece nas páginas policiais do que nos cadernos de cultura. Nada mais injusto. O complexo de favelas tem a Agenda Cultural Mandela Vive que organiza eventos com artistas do complexo e de outras favelas, um dos saraus de poesia mais antigos da cidade, o Sarau Poético de Manguinhos, que lançou nomes como Celeste Estrela, um grupo de teatro com o seu próprio dramaturgo residente, Geraldo de Andrade. Artistas com um talento vivo, pulsante. Fora a Biblioteca Parque com uma programação permanente de exposições, peças, filmes. Bom, se você carioca, não sabia, fique sabendo.

Inteirada mais ou menos de como seria o lançamento, me meti num táxi na São Francisco Xavier carregando um buquê de rosas vermelhas e amarelas para parabenizar Janaína Abílio, amiga que iria lançar pela primeira vez seus contos na antologia do Bando Editorial Favelofágico. Mas antes de continuar, uma pausa para falar sobre Janaína.

Grupo Livre de Criação Literária presente!
Grupo Livre de Criação Literária presente!

No apartamento em Copacabana eu montei o Grupo Livre de Criação Literária. Um grupo exclusivo para mulheres, onde a literatura poderia ser exercida politicamente com a maior liberdade estética, temática, formal, possível.  No primeiro dia, todas aquelas mulheres chegaram tímidas e reticentes. Expliquei a proposta do grupo, e pedi para que elas lessem o material que trouxeram, mesmo que um trabalho ainda em processo. Janaína foi a primeira. Leu um conto curto do seu blog, um conto em primeira pessoa. Suas tranças caíam pelos ombros, seus óculos de armação lilás refletindo as letras do texto. Ao final, ela olhou para um grupo atônito, 9 mulheres com cara amassada e lágrimas na cara. Eu inclusa. De lá pra cá seu texto que já era bom, só melhora. E duas das sua protagonistas mais interessantes estão em contos do livro Grãos Imastigáveis, lançado naquele dia em Manguinhos.

Janaína Abílio, rainha da noite. <3
Janaína Abílio, rainha da noite. <3

Desci do táxi, e dei de cara com uma enorme lona de circo, amarela e azul, com luzinhas por dentro. Um palco, telão, crianças correndo pelo gramado, barraquinhas vendendo livros, cerveja, arroz com lingüiça. Na projeção o vídeo apresentava os autores da antologia. Janaína, de make metálico, calças de zebra e uma timidez não compatível com o seu talento recebeu as flores. Priscila Britto, outra integrante do grupo livre estava lá acompanhada de Vitor, seu namorado, que mais tarde revelou dominar a coreô de “Beijinho no Ombro”. Dançamos clássicos do funk ao som do DJ Buchecha, ouvimos trechos dos contos, comemos, bebemos, nos empolgamos com a curta apresentação de um grupo de rap feminino, o Ladies Gang, e saímos expulsos pelo temporal, que se avolumou, fez pingar água e estragou o equipamento de som. Tínhamos livros nas bolsas e a certeza que todo lançamento deveria ter um pouco de Manguinhos no coração. Seríamos autores mais felizes e provavelmente muito mais interessantes.

Para ler Janaína Abílio: www.egomettrica.wordpress.com

De Nova Iorque para Curitiba. Com amor.

A turnê dos Escritores na Estrada passou pelo Sul do Brasil estreitando laços, desvirtualizando corpos, demonstrando por A + B que o olho no olho ainda é a maneira mais eficiente e amorosa de aproximação.

Depois de voltar ao Rio de Janeiro embarquei para Nova Iorque, numa dessas conjunções astrais que fazem todas as coisas do mundo coincidirem. Acabou que continuei a flanar, e entre bagels, dançarinos de hip hop, taxistas indianos, e enormes hambúrgueres e coffees to go lembro daquela manhã maravilhosa na Arte e Letra em Curitiba.

Os seus poemas estão comigo, queridos poetas. Passeando na quinta avenida, me emocionando quando viro uma esquina e encontro uma orquestra de gays e lésbicas tocando New York New York, quando vejo Allen Ginsberg pichado em um muro.

Pra dividir um pouco com os leitores do blog essa sensação, coloco aqui os poemas lidos naquele dia. Tão diversos e particulares, assim como os seus donos.

Ismar Tirelli chegou usando a máscara arquetípica do Pícaro e leu seu poema com a serenidade de um mestre zen. Transformações possíveis e impossíveis acontecem quando se está em boa companhia.

Um funcionário
 
Agora que voltei ao escritório, voltarei também ao lirismo?
Dobrar-me-ão de passagem para a copa
as vergas
d’O Cântico dos CânticosAs Mil e Uma Noites,
certa nota de jornal enfiada à carteira
a versar sobre a infinita divisibilidade de Homero
agora com postulados algébricos?
Ora, merda.
A quem cantarei agora estas maravilhas?
pergunto-me
fixando abobado um glossário de termos petrolíferos
uma fotocópia
largada sobre minha mesa, encarquilhada de manuseio
(falando-me do manuseio, falando-me a muitas mãos. Quase tomando-a por algo belo)
gongo à garganta da ascensorista
desce
uma malha de corredores vazios, espalha-se a ordem por
lajotas de mármore
maravilhas?
Coisas tão miscíveis em seu próprio tempo,
que tipo de operação as dissociaria de tão entramada geral?
Eu tratava o divórcio entre as coisas.
Eu tinha tempo.
Estava ainda por topar a palavra Absoluto
em meio a uma interminável lista de aromatizantes…
(Era embasbacá-la, era – sim, um dever moral).
A quem cantarei agora
Óleo absoluto de rosa damascena
                            Óleo absoluto de rosa damascena?
Bem que me disseram que esta era a cidade das coincidências,
que não havia meios de escapar,
que, como toda a gente, eu ainda reencontraria no metrô algum velho
conhecido dos tempos de colégio
abotoado dos pés à cabeça,
que eu ainda seria levado a pensar, forçosamente, na fraternidade dos homens,
nestas partilhas ásperas,
minudentes,
levadas a cabo no mais entalado silêncio.
Eu sabia destas coisas.
Julgava-me – em alguma medida – preparado.
Inclinava as pupilas com a luz branca,
recebia dócil, alegre até,
o beco trabalhado em minha testa.
Mas eu olho para baixo e o que vejo, ao fim do dia, são os sapatos de um outro.
O verniz de um outro.
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A presença dela iluminou o dia. Mari Quarentei é tudo isso e muito mais:
Mariângela Quarentei (Mari) libriana de São Paulo/SP. Terapeuta ocupacional pela FMUSP, implicou-se desde os anos 80 com a temática da desconstrução do manicômio, a criação de novos modos para acolher a loucura, e de dispositivos híbridos entre clínica, vida e arte. Em 2010 retoma a escrita poética a partir do contato com a cena artística de Curitiba, onde reside desde 2013 e faz parte do coletivo marianas de poetas e escritoras. Seu trabalho se dá a conhecer nos saraus e na rede, bem informalmente. Publicou “caderninho de Imagem I” pela “quaseeditora”, Curitiba, 2014 (artesanal). E é também artista visual/pós-graduanda em Poéticas Visuais (EMBAP), desenvolvendo o experimento “Dar a palavra… à palavra: entre a escrita e pintura”.

Poema negro

O poema É VERTIGEM NEGRA

ABSINTO

CRACK

O POEMA EX-PELHA VOCE NUA

NA CORDA DE VêNUS

Deixou-a débil , sutil

incerta… . . .humana

SUJA

PUS PUSTULA

LÂMINA

L Anima

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Mari Costa, por ela mesma:

“Nasci Mariana Raquel, mas a vida me fez Diva. E atualmente como divar não paga as contas, estou advogata.”

Eu a conheci e não tenho como duvidar de uma palavra. =)

Aí vai seu poema:

O busão lotado
De neguinho abarrotado
Vai e vem
A propaganda na janela traseira traz o mandamento
“Pichação é crime”
“Denuncie”
Mas no alto do prédio encontro o paralelo
Do marginal a denúncia:
“Só paro de pichar quando a política funcionar”
Entendeu?
Ou quer que eu grafite?
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Marcia tem aquela qualidade emocional, o poema foi lido de cor e parecia que ela inteira lia: corpo-alma-coração-dedos das mãos.
“Marcia Pfleger é escritora e jornalista, nasceu no interior do Paraná e mora em Curitiba. Seu primeiro livro de poemas será lançado em setembro deste ano, pela Editora 7Letras. Também tem trabalhos publicados na Revista Parênteses; na Antologia Paralelos – Contos Fantásticos, da Editora Inverso; e no Dossiê Woofianas – Mulheres que Escrevem nos Séculos XX e XXI, organizado pela UFPR. É autora do blog “Unha que risca a lousa”.

Dorflex para meninos-lobos

lembro sim
do surto das amoreiras
sobre os muros arregimentando a
gulodice de pivetes as
mãos ensanguentadas
de suco

lembro esmeraldas em anéis
de lata
joelhos ralados por rolimãs
o mundão no fundo do quintal
seu mapa para sempre
perdido

lembro a época de
coisas assopradas no ar:
bolhas de sabão
dentes-de-leão
pipas coloridas
a esperança…

o tempo em que
fomos felizes
a dor alcançava
apenas ¼ de mim…
era fácil então
despi-la
junto com as meias

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Lubi Prates fala baixinho, parece mansinha e vai lá e cresce uns vinte centímetros a cada verso.

Lubi Prates nasceu em 86, em São Paulo. Estudante de Psicologia. Tem publicado o livro ‘coração na boca’ e algumas participações em revistas e antologias literárias nacionais. Escreve no blog coração na boca. Edita a Parênteses, revista literária virtual e traduz.

carrego mágoas enormes
nos bolsos do casaco:
esse repetir dores imaginárias
e repetir repetir até acreditar.

sou um viaduto carneosso
não ergo meu corpo do asfalto.
o peso disfarço
enquanto amarro os sapatos.
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Andreia é daquelas moças tão interessantes que você não sabe o que é melhor – ela falando da vida, ela falando da arte ou ela lendo. Difícil escolha.
Andréia Carvalho (Gavita): Poeta. Editora de multimídia na Revista Zunái. Idealizadora do Coletivo Marianas. Autora de “A cortesã do infinito transparente” (2011), “Camafeu Escarlate” (2012) e “Grimório de Gavita” (2014), publicados pela Editora Lumme (SP).
*o êxtase do santo leitor
Queria que me interpretassem demônio esfuziante. Por que me caio e me sinto belo, muito bonito em minha periculosidade efêmera, quando leio os poemas todos de vós. Digo vós por se tratar de uma segunda pessoa, como eu convosco, em medievalidade ritualística.
Fico apaixonado por mim quando vos leio. Depois passa. Como o desejo da moça ex-violinista que só queria o violino para umas erudições clássicas. Depois que foi por um dia o corpo de estradivário, extraindo de suas cordas neurológicas a música que a esticava em escalas estilhaçadas, passou. O desejo findo. Então o espelho, sem pronomes retos.
Assim o faço. Depois de ser belo pela música escrita de vossa alma, recolho-me ao fragmento cortante e luminoso do eu, sem som nenhum, expulsa do vosso paraíso que ousei rastrear. Recolho-me e me diriam anjo calado, pois ao longe pareço dormir, perpétuo como estátua que vela féretros. Então me interpreto. Corrompido pela vossa contemporaneidade. E só há o desejo demoníaco de que me interpretassem dodecafônico pergaminho. Mesmo que a beleza seja inexistente em sua heresia de pulsões. Pois o espelho veio depois da leitura da gravidade. A redação massificante da queda de uma maçã, no jardim de vós, físicos e apaixonados. Sois arcanjos modernos e espalhafatosos, um êxtase para escultor.
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E por fim o caubói de Morretes, domador de crianças e barreados, Guilherme.
Guilherme Gontijo Flores (brasília, 1984) é poeta, professor e tradutor. estreiou com os poemas de brasa enganosa (2013)publicou traduções de as janelas, seguidas de poemas em prosa franceses, de rainer maria rilke (em parceria com bruno d’abruzzo), e d’a anatomia da melancolia, de robert burton, em 4 volumes (prêmio apca de melhor tradução). neste momento prepara a tradução integral das elegias de sexto propércio. participa do blog coletivo escamandro

song of itself

polar bear track 5 diz o ipod enquanto estico o pé pra fora do ônibus & aponto para a borda do passeio públicosenhoras junto ao lago espreguiçam seus braços nos modos do tai chi
apalpo o bolso pelo fumo insalubre que insisto em carregar nas manhãs
cachorros & madamas cruzam meu caminho sem pestanejar
de fumo em riste ensaio apertar um cigarro a passos largos
são truques estranhos que faço & me imagino caubói spaghetti montado em seu cavalo apertando o palhoso numa só
mão
– seus olhos malignos & calmos seu fumo maligno & calmo a câmera em close ganha força pela trilha sonora –
& causo algum frisson em dois adolescentes
que neste instante me tomam por herói maconheiro em praça pública
eu sou o maconheiro em praça pública mesmo fumando tabaco
sou cadela sadia que conduz sua dona de casa ao passeio como variante do tédio diário
sou dois ou mais adolescentes em busca de crimes menores & heroicos do asfalto
sou mesmo o asfalto do passeio onde passo & que também me atravessa
(fiz um pacto contigo walt whitman
sou-te & deixo-te fora dos pedestais
entregue ao gosto dos pedestres)
& poderia comparar toda esta cena a um quadro de maliévitch ou às cores de godard
para assim dar mais gosto erudito a esta composição canhestra
delendum momentum penso que bem poderia ser a morte que espreita o cidadão mais gordo que sou & corro do outro
lado deste parque num suor de bicas
a cocota sarada o estudante vadio o professor de latim nossas baratas metropolitanas nos bueiros as curvas suaves
dos galhos do ipê sem flor
a próxima faixa deste ipod em minha mão que denuncia minha classe em modos neomarxistas
(também fiz pactos contigo fernando pessoa diversos
mas não pretendo cumpri-los todos & te estendo a mão como um amigo)
as cores de godard ou pinturas de mailévitch ou goya previamente não citado
um neomarxista de barba aparada com tênis allstar & calças milimetricamente surradas
o parque termina antes da música o poema nunca termina o passeio segue adiante

 

Comecei esse post na Union Square e terminei no Brooklyn – a cada parada um pouquinho de vocês. Obrigada queridos, e até breve.

Curitiba: o que teve?

Teve festa, teve amor, teve escritores, teve curto circuito literário, teve carne de onça. E teve SOL. Juro. Teve sol.

Chegamos em Curitiba mortos de frio e fome. Eu e Ana sequer tínhamos tirado os pijamas que tínhamos dormido na noite anterior em Porto Alegre. Ricardo Pontoglio, nosso anfitrião, nos recebeu no Bar Baran. Bar recomendadíssimo por várias pessoas pela seleção de cerveja e a elogiada comida ucraniana. A cozinha fechava 23:30. Olhamos no relógio: 23:33.  Não existiu negociação possível. Frustrados, molhados, esfomeados, esfarrapados tentávamos nos agarrar ao último fio de bom humor brincando com uma tiara de chifres carnavalesca que era a metáfora perfeita de todos nós: vistosa porém um pouco despencada pelo uso. Ricardo nosso anfitrião conseguiu deixar a moral da tropa alta nos levando até a Mercearia Fantinato. A recomendação do garçom simpático era a Carne de Onça, iguaria curitibana que consistia em carne de vaca crua temperada com páprica, pimenta do reino, cebola, cebolinha, ou seja: gostoso. Uma parte da mesa torceu o nariz, mas eu, Fred e Daud demos um salto de fé e apostamos. Experiências gastronômicas fazem parte de qualquer viagem que se preze – Indiana Jones comeu miolos frescos, viu Jeanne? – e logo nosso entusiasmo curioso contagiou a mesa.

No meio, Ricardo, nosso anfitrião corajoso.
No meio, Ricardo, nosso anfitrião corajoso.

Finalmente estávamos de barriga cheia e prontos para apagar. Ricardo foi o louco que nos recebeu todos na mesma casa. Foi a primeira vez que isso aconteceu na turnê. Jeanne e Fred num colchão inflável no átrio, Daud e Ricardo no segundo andar, Gonza e Tarsila no sofá do primeiro andar acompanhados por mim e pela Ana que estávamos no chão com os sacos de dormir. Estávamos super cansados, a viagem de PoA foi muito longa – teve engarrafamento, pneu furado, chuva. Demoramos cerca de 13 horas no percurso. E claro que com isso, acordamos atrasados para nossa leitura e encontro com escritores na Arte & Letra.

Simplesmente ninguém colocou o celular para despertar e a coisa toda começou a ganhar contornos épicos com a gente se enfiando na van poesia como loucos. Deu tudo certo. O lugar era lindo de morrer, uma casa de pedra, um jardim que a cada ventinho fazia folhas amarelas caírem sobre nossas cabeças. Alguns poetas e escritores já estavam lá, o Thiago tinha deixado todo ambiente bem acolhedor. Para abrir os trabalhos cantamos trechos de músicas que cantávamos na estrada. A escolhida foi “Deixa Acontecer Naturalmente” do Grupo Revelação. Foi bem divertido. Fizemos uma breve leitura de nossos livros e dos livros dos nossos convidados. Estavam presentes Andreia Carvalho, Guilherme Gontijo, Ismar Tirelli, Lubi Prates, Marcia Pfleger, Mari Quarentei, Mariana, Ricardo Pontoglio. Se eu esqueci alguém por favor se manifeste para eu poder incluir. O que teve depois foi um dos momentos mais gostosos da turnê, um bate papo sobre a cena literária da cidade, diversidade, processo criativo, mercado editorial. É delicioso poder dialogar com nossos pares, vislumbrar frestas, aparar arestas, construir algo através dessa troca. Fred e Gonza super atentos na funça, captando tudo que podia ser captado.

Escritores na Arte & Letra
Escritores na Arte & Letra

Almoçamos na correria e seguimos para o espaço Das Nuvens que receberia o Curto Circuito Literário. A Keiko além de nos receber no espaço ainda providenciou os cartões postais que iríamos mandar de curitiba. Muito agilizo. O espaço era inspirador e estava lotado. Grupo diverso, atento, interessado. Ana fez as apresentações, eu comecei com a Trajetória do Herói, seguida pela Jeanne com o Leia Mulheres (Suave Pantera não me sai da cabeça), Ana com sua oficina anti engavetamento, Tarsila que botou a galera pra se mexer e Daud com a Escrita do Inconsciente, que sempre faz os oficineiros fazerem Ohs e Ahs de espanto. Ao fim da oficina autografamos alguns livros, e fizemos uma visita ao espaço e entendemos perfeitamente o nome do lugar. É um skyline maravilhoso de Curitiba com as cores de um pôr do sol de tirar o fôlego. Espia só.

Nas nuvens do Das Nuvens.
Nas nuvens do Das Nuvens.

Depois partimos para o Dum Day. Mas isso é outra história que espero que um dos meus companheiros tenha a generosidade de narrar.

Eu e Tarsila mandamos beijinho no ombro para quem perdeu.
Eu e Tarsila mandamos beijinho no ombro para quem perdeu.

 

 

O Rio, de volta ou Derramamento emocional

Em estado alterado de percepção e consciência devido a degustação dos mais finos néctares em forma de cerveja no Dum Day em Curitiba.
Em estado alterado de percepção e consciência devido a degustação dos mais finos néctares em forma de cerveja no Dum Day em Curitiba.

Enquanto meus queridos e intrépidos Escritores Na Estrada seguem para Morretes para encontrar o Gontijo e comer um barreado eu me enfurno no caos do aeroporto de Curitiba para voltar ao Rio de Janeiro.

Eu, Daud e Gontijo curiosamente conversamos dias antes na Arte e Letras sobre as limitações de algumas mulheres pós maternidade em se deslocar geografica e metaforicamente sem os filhos. Apesar de me identificar com isso, o nascimento da Liz foi tão libertador para mim que só depois do parto eu me senti autorizada como autora. E continuamos desdobrando a conversa dançando nessas dualidades.

Acontece que eu precisei efetivamente voltar ao Rio para ficar com a minha filha e não terminar a última parte da viagem e peguei esse vôo. E apesar de ter ficado triste, ambivalente e um pouco angustiada, no fim eu gosto como a maternidade se integra e vaza para minha vida. Eu não deixo de ser mãe da Liz quando estou longe dela. E uma outra maravilhosa revelação é que eu não deixo de estar com vocês, queridos escritores, mesmo estando aqui. Liz dorme ao meu lado, e eu cheiro o cabelo dela avidamente, dou uma paradinha e escrevo para vocês.

Li atentamente o Miolos Frescos no avião, Jeanne. Li como se nunca tivesse ouvido antes você o ler. Li como se nunca o tivesse lido. Quis pegar teu livro na mão como objeto inédito, como conjunto. Seu livro é tão tão lindo, querida. Sua estréia é tão madura, consciente. Eu sinto de forma palpável a permanência dos seus poemas. A posteridade. O posfácio do Dirceu não tem um único excesso – ele é preciso e sabe exatamente o que está falando. Você é tudo aquilo ali. E mais. E esse mais que eu descobri na viagem é muito bom. Tua voz calminha, seu desajuste temporal, sua figura que não precisa de uma única violência impositiva para se fazer notar. Estou com você comigo aqui.

Daud, grumpy grandpa, eu sempre gosto de ser a pessoa mais desinteressante da mesa. Ter ficado na casa da Rita em Floripa e convivido com você naquela cápsula me fez ter certeza que essa é uma preferência sábia e acertada. Suas referências e formação são tão diferentes das minhas que às vezes uma conversinha besta me dava uma perspectiva tão nova, tão surpreendente que eu esquecia o que estava pensando anteriormente. Obrigada por não ter cansado da função de olhar no olho do dark side of the moon por nós, que estávamos na maioria do tempo eufóricos o suficiente para esquecermos que existia também melancolia na estrada.

Aí vem a Tarsila, com a coragem de fazer perguntas. E fazendo perguntas a respeito dela mesma, transitando no terreno difícil da dúvida nos fez a todos fazer perguntas sobre nós mesmos. Você empreendeu a jornada mais clássica, você é nossa heroína. Era tanta doçura em cada pequena coisa, no trato, esse seu comportamento de praticar a empatia como se ela fosse a coisa mais natural do mundo e não fosse necessário nenhum esforço para isso. Navios e Foguetes me comoveu e não só pelo conteúdo (tão delicado, a aranha, a teia), mas também pela ponte que você atravessou para realizá-lo. A feitura na mão, na unha. Gosto de abandonar a metáfora e imaginar como foi literal essa feitura manual, noite adentro.

Ana, Aninha, Anuschka, Ana Ruth, Fox Spice: não é à toa que você tem tantos nomes, né? Não é à toa. Toda vez que você falava sobre a Diva, e aquela sua entonação ambígua entre irônica e séria, eu não conseguia deixar de pensar que se existe a Diva ela tinha encarnado e se manifestado na sua face Punk Pônei bem ali na nossa frente. Essa sua força realizadora é maravilhosa, parece mesmo um desastre natural, avalanche, inundação. Duvido que exista alguma coisa que você não possa, e cada desejo secreto ou exibido que partilhamos eu tenho certeza, certeza, nem uma sombrinha de dúvida que a Diva vai iluminar. Temos a prova: as nuvens sumiram e o sol apareceu em cada cidade onde colocamos nossos pés.

Gonza e Horse Spice: amo vocês muito. Se existe uma regra de alívio cômico em viagens vocês fizeram a preza com perfeição – além da funça pesada que é documentar esse caos que chamamos de turnê. Obrigada. :-)

Queridos,

Baby doll de nylon combina muito muito muito com a gente. Até nossa próxima parada.

Notas sobre Encarnações

Às vezes tenho a sensação de ter vivido em diversas encarnações dentro de uma vida só.

Olhando para trás vejo longos períodos que se desenvolveram como cápsulas independentes, que funcionaram como ciclos que nasceram e findaram: Renata produtora musical, militante do PC do B, moradora da Avenida Rebouças.  E também existem as encarnações paralelas, que coexistem: Renata escritora, feminista, mãe da Liz.

Encarnação é uma palavra bonita – ela tem o vermelho, encarnado, tem a espiritualidade e tem o colocar na carne, estar na carne, que é o estar presente com o corpo em algum momento ou situação. Gosto especialmente desse sentido carnal, carnudo e terreno. Sou alguém plantada com os pés bem no chão, afinal, eu sou meu antropocentrismo odara-selvagem.

Estou encarnada na viagem, incorporada, amalgamada com a transitoriedade da nossa proposta. Estou diluída entre malas, acostamentos, banheiros de posto de gasolina, escritores e pessoas que jamais verei novamente e que já estão coladas em mim de alguma maneira.

A viagem possui o poder mágico de unir todas as nossas encarnações em uma só. Em movimento se pode ser tudo ao mesmo tempo, o passado e o inventado. A estrada aceita. A estrada permite. A estrada é.

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Leitura dos Escritores na Estrada na Mondo Cane.
Leitura dos Escritores na Estrada na Mondo Cane.

Chegamos em PoA diretamente para a Mondo Cane, onde lemos trechos dos nossos livros. Daud leu um conto inédito, Jeanne leu três poesias do Miolos frescos, Ana leu poemas do rasgada, Tarsila leu Navios e foguetes. Nosso convidado Gustavo Czekster leu um conto maravilhoso feito especialmente para nossa passagem em Porto Alegre: regras para se comportar em saraus. Vamos publicá-lo aqui no blog em breve. José Francisco Botelho estava presente e sua esposa, a linda Laura Ferrazza leu um trecho de a Árvore que falava aramaico. Eu li Esquisita, do livro Vaca e outras moças de família, um conto sobre um momento contratual da adolescência – uma festa de quinze anos – e encarnei a adolescente que estava em mim e desenvolvi um amor platônico por um rapazinho que estava por lá. Como todo bom amor platônico, nada acontece feijoada.

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Jeanne entrando na galeria hipotética.
Jeanne entrando na galeria hipotética.

Ontem estivemos na Galeria Hipotética lançando nossos livros. Foi uma noite agradabilíssima, a curadoria do Fabiano é primorosa. Estávamos cercados dessa energia artística, ouvindo música legal selecionada pelo Renato, irmão do Fabiano, moço muito simpático, proto-produtor de 18 anos, muito divertido. Bebíamos cerveja Perro Libre e encarnamos muito no Renato. Encarnar no sentindo de tirar sarro, zoar, pentelhar. Mesmo novinho, Renato foi um lord e mandou muito bem ajudando na organização.

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Nossa anfitriã, Cris Ely.
Nossa anfitriã, Cris Ely.

Uma das minhas encarnações é de militante do movimento estudantil, onde conheci a gaúcha de Novo Hamburgo Cris Ely. Ela nos recebeu em sua casa, emprestou a sua cama, nos fez cafés da manhã épicos. Uma encarnação vaza para outra promovendo uma grande festa de renascimento. Obrigada Cris!

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Ontem eu fui fazer uma tatuagem. A minha quarta. Tarsila, Ana Rüsche e Gonzalo Cuellar se empolgaram e fizeram suas primeiras tatuagens também. Fomos acolhidos pela galera da Heráclito Tatoo, na Cidade Baixa, e fomos todos tatuados pela Stephanie. Ficamos usando o wifi para trabalhar, tomando café e chocolate grátis e batendo papo sobre a vida com gente gata e tatuada. Encarnar, no sentido de colocar na carne. A viagem está marcada na nossa pele agora.

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A Van Poesia segue para Curitiba. Nos vemos no caminho!

E no Sesc Prainha…

Foi muito lindo o nosso Curto Circuito Literário. Ana falou sobre travamentos, eu sobre trajetória do herói, Tarsila mexeu com o corpo da galera, Jeanne mandou super bem com o Leia Mulheres e Daud colocou o inconsciente dos participantes para trabalhar.

Foi muito bonito mesmo. A oficina lotou, foram mais de 30 inscritos, teve gente que não conseguiu entrar. O público era super diverso, ficamos impressionados como a literatura pode se constituir em um lugar de encontro e a materialização de uma utopia. Eram senhoras, jovenzinhas de cabelo azul e cor de rosa, adolescentes, acadêmicos, brasileiros, estrangeiros, homens, mulheres de Florianópolis que enfrentaram a noite fria e deram um salto corajoso para suas próprias interioridades. Estamos completamente encantados!

Obrigada ao Sesc Prainha por oferecer o espaço da biblioteca para que a oficina pudesse ser livre e gratuita.

Algumas fotinhas para vocês verem como foi! :-)

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Sobre Ontem

Vamp Spice lê poesias do livro Miolos Frescos no bar da cervejaria Sambaqui.
Vamp Spice lê poesias do livro Miolos Frescos no bar da cervejaria Sambaqui.

Fomos então.

Chegamos no bar da cervejaria Sambaqui. Arrumamos nossos livros em uma mesa, colocamos papelzinho colado com fita crepe anunciando os preços. Um banco foi posicionado na frente das mesas e do público. Fred posicionou um microfone peludo na estrutura metálica da tenda bem acima de nossas cabeças. Tudo que seria estaria gravado para posteridade. Medo.

Filipe nos deixou provar as cervejas da casa e eu escolhi minha favorita – a Wit – e me alegrei pelo álcool que ajudava a tensão horrorosa que estava retorcendo minhas tripas.

Como de hábito rolaram várias namastretas – eu e Daud combinamos de trocar, ele leria um conto meu e eu uma poesia dele. Não entendi que era para ler mais de uma poesia, ele ficou bravo, eu amei a leitura que ele fez do meu conto e ele odiou a que eu fiz da poesia dele. Aparentemente ele tem razão. Vamos lá superar meu leve pânico de ser filmada AND me apresentar em público, coisas que estavam acontecendo ao mesmo tempo naquela hora.

Nos embolamos um pouco na ordem das coisas, mas no fim das contas a leitura foi muito bem sucedida. Ana Rüsche é uma show woman, Jeanne encarna o arquétipo da poeta com perfeição, Tarsila parecia uma diva da década de 50 e nossos convidados João Amado e Rita Paschoalin mandaram muito bem lendo trechos de suas obras.

‘Tudo certo, nada resolvido” – dizia um amigo meu da época do movimento estudantil. Como tudo que tinha para ser feito já tinha sido feito, a natureza resolveu dar o seu closure clichê e mandou uma bela chuva que nos deixou todos espremidos dentro do pequeno bar da Sambaqui. Bebemos então, finalmente pelo prazer e não para aplacar a expectativa.

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Hoje temos duas atividades em Florianópolis: Bate Papo no Sebo Elemental às 17h e Curto Circuito Criativo no Sesc Prainha. Tudo gratuito, tudo com sanguenozóio, tudo com amor. Nos vemos lá!

Divididos!

Chegamos de madrugada em Florianópolis e precisamos nos dividir – nossas hospedagens eram em casas diferentes, e com o imprevisto de Morretes tivemos que chegar em Floripa um dia antes e nossos anfitriões tiveram que rebolar.

A querida Rita Paschoalin recebeu a mim e o Daud. Ela é escritora e publicou Contos do Poente com a Luciana Nepomuceno. Fomos recebidos duas da manhã com chá e bolo e edredons quentinhos. Foi restaurador. Acordamos hoje com a presença do Arthur de 11 anos, que já leu quatro livros nessas férias e Amanda, sete anos, que já fez seu próprio livro nessas férias. Nas minhas férias eu só queria saber de andar de bicicleta, jogar Street Fighter no fliperama e ir à praia. O futuro provavelmente será bem mais esperto do que o nosso presente. :-)

Mais tarde a tropa vai se reunir para comer ostras e bolar a nossa performance na Sambaqui. Programação clicando aqui nesse link.

E se quiser nos encontrar a nossa Leitura será no bar da Cervejaria Sambaquia partir das 19hno Santa Mônica, Av. Madre Benvenuta com a presença da Rita lendo trechos do Contos do Poente e claro, os Escritores na Estrada lendo, bebendo e batendo papo com quem chegar.

Vamos adorar encontrar vocês por lá. E deixa eu ir lá que Arthur e Amanda querem fazer um fanzine com a gente. Quem sabe não teremos mais uma publicação nessa viagem?

Começa a jornada

Quando contamos uma história por mais prosaica ou simples que seja, fazemos o esforço de ordenar os acontecimentos e encadeá-los de forma que a sequência de causa e efeito fique claro para quem nos ouve. Não à toa chamamos a história de trama, que como na feitura de um tecido os fios se entrelaçam, o que se se soltam ou sobram são recolocados ou cortados para que no final o resultado seja “bem amarrado”.

A questão é que quando começamos uma jornada não sabemos que fios são esses. A história só é história quando termina, suas lições aprendidas e que fazem o significado do início ser revelado. Tudo parece fazer sentido, as águas turvas ficam claras e delas emerge o sentido.

Hoje começamos a nossa turnê. Depois de um começo confuso e um pouco tenso onde cunhamos o termo Namastreta (namastê com treta), onde as coisas dão errado mas a moral da tropa permanece alta, finalmente entramos no carro e saímos de São Paulo. No momento em que eu escrevo estamos em um posto de gasolina perto de Curitiba e alguns fios da trama começam a ser entrelaçados.

Quando no momento da saída percebemos que o bagageiro não ia comportar todas as malas, livros e bagagens de mão se instalou uma crise. Como bonequinhos obedecendo etapas da trajetória do herói estávamos lidando com forças ocultas e misteriosas que estavam impedindo que abandonássemos o mundo comum e atravessássemos o limiar que nos lançaria à aventura. Mas será que seriam forças ocultas mesmo? Ou as nossas falhas, incompletudes e inseguranças que entupiram malas, fazendo um peso real e metafórico que nos prendiam a São Paulo? Certo era que os tentáculos que nos impediam estavam atuando.

Logo percebemos que para continuar a viagem não ia adiantar entupir o chão do carro, enganar o destino. Fato era: deveríamos abrir mão dos excessos para podermos prosseguir. E nossas malas já eram enxutas, era fazer o pente fino do pente fino. E fizemos. Para os heróis conseguirem acessar o mundo especial e cumprirem a sua missão é preciso um ato de coragem, abandonar velhos hábitos, se despir das roupas do cotidiano. Ana deixou o computador, Fred alguns acessórios de câmera, Tarsila o kindle e o desodorante, Jeanne também o computador e alguns exemplares do seu livro, Miolos Frescos, e eu uma toalha felpuda e macia que foi substituída por uma pequena toalha de rosto. No espaço que a toalha abriu espremi trinta exemplares do meu livro, Vaca e outras Moças de Família. Prioridades.

Cada objeto simbolizando o abandono da velha maneira, do velho ego, sendo deixado para que possamos começar a reconstruir nossas identidades na jornada.

Coubemos então, todos no carro tendo que lidar com os lamentos desse abandono, com a quebra da nossa fantasia de controle, e mais unidos, posto que agora com menos coisas devemos ser mais generosos, afinal teremos que compartilhar alguns objetos de intimidade como laptops, meias e fones de ouvido.

Vejamos se a viagem dos Escritores na Estrada continuará a cumprir servilmente as etapas da trajetória do herói, tão bem sistematizada por Propp, Campbelle e Vogler. Caso continuemos os próximos passos do primeiro ato serão encontro com o mentor, testes, aliados e inimigos e travessia do primeiro limiar. Observemos o desenrolar desse novelo.

Um estado de atenção

HITCHTRUFFAUT

O ato de escrever, como permamente exercício de alternância entre alteridade e identidade pressupõe em si um movimento. Mas esse movimento, circunscrito no imaginário do que seria um escritor, e o ato de escrever também carrega em si uma imobilidade. Sentar-se corajosamente diante da página em branco e só sair dali depois de certa luta para preenchê-la onde o movimento só acontece na interioridade.

Eis um paradoxo: o escritor deve então executar a sua obra negando o corpo, imóvel, mas sem negar o movimento.

É claro que com novas tecnologias, o escritor pode começar aqui e acolá a fazer notas de áudio, fotografar uma referência, ou mesmo fazer de seu celular um moderno bloquinho de notas, digitando furiosamente o que passou pela cabeça e parece promissor. Porém mais uma vez, temos que nos debater com a contradição: se antes a flânerie era condição fundamental para o escritor que queria contato com o mundo, como abrir mão das facilidades de uma rápida consulta ao google, ao kindle, a outro escritor ou referência no email ou inbox do facebook, ou mesmo à wikipedia, no conforto na sua cama ou mesa de trabalho?

Quando Truffaut e Hitchcock se encontram pela primeira vez e se reconhecem, diametralmente opostos e complementares há uma espécie de enlevo amoroso. O flaneur francês se apaixona perdidamente pelo mestre do suspense, que tinha como principal premissa de produção o controle. Hitchcock fez a grande maioria de suas cenas icônicas em estúdio, com portas trancadas. Já Truffaut seguia seus personagens pelas ruas de Paris, pontuando com internas aqui e acolá, mas deixando o vento da cidade entrar pelas janelas. Ambos foram dramaticamente modificados pelo encontro – Truffaut realiza A Noite Americana onde remonta um complexo set de cinema e Hitchcock revela que dará a oportunidade para o inesperado, singelamente prometendo a Truffaut deixar agora as portas do estúdio encostadas.

Como senhora da força do acaso, mesma deusa que promoveu o encontro dos dois cineastas na década de 70, Ana Rüsche nos acenou com a possibilidade de uma “turnê” de escritores. A ideia toda parecia maravilhosamente sedutora, mas ainda não tínhamos a exata noção de como materializar esse tipo de ousadia. Seria preciso se imbuir do espírito da viagem. Nos abastecermos de um sentimento de necessidade real e literal de deslocamento como exercício da escrita. Transformar o paradoxo da mobilidade versus imobilidade em aforismo – viajar é preciso. Viver é necessário e impreciso.

Será possível unir o controle e o apuro técnico a de Hicthcock com a diluição de Truffaut e seu desejo de imponderável? Bom, em comum eles tinham a obsessão pela escrita cinematográfica. Essa obsessão nada mais é do que um estado de atenção permanente para essa grafia e para essa gramática semântica do filme. Viajar é estar atento. Estaria aí o pulo do gato?

E na volta, quem sabe?

E tem volta?, quem sabe?

Nós, Escritores na Estrada, estamos fazendo uma aposta que os dois lados podem viver na mesma moeda. Estamos fazendo as nossas malas percebendo a necessidade do deslocamento como fundamental para quebrar barreiras, para estabelecer contato, para colar a nossa escrita em nossos corpos. Estamos embarcando. Estamos indo. Estamos nos escrevendo nesse momento que você está nos lendo. É com muitas mãos e muitos ethos que esse barco está sendo empurrado para o mar.