dragões e o crime da mesa e quatro cadeiras

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a descoberta do crime.

A loucura e o desejo são as duas cabeças de dragão que espreitam de dentro do casaco de frio. Mesmo que vc tente disfarçar e esconder as criaturas, elas são bem persistentes e… escapam nas horas mais inconvenientes.

Há dias em que apenas um vermelhinho da crista desponta por um dos ombros. Há noites em que a crista toda emerge, meio estilo rainha Elisabeth, meio estilo mula-sem-cabeça. Brilha, ana erre! Este último estágio é bem, hum, perigoso. Pois é um momento no qual vc mesma se perde ali dentro e tua língua e cabeça são um grande tombadilho estrumbado na tempestade ― depois você pode acordar a la náufrago ou em céu de brigadeiro. Só a sorte sabe a própria.

Ultimamente, esses chamados se acham mais frequentes. Surfar na mudança constante, esse estar na estrada sempre potencializa os arroubos das criaturas. Bateu. Fissura. Na rua, cinco contramãos na sequência, que só te afastam da casa do Upiara em que o Gonza e a Tarsi estão hospedados, duma forma que nem o waze manobrista te tira desta. Na porta da entrada do Mutley, que teima em não ser fechada. Na outra, que tu fecha e ela abre.

O caso é que se tu não pode afastar, então, conviva. Ninguém liga muito se tu ostenta um dragão em cada ombro por aí. Claro, no começo é um pouco chamativo, mas é tipo as ciclovias – uma hora, até o taxista se acostuma.

Ainda mais se há um misterioso crime de segunda-feira no bar da cervejaria Sambaqui. Como conseguiram roubar uma mesa e quatro cadeiras numa noite de chuva, debaixo do nariz de todo mundo? Pra quê alguém vai querer uma mesa e quatro cadeiras roubadas? Jogar truco? Fundar uma república? Para chamar a Morte para uma partidinha de xadrez? Ir pra Porto Alegre ler poesia? Assim, fica bem simples ostrentar os dragõezinhos.

Seguimos, nestas paragens pantanosas. De pouca certeza e muita lama. A gente vai levando.

*   *   *
Palavras que cruzaram meu caminho em Floripa:
– Bater (v). Bateu? 1. Agredir, espancar. 2. Gozar efeito de substância psicotrópica. 3. Sentir nervosismo antes duma leitura ou entrada no palco.
– Brilhar (v.), Brilha, Fred!. 1. Reluzir, refletir luz. 2. Ato ou efeito de lidar bem com determinada situação, resolver alguma tarefa difícil.
– Estrumbar (v.). Estrumbou o bagageiro. Fulano está estrumbado. Esgarçar, destruir.
– Manobrista (s). Os manobristas estão chegando. 1. Profissional que estaciona automóveis em estacionamento ou logradouro. 2. Pessoa palpiteira. Se diz especializa em algum ofício que não conhece bem.
– Ostrentação (s). Significa ostentação. Nasce da tentativa de misturar a palavra ostra a qualquer outra, sem muita razão a não ser o trocadilho com a iguaria conhecida de Florianópolis.

 

(sem itálicos, negritos e melhores correções, pois posto do celularzinho e da BR 101, rumo Porto Alegre)

Floripa, dia um

imageA foto é esta. Da Jeanne. A chegada de madrugada não permitiu parar e fazer outra. Estamos agora separados em três pequenos grupinhos.  Assim, cabemos melhor no sofá, no colchão, na cama emprestada. Acolhidos com bolo, crepe de chocolate.

Escrevo de um sofá quadriculado com uma manta com inscrições em japonês, estaria escrito amor?, paz? Descobri que tem uma armadilha no sofá. É muito bom dormir com  o pé pra cima, encostado no encosto de braço. Mas daí o pé também dorme. E se vc levanta rápido, fica formigando. Quase caí assim. Um perigo dormir bem.

A Jeanne fez a faculdade de jornalismo aqui. Se ela não estivesse dormindo agora, ia perguntar mais. Bom, depois ela mesmo escreveve.

Hoje temos nossa primeira leitura! Na Cervejaria Sambaqui, no Santa Monica. Até saímos no Diário Catarinense: http://diariocatarinense.clicrbs.com.br/sc/variedades/noticia/2015/07/escritores-na-estrada-faz-dois-eventos-literarios-nesta-semana-em-florianopolis-4804927.html

Temos o plano de almoçar juntos. Como estou bem desperta, farei algo que adoro fazer quando viajo, perambular sozinha por lugares que ainda não conheço.

E repararou que estou postando do celular? Superpoderes tão evoluindo aqui.

a mala

IMG_3090Virginiana com todos em planetas em virgem faz uma mala que é uma beleza! Não precisa de lista. Acorda na madrugada, horas antes de partir, e faz a mala com precisão. Da mala é a própria. Não esquece condicionador. Nem cadeado. Nem batom. Muito menos toalha, própolis, havaiana, meia.

Mas empaco sempre no “qual livro vou levar comigo”?

Claro, tem o kindle. Que são muitos livros. Mas ainda sou salamandra desses tempos anfíbios, nem cá, nem lá. Tenho repentes. Às vezes, me faz a falta terrível o papel. A presença. Em muitas viagens, levei um capa dura, nada prático, o Teoria do drama moderno [1880-1950] do Peter Szondi. Lembro de ter ido pro México. Não me pergunte o motivo. Talvez seja para evitar o drama.

Noutras, compro livros em aeroporto, rodoviária. Dessas edições porcarias que amo, em papel jornal, que se desfazem ao final da leitura. Um que me marcou foi o Norwegian Wood do Murakami que li na Etiópia – bastante pós-moderna a situação “brasileira lê japonês em inglês em Adis”. Ficava xingando o drama barato, mas do livro não largava. Talvez o Szondi já não pudesse me ajudar.

Desta vez, já tenho dois candidatos. O livro do Delmo, Recife, no hay. Pra lembrar que vamos rumo Sul, mas com outros céus em vista. E um outro livro que me chegou de surpresa, um presente na mesa do trabalho. Autografado pelo organizador, Alberto Dines. Um livro sobre o século passado, O mundo insone e outros ensaios, do Stefan Zweig. Pra lembrar que vamos ao futuro, mas com a história nos mordendo os calcanhares.

Fred, não me xinga, que juro que minha bagagem é pouca.

Trago muito contrabandeado aqui por dentro.