Um pequeno exercício de desidentidade

Logo que entrei na Feira Plana, que aconteceu no Museu da Imagem e do Som em São Paulo no último fim de semana, tropecei neste livro, que já tinha ouvido falar na Internet. Eu sinto que alguns livros voam na minha testa como aves de rapina.

Acho interessante que cada livro parece ser um exercício de identidade do autor, e este logo pela capa já te diz: não-eu.

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Bonito pensar em uma identidade que fuça para além.

A capa foi feita por Dulcinéia Catadora, me lembrava algo que eu já tinha visto em algumas plaquetes editadas pela Eloisa Cartonera, uma editora argentina que faz capas em papelão feitas por uma cooperativa. Fiquei bem feliz de ver alguém fazendo isso também no Brasil. E posso ter entendido mal, mas me pareceu que não foi através de nenhuma editora não, foi na unha mesmo. Aliás, outra coisa bem bonita que se vê bastante na Feira Plana.

(Depois que a gente começa a aprender a diagramar, fuçar livros jamais será novamente apenas sobre o conteúdo. E a Feira Plana, especialmente, é um banquete neste sentido.)

Eu conheci o trabalho do Marcelo Ariel pelo Facebook – que pode ser uma mídia bem feliz e interessante se você encontra pessoas que a usam de uma maneira esperta. Fiquei bem contente de tropeçar num livro dele, assim logo de cara, com as fotomontagens surrealistas e as grandes perguntas existenciais que eu já tanto gostava.

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É um livro bastante curto, no qual escuto uns ecos, umas noções duma psicanálise que apenas começo a conhecer, e aqui é como se ela fosse usada como massinha de modelar, como se a gente pegasse a filosofia e martelasse ela numa mesa de até que vire algo que sirva pra quando estivermos na frente do espelho, no meio da madrugada, nas tais das horas que não passam. Um utensílio que possa, ou que tente dar conta (temos preguiça às vezes) das horas em que nos pegamos indefesos nos limites da proteção do nosso eu, que desconfiemos do que haja além, um universo opaco do qual criamos um reverso imaginário, um holograma de nós mesmos para conseguir navegar.

– ou melhor, um inutensílio, como alguém que já não me lembro quem foi descreveu a poesia. E importa a identidade do poeta o tempo todo? Poesia tem dessas, os termos vão circulando e a autoria vai se diluindo na matéria escura da nossa memória, que mistura as lembranças de sonho e de realidade.

Levante a mão aqui quem nunca acordou de madrugada, levantou-se, foi para a janela e sentiu que se:

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