Comam miolos

No sábado estive com a Jeanne Callegari, a Ana Rusche, a Maira Mendes Galvão e o Pedro Tostes num sarau na Escola Estadual Di Cavalcanti. É muito doido ver como a poesia ressoa. A gente “depois de grande”, entre “ásperas”, esquece o que jogou a gente pra poesia pra começo de conversa. Tem um lance que a poesia tem de empurrar para o devaneio que é algo tão subestimado, tão reprimido até, principalmente em idade escolar e no ambiente de uma escola, e que tem uma potência incrível. As poesias falavam sobre esperança e desesperança, ironia, amor no meio do caos, humor, contas pra pagar, ódio, afirmação. A expressão e a identificação transformam, em resumo esse amor que brota como cogumelos entre desconhecidos no fim da tarde.

Entre os livros que eu poderia ter lido, escolhi por um momento o Miolos Frescos, da Jeanne. “Mas não tem nada a ver com a vivência que esses alunos estão tendo”, pensei. Fui pelo estômago, acho que a poesia não é óbvia e pensa melhor pelo corpo.

A Jeanne tem um estilo muito bonito, de passear com uma linguagem muito oral e corriqueira, trançada com outras referências para desenhar paisagens cotidianas – do ameno ao trágico – com um toque preciso, delicado, e sobretudo sem lição de moral. Clara, delicada, precisa, dizendo o essencial, abrindo espaço para não concluir pelos outros – como ela faz mesmo no dia a dia.

A gente brincava entre a gente sobre a nossa vocação para o drama, mas lendo esse livro juro que não achei. Ô Jeanne, quedê?
Juro que depois de escolher o poema dela no sarau, fiquei com vergonha de ter lido Vinícius de Morais antes, cheio de o-mundo-é-só-treva-mas-a-gente-tem-que-acreditar.

E agora, pra contar do Miolos Frescos, onde foi que botei os meus?… (achei!)

Li este, intuindo que liderar um movimento estudantil no meio de tanta dúvida deve ser bem difícil: (Clique na foto para ampliar)
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Depois ela leu seu poema de trabalho, no qual as pessoas lembram do Hannibal Lecter, aquele cara bacana:
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Mas eu lembro vagamente do caso clínico do cara que sofria de plágio incontrolável, cujo analista teve o saco-de-ouro de cavacar em sua obra e descobriu que não havia plágio coisa nenhuma, e após confrontá-lo, o paciente – bichinho deliciosamente criativo – escorrega num ato falho aparentemente aleatório, banal, “miolos frescos”, desejo sob disfarce estético, poesia mesmo.

Jeanne – beijo.

Ela deixou um barquinho igual à minha tatuagem no meu exemplar do livro, não é pra morrer de fofura?
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