Lembrar é uma arte

Ars memoriae. Li esses dias num texto dum cara chamado Paul Ricoeur. Talvez o nome não soe para alguns, talvez soe muito. De minha parte, havia feito a promessa, muito tempo atrás, de nunca saber nada sobre ele. E vinha cumprindo essa promessa a contento, até que ontem fui obrigado a destituir a promessa. Num grupo de estudos de que participo, trouxeram esse texto para estudarmos. Um capítulo de um livro chamado A memória, a história, o esquecimento.

E eu lembrava da promessa. Foi em 2007, exatamente. Haveria uma palestra sobre o filósofo, mas um amigo disse: vamos beber. Então nos fizemos a promessa de que jamais viríamos a saber nada sobre Paul Ricoeur. E vínhamos cumprindo, ora. Pelo menos eu. Recontei a história, como faço aqui. Uma amiga, parceira nessa promessa, está nesse mesmo grupo de estudos. E ela me lembrou que o motivo era exatamente esse. Queríamos beber. Recalcamos, portanto, Ricoeur, para beber. Anos mais tarde, percebi que em cima da estante tinha uma cachaça, de maneira que pudemos, como um sintoma que se forma, fazer coexistirem a tarefa de estudar Paul Ricoeur e beber cachaça. Foi maravilhoso. O texto é excepcional, do pouco que acompanhei ― não tanto pela cachaça, mas pela quantidade de assonâncias que esse texto ecoava ―, vale a pena. Talvez não tivesse valido naquela época, mas valeu.

E lembro também de outra coisa: um dia eu decidi que a grande tarefa do ser humano era decidir o que deve ser lembrado e o que deve ser esquecido: não se pode lembrar de tudo, mas é preciso lembrar de muito. Eu lembro exatamente o momento em que fui até o quarto de minha mãe, aquela profusão de livros sobre a cama, como ficavam durante o dia, e disse, olha, isso de filosofia é muito bonito, e a literatura, mas a minha tarefa, realmente, é aprender a lembrar do que deve ser lembrado e esquecer o que deve ser esquecido. Então eu não fazia ideia do quanto isso vinculava-se ao que seria meu trabalho cotidiano, anos depois, a psicanálise. Mas eu lembrei disso tudo.

E meu amigo de cachaças muitas, mas não de promessa, sendo quem me introduziu Paul Ricoeur, afinal, conta que numa passagem do texto a experiência dos medievais escolásticos com a memória, com a ars memoriae, é relatada cuidadosamente ― ou então foi o cuidado dele em nos expor algo que, de outra forma, dificilmente saberíamos, qual seja, que os mosteiros possuem o formato que conhecemos, com um recuo quadrado ou retangular em torno de um pátio, para que os monges pudessem andar enquanto faziam seus exercícios de memorização. Do mesmo modo como eu me lembro vivamente de entrar no quarto de minha mãe, quanto anunciava meu projeto, como me lembro de ter prometido, à saída da casa do Contraponto, na rua Medeiros de Albuquerque, onde estudávamos psicanálise naquela época, beber ao invés de saber, ou beber à saúde de Paul Ricoeur, e à minha, ao invés de sobriamente desaprender qualquer coisa, também os monges entravam e saíam, e caminhando memorizavam, como se a memória fosse um palácio que é preciso visitar ― parece que essa metáfora data do tempo de São Tomás de Aquino, que era capaz de memorizar a oposição que três centenas de alunos faziam a uma proposição filosófica que ele houvesse ficado responsável por defender, durante os debates que consistiam o ensino escolástico ― enganam-se os que creem se tratar de alguma forma de decoreba esse tipo de ensino ―, para então respondê-las, uma a uma, as trezentas, na mesma ordem em que haviam sido feitas. Sempre gostei dessa história, não lembro mais de quem a ouvi. Mas já me ouvi contando-a uma porção de vezes.

Ricouer conta outra história, a de um poeta que, tendo sido convocado para fora de uma casa, durante um banquete, acaba salvo do desabamento monumental que soterra todos os convivas. Será que um poeta é detentor de algum poder especial, e por arte dele se salva? Antes, aponta o filósofo, é o que ele faz depois o que importa: pela posição em que cada um se sentava, é capaz de identificar sua presença, ou de seu cadáver, de outro modo destruído ― as ciências forenses estavam nascendo, ou talvez ainda longe de nascer ―, e preservar, de algum modo, a existência daquele ser que já não era mais, porém, vivente.

Eu não tenho esses poderes de memória, e me tornei muito mais proficiente em esquecer que em lembrar, realizando, provavelmente, apenas a metade do meu projeto antigo. Considerando, pelo menos, que não o esqueci, ainda é tempo de recuperar sua existência.

E se digo essas coisas, é tanto por um projeto pessoal, como por achar que este é um projeto urgente. Por isso viajamos, creio eu. Viajar, para nós, é nossa maneira de visitar aquele palácio da memória. Não conhecemos outra forma.

E mais do que nunca é preciso lembrar, depois da catástrofe, o assento que tomavam aqueles que sob ela sucumbiram, para que, soterrados, abatidos, embora interrompido o curso de suas vidas, não deixe de correr até nós sua promessa.

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