A função ecológica do poeta

Em um mundo com excesso de informação e de palavras, o ideal seria o silêncio. Há algum tempo vendo querendo escrever sobre isso, tema de uma parte da conversa com outros escritores, em Curitiba. Foi a partir da observação do poeta Ismar Tirelli Neto, carioca, recém-chegado à capital paranaense: coisas demais são ditas o tempo todo, escritas, publicadas. O ideal seria não escrever. Mas algumas coisas pedem para ser colocadas na página, no mundo. Ismar diz que, em vez de perseguir o poema, a fagulha da ideia (não me recordo das palavras exatas, mas era algo nesse sentido), tem deixado que o poema o persiga. Ao contrário de anotar para não esquecer, deixa que o poema se vá, e se ele persiste, por dias, só então toma nota. Escreve apenas o que resiste a essa passagem, o que pede, insistente, para ser escrito.

O poeta Reuben da Cunha Rocha, o CavaloDADA, escreveu certa vez em seu Facebook: a principal função ecológica do poeta é não desperdiçar papel. Aquilo me pegou, forte. Anotei para não esquecer. Porque acredito nisso: é preciso cuidado para não adicionar ruído ao mundo. Não ser vão. Se é preciso escrever, seja lá porque razões cada um se dedica a isso, é bom que aquilo que se escreve precise mesmo ser dito, não apenas por razões emocionais (acho que as piores de todas), mas estéticas mesmo, seja lá o que for essa jabuticaba. Ideal mesmo seria o silêncio, mas na impossibilidade desse, ficar com o que resiste, o que se destaca do ruído geral.

É aí que existe, também, um conflito: como escritora e feminista, sei que uma das razões para a disparidade de gênero reside na insegurança de muitas mulheres em publicar seus textos, em mostrá-los. Resistem a chamar a si mesmas de “escritoras”. Ficam na gaveta. Muito por causa delas, a Ana Rüsche criou a oficina para destravar gavetas. Que é pra desbloquear, gerar coragem. Colocar-se no mundo. Para muitas mulheres, o silêncio é a única opção, ainda que algumas coisas peçam para ser ditas. Eis meu dilema: equilibrar o incentivo a colocar-se no mundo apesar de todas as dúvidas com minha crença, própria, na responsabilidade pela palavra dita (o que talvez a gente possa chamar critério, o qual será sempre pessoal e passível de discordância, claro). No tempo, no preparo, na espera, na não-ansiedade em publicar. Aponto isso na conversa em Curitiba: Ismar lembra que não há resposta, é sobre esse terreno movediço que caminhamos. Oscilando entre dizer e não dizer, a balança pendendo cada hora para um lado.

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Se para a poesia seria ideal o silêncio, na vida é o contrário: muito pouco, quase nada, é de fato necessário. Comer, dormir. Talvez um teto, segurança. Saímos disso e vamos para o que não é, de fato, primordial. O dilema existencial prevalece: não há sentido dado, não há essência, o propósito será unicamente o que pudermos dar. E aí o melhor é conseguir ir além do básico, da sobrevivência em si, e conseguir injetar significado nos pequenos atos cotidianos. Nas relações. Sendo a vida um grande rascunho que não será passado a limpo até a morte – talvez nem mesmo então –, vale mais conseguir aproveitar, gozar, os caminhos. Não existem momentos vãos, a não ser pelo contexto que prega produtividade a qualquer custo. 

Algumas pessoas não conseguem, porém, aproveitar esses caminhos. Com algum defeito de recepção, são incapazes de gerar sentido nos atos miúdos da vida, nesse rascunho. O único sentido que conseguem dar é pelo que escrevem (é aí que tentam, algumas, desafiar a morte; outras, um pouco mais espertas, contentam-se com aprender a morrer).

Para essas pessoas, só resta orar às musas para que aquilo que escrevem valha a tinta e o papel em que foi impresso. E assim suas vidas não sejam, totalmente, desprovidas de sentido.