Querer escutar

Ante a necessidade premente, descobrem-se o muito e o pouco que podemos. Que necessidade? Por ora, a de escrever.

Faz uma semana que voltamos do Rio. Todas as pendências se acumularam. Para nós, que trabalhamos 7 dias por semana, ausentar-se por 2 dias é muito. Some-se a isso que adoeci: na semana antes da viagem e, na volta, uma melhora apenas aparente. Faço o relatório de uma viagem, que ora se prende aos seus extremos: a casa. Porque viajar é tremendo.

Achávamo-nos em casa de Dodô, bêbados, cansados por um dos dias mais longos do ano, era sábado. Eu estava sentado numas almofadas, Raphael Vidal à minha esquerda, depois a Renata. Dodô estava trepado num móvel. Os outros, mais distantes, se espalhavam nos sofás, numa rede, nas almofadas. Volta e meia um levantava até a máquina de pinball, com medo de nunca ter outra oportunidade. Dodô explicou que só tem duas pessoas que consertam essas máquinas no Brasil, que você tem que esperar meses por uma visita e pagar a viagem do cara, além do conserto. Mas parece que vale a pena, aquela máquina reluzindo na sala com as vozes e sons do Império Contra-ataca é impagável. Em um quarto recuado ficava a máquina mais especial: Indiana Jones.

Eu prestava atenção, mas não conseguia falar. Lindos os cartazes dos filmes do Dodô Azevedo, altos na parede, em japonês, ele contando que não tiveram exibição aqui. Depois descambaram para uma discussão bizantina sobre a proximidade entre Robert Altman e Hitchcock, ou quaisquer outros diretores que não me acendiam nenhuma luz. Mas então eu já tinha desistido de acompanhar, e me equilibrava na rede semi-rasgada, tentando dormir, ou ficar acordado. Ainda estávamos no clímax da conversa.

Antes disso, eu chegara ansioso por saber mais da Mariá, que por cansaço ou discrição, também não falou muito sobre a própria escrita, apenas insistiu que precisava chegar cedo para escrever, em breve teria que buscar o filho, lá se iam as chances de trabalhar. Pelo mesmo cansaço, foi embora antes que eu chegasse. Fiquei com as breves impressões da carona até o Flamengo e do encontro na Casa Porto, onde o Vidal tinha tocado o show, isto é, o show em que nós éramos, em tese, os artistas. Em tese, porque muitos foram os encontros lá. Além do próprio Vidal, que conhecíamos da FLAP, e dos fofos Mariá e Dodô, dupla dinâmica, Thiago Ponce, que fez rápida aparição e uma leitura ainda mais rápida de Todesfuge, do Paul Celan, Francesca Cricelli, amiga linda de São Paulo que pôde ir e aproveitou para nos anunciar o lançamento de seu livro de estreia, Repátria, que foi ontem, Mariano Mantovani, que me mostrou seu livro e me arrancou elogios de bêbabo antes que eu estivesse bêbado, e ainda tantos outros, reunidos ali em nome desse encontro tão inusitado ― para nós. Estávamos num lugar não muito frequentado pelos cariocas, o Largo de São Francisco da Prainha, e no entanto estávamos na companhia de uma fraternidade incomparável.

Tento equacionar isso. É verdade que, aqui, temos a Casa das Rosas, a Biblioteca Alceu Amoroso Lima, a Mário de Andrade… ainda assim, aquilo tinha um gosto particular… ou é porque estávamos nós num lugar distante, onde encarávamos cada detalhe do lugar como único, no tempo, no espaço? Mas estou certo que não éramos os únicos a nos sentir assim.

Tínhamos chegado direto do almoço, depois da nossa oficina da manhã. A oficina foi em petit comité, consta que, se faz sol, carioca não comparece. Há de ser, porque tínhamos quinze inscritos, mas somente dois apareceram. Assim é: sol de verão em pleno inverno. Antes da oficina, dormimos pouco mais de quatro horas, porque saímos à noite de São Paulo ― trabalhamos sete dias por semana, e várias noites também. Estava acabado.

Além disso, chegando ao Flamengo, fiz um desvio, porque queria encontrar outra querida escritora, Diana de Hollanda, que carregava seu O homem dos patos com um autógrafo para mim, datado de fevereiro de 2014. Ela conversava com um garoto, um garoto, mesmo, que aparentemente está fazendo um certo sucesso com seus contos. Atendia pelo nome de Sperling (já que a Diana ficou incomodada de haver dois rafaeis no mesmo ambiente). E ela perguntava: o que vc acha do seu primeiro livro, vale a pena? Ele, muito humilde, explicou que gostava bastante de alguns dos contos, mas que também o livro novo tinha alguns dos contos do primeiro que os editores temeram em publicar. Pensei na História do olho, do Bataille, que eu tinha comprado de um cara que montou um sebo ali na Casa Porto. Esse livro estava me perseguindo, Dirceu Villa tinha me falado dele pra mim três semanas antes, depois encontrei um exemplar no sebo da Arte & Letra, em Curitiba, então resolvi que tinha que levar. E, terminado o livro, causa-me a impressão que me causava a descrição sumária que faziam meus dois companheiros dos contos do Sperling. No fim, disse a Diana que não poderia lhe entregar meu próprio livro porque, embora tenha ido para lá com esse intuito, fizera uma confusão e esquecera todos os exemplares na van Poesia, com o pessoal… Assim sendo, teria que enviá-lo por alguém, ou por correio. Ela despediu-se de mim com um tapa e um abraço.

Então eu me achava no sofá, incapaz de articular palavra, tentando fazer algo daquela viagem toda, juntar as palavras de toda a poesia que tínhamos ouvido desde cedo. Descobrira também muitas coisas que não sabia sobre a Renata, é tão incrível quando vamos ao lugar onde a pessoa cresceu, de repente a gente se dá conta: a pessoa não é só aquela pessoa que está diante de nós, que vemos e admiramos, ela é também uma porção de outras coisas, admiráveis, também, embora tão distantes. Que pensava eu, disso tudo?

Eu pensava precisamente o seguinte: que não podemos absolutamente confiar em nossos olhos e ouvidos; tudo que vemos é apenas a ponta de um iceberg, há muito mais coisas acontecendo do que alcança a nossa vista. O horizonte está mais adiante. E entre saber o que há lá, e não saber, está toda a diferença.

Tem muita gente que pensava, antes que eu começasse a refutar isso explicitamente, que eu falava alemão, porque sei pronunciar as palavras escritas, e sei ler umas poucas. A pessoa completa o que ela não sabe com aquilo que ela sabe, porque ela está ciente de sua ignorância. Mas, aquilo que não sabemos, não é igual ao que sabemos. É diferente.

E ali, no Rio, tinha a nítida impressão de que as pessoas procuravam saber, procuravam saber muito, porque desconfiavam disso; que fora do que sabiam havia alguma coisa importante acontecendo. Por isso as pessoas iam para os lugares. Quando não iam à praia, claro. O blasé e o curioso se misturam. Mas não se confundem. E isso faz toda a diferença. As coisas, de repente, tinham uma importância. Por causa disso, as pessoas se moviam, conversavam, se abraçavam.

Na porta, ainda sonolento, depois de beijar Dodô na face, ouvi ele insistir, antes de irmos embora: Então até logo!

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