Notas sobre Encarnações

Às vezes tenho a sensação de ter vivido em diversas encarnações dentro de uma vida só.

Olhando para trás vejo longos períodos que se desenvolveram como cápsulas independentes, que funcionaram como ciclos que nasceram e findaram: Renata produtora musical, militante do PC do B, moradora da Avenida Rebouças.  E também existem as encarnações paralelas, que coexistem: Renata escritora, feminista, mãe da Liz.

Encarnação é uma palavra bonita – ela tem o vermelho, encarnado, tem a espiritualidade e tem o colocar na carne, estar na carne, que é o estar presente com o corpo em algum momento ou situação. Gosto especialmente desse sentido carnal, carnudo e terreno. Sou alguém plantada com os pés bem no chão, afinal, eu sou meu antropocentrismo odara-selvagem.

Estou encarnada na viagem, incorporada, amalgamada com a transitoriedade da nossa proposta. Estou diluída entre malas, acostamentos, banheiros de posto de gasolina, escritores e pessoas que jamais verei novamente e que já estão coladas em mim de alguma maneira.

A viagem possui o poder mágico de unir todas as nossas encarnações em uma só. Em movimento se pode ser tudo ao mesmo tempo, o passado e o inventado. A estrada aceita. A estrada permite. A estrada é.

::

Leitura dos Escritores na Estrada na Mondo Cane.
Leitura dos Escritores na Estrada na Mondo Cane.

Chegamos em PoA diretamente para a Mondo Cane, onde lemos trechos dos nossos livros. Daud leu um conto inédito, Jeanne leu três poesias do Miolos frescos, Ana leu poemas do rasgada, Tarsila leu Navios e foguetes. Nosso convidado Gustavo Czekster leu um conto maravilhoso feito especialmente para nossa passagem em Porto Alegre: regras para se comportar em saraus. Vamos publicá-lo aqui no blog em breve. José Francisco Botelho estava presente e sua esposa, a linda Laura Ferrazza leu um trecho de a Árvore que falava aramaico. Eu li Esquisita, do livro Vaca e outras moças de família, um conto sobre um momento contratual da adolescência – uma festa de quinze anos – e encarnei a adolescente que estava em mim e desenvolvi um amor platônico por um rapazinho que estava por lá. Como todo bom amor platônico, nada acontece feijoada.

::

Jeanne entrando na galeria hipotética.
Jeanne entrando na galeria hipotética.

Ontem estivemos na Galeria Hipotética lançando nossos livros. Foi uma noite agradabilíssima, a curadoria do Fabiano é primorosa. Estávamos cercados dessa energia artística, ouvindo música legal selecionada pelo Renato, irmão do Fabiano, moço muito simpático, proto-produtor de 18 anos, muito divertido. Bebíamos cerveja Perro Libre e encarnamos muito no Renato. Encarnar no sentindo de tirar sarro, zoar, pentelhar. Mesmo novinho, Renato foi um lord e mandou muito bem ajudando na organização.

::

Nossa anfitriã, Cris Ely.
Nossa anfitriã, Cris Ely.

Uma das minhas encarnações é de militante do movimento estudantil, onde conheci a gaúcha de Novo Hamburgo Cris Ely. Ela nos recebeu em sua casa, emprestou a sua cama, nos fez cafés da manhã épicos. Uma encarnação vaza para outra promovendo uma grande festa de renascimento. Obrigada Cris!

::

IMG_2702 IMG_2703 IMG_2705 IMG_2711 IMG_2713 IMG_2714

Ontem eu fui fazer uma tatuagem. A minha quarta. Tarsila, Ana Rüsche e Gonzalo Cuellar se empolgaram e fizeram suas primeiras tatuagens também. Fomos acolhidos pela galera da Heráclito Tatoo, na Cidade Baixa, e fomos todos tatuados pela Stephanie. Ficamos usando o wifi para trabalhar, tomando café e chocolate grátis e batendo papo sobre a vida com gente gata e tatuada. Encarnar, no sentido de colocar na carne. A viagem está marcada na nossa pele agora.

::

A Van Poesia segue para Curitiba. Nos vemos no caminho!

Deu Curto Circuito Criativo em Floripa!

Nós já tínhamos feito essa oficina em São Paulo, n’ oGangorra, e já tinha sido incrível, e eu já tinha passado a madrugada fritando no fogo das ideias depois dela. Por isso achei que estaria imune a esta que fizemos na Biblioteca do Sesc Prainha, afinal é uma oficina do nosso próprio projeto, e dessa vez nem participei muito, fiquei mais na coordenação, já que tínhamos 32 participantes, muito mais do que os 20 esperados.

Claro que eu não estava imune. Claro que fritei a madrugada inteira.

A Ana começou com a sua oficina sobre travamentos literários. Nessa eu participei, levantando qual era o meu principal motivo pra eu não escrever. Sempre surgem novos motivos, mas sempre são os mesmos. “Não estar à altura” foi o meu (afinal, viajando com essa trupe de superheróis…), junto com vários outros que levantaram temas como “maturidade”, “outro”, sempre esse padrão de qualidade do além que frequentemente me parece ser mesmo o medo que nós temos do nosso próprio texto.

Em algum momento dessa oficina, o Rafael Daud, psicanalista, me cochichou parafraseando Lacan: “quer dizer então que o escritor só se autoriza de si mesmo?”.

Algum participante pegou uma dessas palavras e sugeriu outra como solução: “Foda-se”. Adoro quando os palavrões emergem logo no começo. Acho que significa que as pessoas estão dentro da oficina mesmo.

A Renata apresentou a trajetória do heroi. Essa oficina eu ainda não tinha visto. Mas finalmente entendi por que é que ficar sem gasolina na estrada era o nosso teste de aliados e inimigos (narrativa besta a nossa em que todos saem mais unidos ainda rs). Foi muito bom eu, que sou nada cinéfila e frustrada por isso, de repente lembrar de tantos filmes a cada etapa que ela passava. “ahn, essa é a hora que o gandalf cai no penhasco!”. Nada melhor pra gostar de um jogo quando alguém te dá umas dicas de como jogá-lo.

Fiquei com uma dúvida que não perguntei por falta de tempo: Renata, aquele filme “Antes da Chuva” é que tipo de estrutura narrativa?

Depois vim eu (Olá, eu sou a Tarsila, pra quem não leu a tag lá em cima do post). Ah, que dificil falar sobre o nosso próprio trabalho. Gosto de pensar na minha oficina como a parte de tirar os sapatos e fazer todo mundo ser criança (não fiz ninguém tirar o sapato porque estava frio rs). Que escrever não precisa ser sobre esforço, sofrimento, fritação na frente duma tela. Se for (às vezes é!), que seja por prazer e vontade própria. Que escrever não significa decorar um cânone e superá-lo, mas sim encontrar vozes, lugares, caminhos de sentido dentro de nossa própria caixinha de segredos – o nosso corpo. E porque não, a nossa alma. E porque não, não separar um do outro.

Daí a Jeanne, falando sobre mulheres e poesia. A parte em que ela fala sobre o retrato da representação feminina no cenário artístico e literário acho tão difícil de lidar, ela fala alguns números horrorosos que eu nunca lembro. Não pode ser sério. Não Pode. Me lembrou o trabalho das Guerrilla Girls, um coletivo artístico que questiona como a mulher é tratada no mercado de arte. Acabei de entrar no site delas e topei com a frase irônica sobre as vantagens de ser mulher no mundo da arte: “Poder escapar do mundo da arte em um de seus 4 freelas”. Nossa, nem nos identificamos, não é mesmo?

Depois a leitura das poesias. Tem uma da Pagu que a Jeanne usa para falar de imagens: é a poeta-personagem como ave pregada na parede. Tão difícil. Tão difícil essa imagem, porque não fala só da poeta que escrevia sob pseudônimos e cuja poesia demorou a vir à luz. Mas também a imagem da mulher assassinada em seu desejo. Nem nos identificamos, às vezes, não é?

E a oficina do Daud, da qual já nem falo nada.  Ele vai só, passo a passo, levando a gente pra onde mora o texto. Aquele lugar que a gente não quer ver, que lá no começo, na oficina da Ana, a gente chamou de tantos nomes: O outro, a falta de tempo, a preguiça, a falta de maturidade, a falta de coragem. E o Daud vai lá e mostra: olha aqui onde estava o seu texto, tão perto de você o tempo todo.

A cara que as pessoas fazem durante os exercícios é impagável. Eu e a Ana até demos gritinhos quando fizemos a oficina pela primeira vez. “Vamos matar o Daud!”, prometemos. De abraço, né, só se for.

Passei a madrugada pensando sobre porque dessa vez não me veio nada na cabeça quando ele fez os exercícios. Eu entendi: porque eu já tinha visto a oficina, e tinha tratado de esconder a morada do meu texto um pouco mais para baixo, para não sentir. Mas ela estava lá, radiante como a lua cheia, pedindo para ser reescrita.

Acho que as pessoas gostaram, a julgar por esta foto.

curto circuito floripa
Foto de Gonzalo Cuéllar

Em Curitiba tem mais!

  • Dia 25/07, das 14h às 16h, Curto Circuito Criativo no espaço Das Nuvens -R. Cândido Lopes, 68, Centro.  Serão 20 vagas, inscrições gratuitas antes do evento.

 

Meu texto de ontem

photo_2015-07-23_14-07-52

Quem é você? Você que estava tão contente porque tocavam Thelonius Monk no exato momento em que você entrou no bar, e naquele exato momento se esqueceram de que tinham botado Thelonius Monk pra tocar e deixaram o mesmo disco do Monk tocando por mais quarenta minutos, tempo suficiente pra que você se sentisse em casa naquele bar, descobrisse o espírito mais apropriado que se bebe naquele bar, até que, por um golpe de sorte, no meio de uma música dos The Doors, que começou a tocar depois, a música parasse, e não foi antes de começar a conversar com alguém, alguém que começou a puxar conversa com você porque, talvez, tinha gostado dos seus cabelos castanhos, dos seus olhos escuros, da sua silhueta magra e oferecida ― sem saberem por quê ― foi que você ficou sabendo que se tratava de um mau-funcionamento elétrico, causado talvez pela umidade ou por uma franca infiltração, o que dificilmente poderia ser evitado, ainda que tivessem previsto a quantidade de água que desabaria dos céus, coisa que você não viu, não chegou a ver, embora pudesse bem imaginar, vindo de São Paulo como vinha, de maneira que pôde oferecer de imediato sua simpatia, sua consternação, no entanto sem perceber que a tragédia real não havia ainda acontecido, não teria em todo caso de imediato sido causada pelas chuvas, nem sequer pelos alagamentos e nem, para manter o raciocínio puro, pelos desabamentos causados pela chuva, ainda esperando, a real tragédia, esperando o concurso de alguns outros fatores para acontecer, e que você, tendo chegado tardiamente para acompanhar o início do fatos, chegou cedo o bastante para ser tomada pela tragédia, ser tragada pela espiral dos acontecimentos que, sem direta relação com aquela desgraça comum, acabaria culminando naquilo que você, mais tarde, teria que chamar uma tragédia.

Por que motivo, senão, essa pessoa havia se aproximado de você, olhando por cima, como se contasse com você levantar os olhos para ele, por que razão, portanto, dirigia a palavra a você dessa forma, exigindo que você levantasse os olhos para si como se não pudesse de outra forma prosseguir a conversa, o que de toda forma seria verdade, já que é muito desagradável conversar como se fosse com os pés da pessoa, ou com seu umbigo, dessa forma fazendo com que você se obrigasse a levantar os olhos para essa pessoa para evitar um desconforto maior, que poderia ser seu, mas que acabaria inevitavelmente sendo dele também, ao ver que você se recusa, por falta de à vontade ou por excesso de vontade própria, a obedecer-lhe o intento insistente, que mantém com aqueles olhos, de resto bonitos, mas que olham de cima, condescendentes, desinteressados na medida mesma de seu interesse, distraídos na medida mesma de sua atenção, não como os olhos de quem cumpre um dever com desgosto, o de conversar com essa forasteira, essa recém-chegada, com sua magra silhueta, mas como os olhos de quem espera o cumprimento de um dever, pacificamente, pacientemente, quieto, embora ele não esteja quieto, fale sem parar, pareça não poder ficar quieto nem por um segundo, a ponto mesmo de me fazer esquecer: o que mesmo ele queria de mim? Porque mesmo começou a conversar comigo, minha silhueta magra, meu batom borrado?

Levantei minha mão, num gesto brusco, como que para introduzir a pergunta: por quê? Mas o gesto pareceu exagerado, muito brusco, e afinal, como se antecipava à pergunta que o justificaria, e que demorou a se esboçar, pareceu também completamente inútil, e por isso desajeitado. Tentei pousar novamente a mão sobre a perna, recobrar a graça, a postura, o sentido, mas era tarde. Ao descer de encontro à minha coxa, minha mão encontrou a dele, inesperada, indesejada, incongruente. Dessa forma, já não pude recuperar a graça, nem o sentido. Ele se levantou e fez um gesto para que eu o acompanhasse. Eu o acompanhei.

Conforme percorríamos o curto espaço entre as mesas em direção ao banheiro, você não pode abandonar esse curto pensamento: se o acompanho, estou sem graça, mas se fico, também. Agora, já estou de pé, é preciso caminhar. Não olhar atrás, cabeça erguida, erguer os olhos. Ele abriu a porta do banheiro e eu entrei, sem hesitar. Tropeço no pé dele, que havia parado para ver se eu o seguia. Eu já não o seguia, eu o empurrava para dentro do banheiro, antes que alguém nos visse.

Tranquei a porta. Ele pôs as mãos no bolso como se tivesse algo a anunciar, e que fosse coisa séria. E começou novamente a falar, mas eu já não estava mais ouvindo. Não ouvia mais. Porque me dei conta, naquele momento, de que não era ele falando, senão eu mesma, que o que quer que eu quisesse que ele fosse dizer, é o que ele diria, e se eu quisesse que se calasse, ele se calaria. Não porque quisesse alguma coisa de mim, mas precisamente porque não queria nada. Não queria nada comigo, nada de mim, mas nada de si mesmo, também. Se eu tirasse o baseado que tinha no bolso e desse a ele, ele sairia contente, como bem-sucedido, e era tudo o que queria. Não o baseado, mas a saída triunfante. Era só disso que precisava, naquele momento. Por isso ainda falava. Por isso eu já não mais escutava.

Andei até a cabine. Não vomitei. Não joguei o baseado fora. Ele esperava. Sentei-me, abaixei a calcinha. Mijei. Mijei como se mijasse por um mês inteiro. E ao me levantar, de frente para o espelho, não pude deixar de perceber que a silhueta que eu via, aquela silhueta continuaria a ficar, pouco a pouco, sorrateiramente, silenciosamente, cada vez mais magra, até um dia, talvez, desaparecer. E eu já não estaria ali para impedir.

E no Sesc Prainha…

Foi muito lindo o nosso Curto Circuito Literário. Ana falou sobre travamentos, eu sobre trajetória do herói, Tarsila mexeu com o corpo da galera, Jeanne mandou super bem com o Leia Mulheres e Daud colocou o inconsciente dos participantes para trabalhar.

Foi muito bonito mesmo. A oficina lotou, foram mais de 30 inscritos, teve gente que não conseguiu entrar. O público era super diverso, ficamos impressionados como a literatura pode se constituir em um lugar de encontro e a materialização de uma utopia. Eram senhoras, jovenzinhas de cabelo azul e cor de rosa, adolescentes, acadêmicos, brasileiros, estrangeiros, homens, mulheres de Florianópolis que enfrentaram a noite fria e deram um salto corajoso para suas próprias interioridades. Estamos completamente encantados!

Obrigada ao Sesc Prainha por oferecer o espaço da biblioteca para que a oficina pudesse ser livre e gratuita.

Algumas fotinhas para vocês verem como foi! :-)

11403435_850576048351868_5046840776613189664_n 11750726_850576135018526_7629307191023799003_n 11751778_850575961685210_154602250697015502_n 11214067_850576188351854_5916994233249546406_n 11755185_850576145018525_1001708066573254031_n 11745952_850576148351858_3746120356673717618_n

A person from Porlock

A bateria está acabando. Não temos muito tempo até Porto Alegre e ainda a maior parte de nós não tem onde dormir. Não temos reservas em hotéis, menos ainda dinheiro para isso. Temos uma leitura marcada num lugar chamado Mondo Cane. Parece que é famoso. Eu não saberia, tudo o que sei sobre Porto Alegre é que possui alguns grandes escritores, de quem quase sempre nada li, entre os quais o nome Erico Verissimo me é especialmente caro. Sinto-me deslocado, entrando em um mundo que não é o meu. Rio Grande do Sul me soa como outro país, como alguns gaúchos, segundo consta, queriam. Penso no Cidadão Kane, talvez por mais de um único motivo, que não saberia precisar. Xanadu. Gostaria, por um momento, de ser um escritor romântico inglês. Não Byron, claro, mais especificamente Coleridge. Vocês sabem, não? Aquele que não terminou de escrever o poema porque uma pessoa de Porlock veio perturbá-lo? Veio arrancá-lo de seus devaneios? E quando, demitido o intruso, tentou voltar ao poema, já não sabia como terminá-lo? Eu gostaria de ser Coleridge. Sinto-me a pessoa de Porlock. Temo terminar a viagem como Keats. Exagero, claro. Talvez já esteja me aproximando deles.

Gostaria de escrever algo para a leitura. Não quero ler algo que já está escrito. Porque não é o local, não é. O problema é: não sei que lugar é esse, para quem vou escrever. Acabo de receber notícias da minha oficina, da oficina em geral, mas da minha especificamente. Parece que mexeu com algumas pessoas. Isso foi bonito saber. Mas eu gostaria que eu pudesse realmente me conectar com essas pessoas. Mas pra isso é preciso superar minhas próprias limitações, meus preconceitos, vários. Vencer a preguiça, a vontade de voltar pra casa, cada vez mais insistente. Tenho meu computador, minha segunda casa, tenho meus livros ― dos quais ainda quero lhes falar. Mas não é o bastante. E parece que tenho/não tenho minha escrita. Veja: viemos para construir pontes, mas cada vez que nos embrenhamos mais para o Sul (e em minha vida, Curitiba está mais ao Sul do que tudo, fazendo com que nosso itinerário obedeça a esse entranhamento), mais pareço me enfurnar dentro de mim mesmo, cético e refratário a tudo que vem de fora. E sou eu o que vem de fora. Eu sou a pessoa de Porlock.

Procuro uma saída, e ela está aí, logo aí. Mas não sei onde procurá-la. Aquilo que eu tinha por guia deixou de valer. A maldade? Não, não se trata disso, porque a maldade só é degradação, e portanto, criação, quando próxima da bondade. E aqui não se vê nada disso, porque estamos no ermo. No ermo, onde não me reconheço, não posso ser reconhecido, portanto não posso contar com a bondade de ninguém. Talvez haja alguma condescendência, mas é só. O que não me resolve nada. A bateria ainda não acabou, mas continuarei no papel. Continuarei no papel o texto que lerei em Rosebud. Continuarei a escrever no papel alguma coisa que me sirva para me levar para longe. Para onde eu deveria estar indo. Para um lugar em que a locução calamidade pública possa ter algum sentido maior que uma imagem repetida e inócua.

dragões e o crime da mesa e quatro cadeiras

image
a descoberta do crime.

A loucura e o desejo são as duas cabeças de dragão que espreitam de dentro do casaco de frio. Mesmo que vc tente disfarçar e esconder as criaturas, elas são bem persistentes e… escapam nas horas mais inconvenientes.

Há dias em que apenas um vermelhinho da crista desponta por um dos ombros. Há noites em que a crista toda emerge, meio estilo rainha Elisabeth, meio estilo mula-sem-cabeça. Brilha, ana erre! Este último estágio é bem, hum, perigoso. Pois é um momento no qual vc mesma se perde ali dentro e tua língua e cabeça são um grande tombadilho estrumbado na tempestade ― depois você pode acordar a la náufrago ou em céu de brigadeiro. Só a sorte sabe a própria.

Ultimamente, esses chamados se acham mais frequentes. Surfar na mudança constante, esse estar na estrada sempre potencializa os arroubos das criaturas. Bateu. Fissura. Na rua, cinco contramãos na sequência, que só te afastam da casa do Upiara em que o Gonza e a Tarsi estão hospedados, duma forma que nem o waze manobrista te tira desta. Na porta da entrada do Mutley, que teima em não ser fechada. Na outra, que tu fecha e ela abre.

O caso é que se tu não pode afastar, então, conviva. Ninguém liga muito se tu ostenta um dragão em cada ombro por aí. Claro, no começo é um pouco chamativo, mas é tipo as ciclovias – uma hora, até o taxista se acostuma.

Ainda mais se há um misterioso crime de segunda-feira no bar da cervejaria Sambaqui. Como conseguiram roubar uma mesa e quatro cadeiras numa noite de chuva, debaixo do nariz de todo mundo? Pra quê alguém vai querer uma mesa e quatro cadeiras roubadas? Jogar truco? Fundar uma república? Para chamar a Morte para uma partidinha de xadrez? Ir pra Porto Alegre ler poesia? Assim, fica bem simples ostrentar os dragõezinhos.

Seguimos, nestas paragens pantanosas. De pouca certeza e muita lama. A gente vai levando.

*   *   *
Palavras que cruzaram meu caminho em Floripa:
– Bater (v). Bateu? 1. Agredir, espancar. 2. Gozar efeito de substância psicotrópica. 3. Sentir nervosismo antes duma leitura ou entrada no palco.
– Brilhar (v.), Brilha, Fred!. 1. Reluzir, refletir luz. 2. Ato ou efeito de lidar bem com determinada situação, resolver alguma tarefa difícil.
– Estrumbar (v.). Estrumbou o bagageiro. Fulano está estrumbado. Esgarçar, destruir.
– Manobrista (s). Os manobristas estão chegando. 1. Profissional que estaciona automóveis em estacionamento ou logradouro. 2. Pessoa palpiteira. Se diz especializa em algum ofício que não conhece bem.
– Ostrentação (s). Significa ostentação. Nasce da tentativa de misturar a palavra ostra a qualquer outra, sem muita razão a não ser o trocadilho com a iguaria conhecida de Florianópolis.

 

(sem itálicos, negritos e melhores correções, pois posto do celularzinho e da BR 101, rumo Porto Alegre)

Surfistas de sofá

E quando sento para fazer as apresentações, já é hora das despedidas.

Na nossa viagem, optamos pela hospedagem solidária: ficar na casa de almas gentis que nos cedessem um cantinho pra dormir e um chuveiro quente por algumas noites, em troca de conversas, cervejas e karma points. Uma das razões era financeira: com sete pessoas no grupo, precisávamos que a viagem ficasse o mais barata possível para conseguir viabilizá-la. Igualmente importante, porém, eram os papos, as cervejas, conhecer os livros e discos e rotinas de outras pessoas. Sair dos territórios conhecidos e ter contato, ainda que brevemente, com outras formas de viver.

E assim foi em Florianópolis. Tivemos tres anfitriões: Rita, Upiara e Mutley.

Rita Paschoalin, nossa anfitriã, e Rê
Rita Paschoalin, nossa anfitriã, e Rê

Rita Paschoalin é escritora. Eu a conheci pela internet, e tive a alegria de ser convidada para fazer o prefácio de seu livro em parceria com a Luciana Nepocumeno, o Contos do Poente. A gente ainda não se conhecia pessoalmente. Desvirtualização de corpos operando: que delícia chegar na casa dela e dar um abraço, ver que ela é mais baixa e ainda mais sorridente do que eu imaginava, conhecer seus filhos incrivelmente fofos e educados, ver Floquinho, o cão. Sua casa tem um piano e fotos das crianças e uma TV grande para videogame na sala. A Rita foi incrivelmente generosa e participou também da nossa leitura na Sambaqui, na segunda. A Renata e o Daud ficaram na casa dela.

Caetano, o gato modelo, e Upiara acordando
Caetano, o gato modelo, e Upiara acordando

Upiara Boschi era meu veterano no curso de Jornalismo da UFSC, diferença de um ano, acho. Um dos melhores textos que rolavam por lá. Upi é inteligente e tímido, escreve sobre política para o Diário Catarinense e tem um gato laranja chamado Caetano, que gosta de ficar dentro do armário. O Upi até fez uma caminha para ele lá. Fazia alguns anos que eu não encontrava o Upi pessoalmente, e aí foi muito bacana reve-lo, tomar umas com ele e comentar a quantas anda tudo. No dia da leitura, o Upi chegou um pouco atrasado porque estava entrevistando o prefeito. Colocou um blazer e tudo. A Tarsila e o Gonza ficaram hospedados no apartamento dele.

mutley
Mutley e crepe de chocolate!

E aí tem o Mutley. Diz que o nome dele é Fábio Bianchini, mas eu conheço ele como Mutley mesmo. Ou Mumu. Ou Bibikas. O Mutley também fez Jornalismo na UFSC, embora já estivesse formado quando comecei o curso. Ele tem uma banda chamada Superbug, é dono de milhares de CDs e está fazendo um documentário sobre o bar do Frank, o bar mais legal do mundo, que existiu em Floripa na década passada, na beira da Lagoa da Conceição. Fui entrevistada para esse doc por conta dos shows de bandas independentes que eu produzia por lá. Eu conheci o Mutley por meio do Upiara, quando ele me levou junto, a caloura hardcore, para uma entrevista com o Wander Wildner no Curupira Rock Bar, e o Mumu tava lá. Como o Upiara, é um dos meus bróders mais antigos, que me apresentou um monte de sons e coisas bacanas. Eu, o Fred e a Ana ficamos hospedadas com ele.

Encontrar e reencontrar essas pessoas, que nos acolheram com tanta generosidade em seus colchões, sofás e camas, foi uma das coisas mais felizes da viagem. Ficamos satisfeitos com nossa opção: bem mais bacana dormir na casa de gente querida do que em um hotel impessoal, sem livros e gatos e louças na pia, sem narrativas pessoais.

Há poucas horas, nos despedimos de nosso anfitriões e partimos rumo a Porto Alegre. Escrevo esse post do carro. Daqui a pouco chegaremos na cidade, e vejam a coincidencia: o local aonde quatro de nós ficaríamos não vai mais rolar, e estamos, de última hora, procurando sofás amigos para surfar.

E agora? Quem poderá nos ajudar? Será que é voce que vai nos hospedar, nos dar um cantinho e compartilhar uma ou duas noites da nossa companhia? Temos sacos de dormir e cabemos em qualquer cantinho. Pagamos em chocolate, livros e, claro, karma points. Quem anima? :)