Deixa acontecer naturalmente

Eu e Ana em seu apartamento, já de volta a SP
Eu e Ana em seu apartamento, já de volta a SP

E foi assim que aconteceu: naturalmente. Em geral não gosto desse termo, “naturalmente”. Tanto de nossa experiência, se não toda ela, é permeada pelo social, pelo cultural e pelo histórico, que fica difícil não desconfiar. Beira-se sempre o essencialismo e o determinismo. Mas a palavra tem esse outro sentido, de deixar rolar, de ver o que acontece. De não planejar em excesso e de acolher as surpresas.

Nós sabíamos que essa viagem seria cheia de aventuras e imprevistos. De certa maneira, nos preparamos para isso. Mas, mesmo dispostos a abraçar o que viesse, era impossível não imaginar e especular o que aconteceria. Difícil não criar expectativas. Deixar acontecer naturalmente é mais complicado do que parece.

Mas o mais louco da estrada é que ela não está nem aí para suas expectativas. Se quer que a Dyva dê uma boa gargalhada, conte a ela seus planos, já diz o ditado. E assim é que essa jornada foi se costurando em surpresas, em pequenas alegrias e milagres de conexão e contato. Sim, tivemos também desventuras: fim da gasolina, pneus furados, incerteza sobre onde dormir, inseguranças sobre nossas leituras e performances, fomes e atrasos e cansaços. Mas as recompensas foram tão imensas que as provações, no fim, ficaram minúsculas. Cumpriram seu papel, nos fortaleceram, nos mostraram coisas. Mas não nos dominaram.

E entre as surpresas que a estrada trouxe está esse transbordamento que estou sentindo – e que percebo que os outros sentem também. Aqui não cabem ironias ou cinismos; só aquilo que sabemos ser a característica das cartas de amor: o ridículo. Ao chegar no Rio, a Renata nos avisou por Telegram que tinha escrito um post cafona. Bom, também eu me cubro de sentimentos cafonas, porque termino a primeira parte dessa turnê (ainda faltam BH e Rio) amando muito mais essas pessoas – Ana, Renata, Tarsila, Daud, Gonza e Fred – do que quando começamos.

Sim, eu já as amava, por supuesto. Somos amigos, e é por isso que resolvemos encarar essa empreitada. Mas entre essas expectativas e ilusões que criei, estava a ideia de que a gente ia acabar se agastando uns com os outros, que tretas surgiriam, que terminaríamos a viagem querendo nos esganar.

Para minha surpresa, o contrário aconteceu. Estamos relutantes em nos separar, e morrendo de saudades da Renata, que foi embora mais cedo. A Dyva riu da minha visão pessimista da humanidade e me presenteou com essa dorzinha melancólica de antecipação da separação, uma dor boa, porque denota a presença do afeto. Há amor: por isso a saudade. E tudo isso rolou naturalmente, muito naturalmente, contra as expectativas pessimistas dos hobbesianos entre nós. Claro, criamos as condições e o ambiente para que coisas acontecessem. Mas o que viria daí, não sabíamos. Nao havia garantias.

Agora estamos quase em São Paulo. Mordor se aproxima, e já podemos sentir seus tentáculos: o cinza se insinua na noite e nos lembra das contas a pagar, das louças a lavar, das rotinas e empregos e burocracias. A ansiedade ameaça tomar conta. Como voltar à rotina, depois de conhecer o mundo especial? Como retornar ao Kansas, depois de Oz? O consolo é saber que não é um retorno; as coisas serão diferentes dessa vez. Sim, é verdade que Mordor continua, e continuará, a mesma, com seu céu sem cor, seus preços altos, seu trânsito e sufocamento. A megalópole segue rumo à catástrofe e paralisia, e não poderemos restabelecer a ordem, nossas armas são delicadas e insuficientes. Mas nós não somos os mesmos. Trazemos conosco alguma espécie de elixir: os laços criados e fortalecidos, os aprendizados, as experiências, a poesia. Uma tiara de chifrinhos vermelhos e o poder de nos transformar em seres mitológicos.

Louco constatar que tudo isso já estava lá o tempo todo: no fundo, o elixir sempre foi a gente, nossa amizade, e nosso amor pela poesia, pela literatura. Pode não salvar o mundo, mas salva o minuto, como disse a poeta portuguesa Matilde Campilho. E isso há de ser suficiente. E Mordor já não será, então, a mesma.

A mesma foto? Olhe de novo...
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