Um pouquinho de tristeza

Passamos um dia maravilhoso em Morretes hoje. Mercê de nosso novo amigo, Guilherme Gontijo, grande poeta, professor de latim em Curitiba e tradutor rico. Temo falar demais e expor alguém que, se não é tímido, parece viver de maneira reservada ― o que, também, pode ser unicamente nossa fantasiação sobre um certo modo de viver que não tem necessariamente qualquer coisa que ver com reserva. É um pequeno punk pônei, em resumo. Sua filha é uma graça, além de malandra. Tiozinho bonitinho foi o apelido que me impingiu ― junto com sua amiga inseparável ― o que está em algum lugar entre uma declaração de amor e um desprezo sobranceiro, os quais, se isoladamente não são atitudes estranhas a crianças e gatos, surpreendem pela ambiguidade precoce, maliciosa, irônica.

Isso, junto com a doçura do pequeno poeta italiano de 1 ano de idade que é seu filho, e de sua esposa, a Fernanda, mais a companhia dos tantos amigos, os vizinhos, que vieram para o barreado, prato típico da cidade, tão esperado, e que tivera de ser suspenso no domingo passado, na vinda, por circunstâncias pesarosas, fizeram com que esse convite, depois da ótima leitura que fizemos juntos ontem, na Livraria Arte & Letra, em Curitiba, se tornasse uma surpresa imensamente bem-vinda. Assim foi que acordamos meio de ressaca, depois da maravilhosa festa da Cervejaria DUM, ontem à noite, no Museu Oscar Niemeyer, também dito Museu do Olho, empolgadíssimos, ansiosos por ir a Morretes e conhecer o lugar onde vivia essa pessoa tão carinhosa, tão generosa, que é o Guilherme, e não menos que isso, conhecer seu lugar de estudo, e talvez obter uma resposta à pergunta que depois lhe fiz: como você trabalha?

Eu faço uma coisa por dia. Acho que essa talvez seja, se fosse possível resumir em uma frase toda nossa conversa, a resposta. Mas, fizemos tantas coisas! Ele nos contou sobre a casa, o riacho que passa lá atrás, as frutinhas chamadas inphoto_2015-07-27_00-01-31hotingas, que talvez virem uma boa cerveja, como ele nos disse que preparou uma pimenta com elas; entramos no riacho e, na volta, ele nos mostrou a fruta do urucum, e as sementinhas, que esmagadas, soltam uma forte tinta laranja, com a qual pintamos o rosto, como guerreiros famintos… ele próprio conseguiu o tom avermelhado, recobrindo a tinta com várias camadas; a experiência faz diferença. E as cachaças! Cachaças da região, curtidas com frutas e cascas de árvore e outras partículas vegetais que eu não pude identificar, mas não de maneira descuidada, propositadamente grosseira, mas cuidadosa, artesanal, resultando em bebidas que lembravam vermute, conhaque, uísque… depois um doce de banana, nossa! Comemos muito muito muito, realmente. E a conversa, o ar, o sol… A verdade é que fizemos uma coisa nesse dia. A volta a São Paulo, então, foi só isso, a volta a São Paulo, depois de uma tarde deliciosa. Depois de uma semana deliciosa. Depois de uma viagem deliciosa.

 

E agora, às onze e meia da noite, depois de uma parada no caminho, pra esticar ― impressionantemente, minha coluna suportou super bem a viagem toda, mesmo dormindo em lugares variados, conquanto confortabilíssimos, mesmo com a Van Poesia apertada, e quase sem exercícios, já que estávamos na pegada ― e mijar, já que nenhum de nós mijou por um mês, e até comer, porque a boa comida não apenas satisfaz o apetite, ela também o amplia, paro pra pensar nessa tristezinha, de sentar com o computador aberto aqui e tentar escrever sobre o que vivemos… tristeza porque, nisso, obrigo-me a admitir que é vivido, passado particípio, já não tanto presente. Já começa a fazer falta…

Melencolia I - Albrecht Dürer
Melencolia I – Albrecht Dürer

Mas não nos paralisamos, não! Temos dois planos em andamento. O primeiro, uma oficina. Nossa oficina, o Curto Circuito Literário, deu muito certo. Estamos preparando uma oficina, não só pros outros, mas pra nós mesmos. Pra trabalhar. Pra deixar não só o que ensinamos, mas o que aprendemos, o que ouvimos, nessa viagem, dos outros escritores, tudo isso decantar em nós. Leva um tempo. Isso é um.

O outro, falar do amor. Porque essa foi uma viagem muito amorosa. Com toda a ambiguidade que o amor carrega, seja o das crianças, dos gatos, ou dos poetas. Que é do nosso estilo. Do meu mau humor, do meu preconceito, minha intolerância, que eu tive que superar minimamente pra poder estar com essas pessoas, e que eu queria tanto. E de todas as coisas que, tratando-se de amor, também dizem respeito à saudade, ao tesão, às carências, ao desamparo, às paredes finas, às camisinhas que vieram na mala, às paradas nas churrascarias na estrada, aos pneus furados, às hospedagens perdidas, à falta de gasolina, ao apagar o fogo com gasolina. Mas para isso o relato cronológico não basta. Então é um plano. Vamos ver como daremos tratamento a ele.

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