Meu texto de ontem

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Quem é você? Você que estava tão contente porque tocavam Thelonius Monk no exato momento em que você entrou no bar, e naquele exato momento se esqueceram de que tinham botado Thelonius Monk pra tocar e deixaram o mesmo disco do Monk tocando por mais quarenta minutos, tempo suficiente pra que você se sentisse em casa naquele bar, descobrisse o espírito mais apropriado que se bebe naquele bar, até que, por um golpe de sorte, no meio de uma música dos The Doors, que começou a tocar depois, a música parasse, e não foi antes de começar a conversar com alguém, alguém que começou a puxar conversa com você porque, talvez, tinha gostado dos seus cabelos castanhos, dos seus olhos escuros, da sua silhueta magra e oferecida ― sem saberem por quê ― foi que você ficou sabendo que se tratava de um mau-funcionamento elétrico, causado talvez pela umidade ou por uma franca infiltração, o que dificilmente poderia ser evitado, ainda que tivessem previsto a quantidade de água que desabaria dos céus, coisa que você não viu, não chegou a ver, embora pudesse bem imaginar, vindo de São Paulo como vinha, de maneira que pôde oferecer de imediato sua simpatia, sua consternação, no entanto sem perceber que a tragédia real não havia ainda acontecido, não teria em todo caso de imediato sido causada pelas chuvas, nem sequer pelos alagamentos e nem, para manter o raciocínio puro, pelos desabamentos causados pela chuva, ainda esperando, a real tragédia, esperando o concurso de alguns outros fatores para acontecer, e que você, tendo chegado tardiamente para acompanhar o início do fatos, chegou cedo o bastante para ser tomada pela tragédia, ser tragada pela espiral dos acontecimentos que, sem direta relação com aquela desgraça comum, acabaria culminando naquilo que você, mais tarde, teria que chamar uma tragédia.

Por que motivo, senão, essa pessoa havia se aproximado de você, olhando por cima, como se contasse com você levantar os olhos para ele, por que razão, portanto, dirigia a palavra a você dessa forma, exigindo que você levantasse os olhos para si como se não pudesse de outra forma prosseguir a conversa, o que de toda forma seria verdade, já que é muito desagradável conversar como se fosse com os pés da pessoa, ou com seu umbigo, dessa forma fazendo com que você se obrigasse a levantar os olhos para essa pessoa para evitar um desconforto maior, que poderia ser seu, mas que acabaria inevitavelmente sendo dele também, ao ver que você se recusa, por falta de à vontade ou por excesso de vontade própria, a obedecer-lhe o intento insistente, que mantém com aqueles olhos, de resto bonitos, mas que olham de cima, condescendentes, desinteressados na medida mesma de seu interesse, distraídos na medida mesma de sua atenção, não como os olhos de quem cumpre um dever com desgosto, o de conversar com essa forasteira, essa recém-chegada, com sua magra silhueta, mas como os olhos de quem espera o cumprimento de um dever, pacificamente, pacientemente, quieto, embora ele não esteja quieto, fale sem parar, pareça não poder ficar quieto nem por um segundo, a ponto mesmo de me fazer esquecer: o que mesmo ele queria de mim? Porque mesmo começou a conversar comigo, minha silhueta magra, meu batom borrado?

Levantei minha mão, num gesto brusco, como que para introduzir a pergunta: por quê? Mas o gesto pareceu exagerado, muito brusco, e afinal, como se antecipava à pergunta que o justificaria, e que demorou a se esboçar, pareceu também completamente inútil, e por isso desajeitado. Tentei pousar novamente a mão sobre a perna, recobrar a graça, a postura, o sentido, mas era tarde. Ao descer de encontro à minha coxa, minha mão encontrou a dele, inesperada, indesejada, incongruente. Dessa forma, já não pude recuperar a graça, nem o sentido. Ele se levantou e fez um gesto para que eu o acompanhasse. Eu o acompanhei.

Conforme percorríamos o curto espaço entre as mesas em direção ao banheiro, você não pode abandonar esse curto pensamento: se o acompanho, estou sem graça, mas se fico, também. Agora, já estou de pé, é preciso caminhar. Não olhar atrás, cabeça erguida, erguer os olhos. Ele abriu a porta do banheiro e eu entrei, sem hesitar. Tropeço no pé dele, que havia parado para ver se eu o seguia. Eu já não o seguia, eu o empurrava para dentro do banheiro, antes que alguém nos visse.

Tranquei a porta. Ele pôs as mãos no bolso como se tivesse algo a anunciar, e que fosse coisa séria. E começou novamente a falar, mas eu já não estava mais ouvindo. Não ouvia mais. Porque me dei conta, naquele momento, de que não era ele falando, senão eu mesma, que o que quer que eu quisesse que ele fosse dizer, é o que ele diria, e se eu quisesse que se calasse, ele se calaria. Não porque quisesse alguma coisa de mim, mas precisamente porque não queria nada. Não queria nada comigo, nada de mim, mas nada de si mesmo, também. Se eu tirasse o baseado que tinha no bolso e desse a ele, ele sairia contente, como bem-sucedido, e era tudo o que queria. Não o baseado, mas a saída triunfante. Era só disso que precisava, naquele momento. Por isso ainda falava. Por isso eu já não mais escutava.

Andei até a cabine. Não vomitei. Não joguei o baseado fora. Ele esperava. Sentei-me, abaixei a calcinha. Mijei. Mijei como se mijasse por um mês inteiro. E ao me levantar, de frente para o espelho, não pude deixar de perceber que a silhueta que eu via, aquela silhueta continuaria a ficar, pouco a pouco, sorrateiramente, silenciosamente, cada vez mais magra, até um dia, talvez, desaparecer. E eu já não estaria ali para impedir.

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