Deu Curto Circuito Criativo em Floripa!

Nós já tínhamos feito essa oficina em São Paulo, n’ oGangorra, e já tinha sido incrível, e eu já tinha passado a madrugada fritando no fogo das ideias depois dela. Por isso achei que estaria imune a esta que fizemos na Biblioteca do Sesc Prainha, afinal é uma oficina do nosso próprio projeto, e dessa vez nem participei muito, fiquei mais na coordenação, já que tínhamos 32 participantes, muito mais do que os 20 esperados.

Claro que eu não estava imune. Claro que fritei a madrugada inteira.

A Ana começou com a sua oficina sobre travamentos literários. Nessa eu participei, levantando qual era o meu principal motivo pra eu não escrever. Sempre surgem novos motivos, mas sempre são os mesmos. “Não estar à altura” foi o meu (afinal, viajando com essa trupe de superheróis…), junto com vários outros que levantaram temas como “maturidade”, “outro”, sempre esse padrão de qualidade do além que frequentemente me parece ser mesmo o medo que nós temos do nosso próprio texto.

Em algum momento dessa oficina, o Rafael Daud, psicanalista, me cochichou parafraseando Lacan: “quer dizer então que o escritor só se autoriza de si mesmo?”.

Algum participante pegou uma dessas palavras e sugeriu outra como solução: “Foda-se”. Adoro quando os palavrões emergem logo no começo. Acho que significa que as pessoas estão dentro da oficina mesmo.

A Renata apresentou a trajetória do heroi. Essa oficina eu ainda não tinha visto. Mas finalmente entendi por que é que ficar sem gasolina na estrada era o nosso teste de aliados e inimigos (narrativa besta a nossa em que todos saem mais unidos ainda rs). Foi muito bom eu, que sou nada cinéfila e frustrada por isso, de repente lembrar de tantos filmes a cada etapa que ela passava. “ahn, essa é a hora que o gandalf cai no penhasco!”. Nada melhor pra gostar de um jogo quando alguém te dá umas dicas de como jogá-lo.

Fiquei com uma dúvida que não perguntei por falta de tempo: Renata, aquele filme “Antes da Chuva” é que tipo de estrutura narrativa?

Depois vim eu (Olá, eu sou a Tarsila, pra quem não leu a tag lá em cima do post). Ah, que dificil falar sobre o nosso próprio trabalho. Gosto de pensar na minha oficina como a parte de tirar os sapatos e fazer todo mundo ser criança (não fiz ninguém tirar o sapato porque estava frio rs). Que escrever não precisa ser sobre esforço, sofrimento, fritação na frente duma tela. Se for (às vezes é!), que seja por prazer e vontade própria. Que escrever não significa decorar um cânone e superá-lo, mas sim encontrar vozes, lugares, caminhos de sentido dentro de nossa própria caixinha de segredos – o nosso corpo. E porque não, a nossa alma. E porque não, não separar um do outro.

Daí a Jeanne, falando sobre mulheres e poesia. A parte em que ela fala sobre o retrato da representação feminina no cenário artístico e literário acho tão difícil de lidar, ela fala alguns números horrorosos que eu nunca lembro. Não pode ser sério. Não Pode. Me lembrou o trabalho das Guerrilla Girls, um coletivo artístico que questiona como a mulher é tratada no mercado de arte. Acabei de entrar no site delas e topei com a frase irônica sobre as vantagens de ser mulher no mundo da arte: “Poder escapar do mundo da arte em um de seus 4 freelas”. Nossa, nem nos identificamos, não é mesmo?

Depois a leitura das poesias. Tem uma da Pagu que a Jeanne usa para falar de imagens: é a poeta-personagem como ave pregada na parede. Tão difícil. Tão difícil essa imagem, porque não fala só da poeta que escrevia sob pseudônimos e cuja poesia demorou a vir à luz. Mas também a imagem da mulher assassinada em seu desejo. Nem nos identificamos, às vezes, não é?

E a oficina do Daud, da qual já nem falo nada.  Ele vai só, passo a passo, levando a gente pra onde mora o texto. Aquele lugar que a gente não quer ver, que lá no começo, na oficina da Ana, a gente chamou de tantos nomes: O outro, a falta de tempo, a preguiça, a falta de maturidade, a falta de coragem. E o Daud vai lá e mostra: olha aqui onde estava o seu texto, tão perto de você o tempo todo.

A cara que as pessoas fazem durante os exercícios é impagável. Eu e a Ana até demos gritinhos quando fizemos a oficina pela primeira vez. “Vamos matar o Daud!”, prometemos. De abraço, né, só se for.

Passei a madrugada pensando sobre porque dessa vez não me veio nada na cabeça quando ele fez os exercícios. Eu entendi: porque eu já tinha visto a oficina, e tinha tratado de esconder a morada do meu texto um pouco mais para baixo, para não sentir. Mas ela estava lá, radiante como a lua cheia, pedindo para ser reescrita.

Acho que as pessoas gostaram, a julgar por esta foto.

curto circuito floripa
Foto de Gonzalo Cuéllar

Em Curitiba tem mais!

  • Dia 25/07, das 14h às 16h, Curto Circuito Criativo no espaço Das Nuvens -R. Cândido Lopes, 68, Centro.  Serão 20 vagas, inscrições gratuitas antes do evento.

 

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