A person from Porlock

A bateria está acabando. Não temos muito tempo até Porto Alegre e ainda a maior parte de nós não tem onde dormir. Não temos reservas em hotéis, menos ainda dinheiro para isso. Temos uma leitura marcada num lugar chamado Mondo Cane. Parece que é famoso. Eu não saberia, tudo o que sei sobre Porto Alegre é que possui alguns grandes escritores, de quem quase sempre nada li, entre os quais o nome Erico Verissimo me é especialmente caro. Sinto-me deslocado, entrando em um mundo que não é o meu. Rio Grande do Sul me soa como outro país, como alguns gaúchos, segundo consta, queriam. Penso no Cidadão Kane, talvez por mais de um único motivo, que não saberia precisar. Xanadu. Gostaria, por um momento, de ser um escritor romântico inglês. Não Byron, claro, mais especificamente Coleridge. Vocês sabem, não? Aquele que não terminou de escrever o poema porque uma pessoa de Porlock veio perturbá-lo? Veio arrancá-lo de seus devaneios? E quando, demitido o intruso, tentou voltar ao poema, já não sabia como terminá-lo? Eu gostaria de ser Coleridge. Sinto-me a pessoa de Porlock. Temo terminar a viagem como Keats. Exagero, claro. Talvez já esteja me aproximando deles.

Gostaria de escrever algo para a leitura. Não quero ler algo que já está escrito. Porque não é o local, não é. O problema é: não sei que lugar é esse, para quem vou escrever. Acabo de receber notícias da minha oficina, da oficina em geral, mas da minha especificamente. Parece que mexeu com algumas pessoas. Isso foi bonito saber. Mas eu gostaria que eu pudesse realmente me conectar com essas pessoas. Mas pra isso é preciso superar minhas próprias limitações, meus preconceitos, vários. Vencer a preguiça, a vontade de voltar pra casa, cada vez mais insistente. Tenho meu computador, minha segunda casa, tenho meus livros ― dos quais ainda quero lhes falar. Mas não é o bastante. E parece que tenho/não tenho minha escrita. Veja: viemos para construir pontes, mas cada vez que nos embrenhamos mais para o Sul (e em minha vida, Curitiba está mais ao Sul do que tudo, fazendo com que nosso itinerário obedeça a esse entranhamento), mais pareço me enfurnar dentro de mim mesmo, cético e refratário a tudo que vem de fora. E sou eu o que vem de fora. Eu sou a pessoa de Porlock.

Procuro uma saída, e ela está aí, logo aí. Mas não sei onde procurá-la. Aquilo que eu tinha por guia deixou de valer. A maldade? Não, não se trata disso, porque a maldade só é degradação, e portanto, criação, quando próxima da bondade. E aqui não se vê nada disso, porque estamos no ermo. No ermo, onde não me reconheço, não posso ser reconhecido, portanto não posso contar com a bondade de ninguém. Talvez haja alguma condescendência, mas é só. O que não me resolve nada. A bateria ainda não acabou, mas continuarei no papel. Continuarei no papel o texto que lerei em Rosebud. Continuarei a escrever no papel alguma coisa que me sirva para me levar para longe. Para onde eu deveria estar indo. Para um lugar em que a locução calamidade pública possa ter algum sentido maior que uma imagem repetida e inócua.

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