Cruzando pontes

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Quando eu cruzei a ponte para chegar na ilha de Florianópolis pela primeira vez, já foi de malas prontas. Era o ano 2000, e eu tinha passado no vestibular para Jornalismo na UFSC. Não tinha estado na cidade nem mesmo para a prova, já que havia a possibilidade de fazê-la em uma cidade mais perto de casa.
Não sabia nada nada sobre Floripa, exceto que tinha mar. Não sabia que os habitantes daqui eram chamados de manezinhos, que a cidade tinha uma cena forte de rock independente, que havia uma Lagoa linda (e que eu cruzaria tantas vezes para ir ao bar mais legal que já existiu). Não sabia das cores incríveis da cidade, nem do chiado do sotaque (bora fazer um surrax, porrax).
Também não sabia muito sobre Jornalismo, o curso que eu vinha fazer. Eu achava que Jornalismo era escrever coisas. E era isso que eu queria fazer: escrever.
Da janela do ônibus, depois de 19 horas de viagem desde Uberaba, dava pra ver a ponte Hercílio Luz, essa da foto. Por cinco anos, o tempo que morei aqui, cruzar a ponte e ver a Hercílio Luz ali do lado me dava uma sensação difícil de definir, um pouco bittersweet, como a de voltar para casa, mas também a de saber da transitoriedade das coisas, do seu estado de passagem. De saber que isso não iria durar, e que eu iria embora um dia. Hoje acho que sei melhor o que era: um estado de poesia. Uma sensação bonita, de encher o peito de uma alegria ligeiramente melancólica. Coisa de beleza mesmo.
Quinze anos depois, cruzo a ponte novamente. E a Hercílio Luz está ali, em sua beleza forte e solitária. Muito parecida, percebo eu, com a ponte que está em nosso logo, criado pelo Max. Desde o início desse projeto, uma de nossas metáforas para descrever o que queríamos fazer era o “cruzar pontes”: poder nos aproximar de outros escritores e leitores, de gente interessada em poesia nas diversas cidades. Dinamitar barreiras, sim, mas principalmente fazer travessias que conectem pessoas. Ligar ilhas e continentes. E, dentro disso, faz todo o sentido que Florianópolis, essa ilha de cores lisérgicas, seja nosso primeiro ponto de parada. Aqui nossas pontes deixam de ser metafóricas para virar concretas. E comigo fazendo aquilo que eu queria fazer desde a primeira vez: escrever.
A Ana Rüsche costuma dizer que uma das maneiras que ela tem de tomar decisões na vida é ver o que a Ana de 15 anos acharia daquilo: ela prometeu a si mesma, com essa idade, nunca se desapontar. Pois bem. Acho que aquela Jeanne de 18 anos, que ainda não sabia de muita coisa quando atravessou aquela ponte, há 15 anos – acho que ela ficaria feliz.

One thought on “Cruzando pontes

  1. Linda! Pra mim, cruzar a ponte quando chegava de São Paulo ou ia para São Paulo, invariavelmente com lágrimas nos olhos, significava deixar minha terra para trás, mais uma vez. ; )

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