Como eu vim parar aqui?

Não sou de viajar. Os que gostam de signos não podem entender, porque o prazer em viajar é a primeira característica de sagitário. Mas eu realmente não gosto de viajar.

Sinto falta do piano, sinto falta da minha rede, sinto falta de pessoas que não estão aqui. Demoro pra entender a cidade nova, a me acostumar com o fato de que não vou entender nada, de fato. Não tenho essa ânsia por andar um monte e ver tudo que for possível, gosto na medida do possível fazer as mesmas coisas que faço em casa, um bom café da manhã, comer bem, dormir um pouco, sentar pra ler. O fato de não estar trabalhando aguça ainda mais essa vontade. Quero aproveitar as férias. O lugar, é contingente. Mal de ter construído para si um lugar agradável, e chamá-lo de minha própria casa. Um teto só meu.

De maneira que nunca teria, por impulso desmotivado, aberto mão desses pequenos privilégios, que me são tão caros, pra ir ao Sul do País a fim de ver coisas que não conheço e que, para um investigador exigente, terminaria necessariamente por admitir que não poderei mesmo conhecer. Não que o piano inesperado na sala de estar de nossa querida anfitriã ajudem a me tirar da zona de conforto. De jeito nenhum.

Rita Paschoalin, nossa anfitriã, e Rê Corrêa
Rita Paschoalin, nossa anfitriã, e Rê Corrêa

Deixar São Paulo, aliás, tirar férias é, em si, coisa que me põe profundamente ansioso. Penso que estou fazendo algo errado, que estou sendo irresponsável, que estou sendo petulante, já que pouco direito tenho a qualquer coisa, eu que não produzi nada de permanente neste mundo… Ando tenso, três manchas amarelas aparecendo na perna, uma veia dilatada a ponto de doer, tudo porque preciso deixar tudo resolvido antes de me sentir autorizado. Tudo resolvido. Tudo resolvido.

Deixar São Paulo para uma aventura não é coisa que eu faria de caso pensado. É coisa que parece, à primeira vista, para alguém como eu, uma péssima ideia. Mas para algumas pessoas pareceu um lance legal, então o que aconteceu, simplesmente, foi que suspendi meu próprio julgamento, por mais radical que fosse em seu conservadorismo, em nome do julgamento de meus amigos. Um escritor não tem somente seu espírito, dizia Nietzsche, tem também o espírito de seus amigos. Então eu fiz o esforço, maior do que a impossibilidade de deixar tudo resolvido antes de sair de cena, o esforço de abandonar a pretensão de deixar tudo resolvido. Não era uma viagem que faríamos por nós mesmos, para nós mesmos. Mas fazer com os outros, e em certo sentido, para os outros, cala a exigência superegoica o bastante para que possamos fazer isso. Não é uma viagem que faríamos, mas é uma viagem que faríamos com os outros.

E então, finalmente, explica-se a exigência superegoica, como se estivéssemos devendo algo, devendo muito… explica-se a exigência de deixar tudo resolvido, antes de pôr o pé na estrada… porque uma vez com o pé na estrada, já não me preocuparia com o muito não resolvido, nem com qualquer outra coisa que não fosse aquilo que estivesse efetivamente fazendo. O que poderia ser muito, ou nada ― e que bom termos um cronograma, leituras marcadas, cursos ― porque verdadeiramente já estava somente ocupado com o que está acontecendo agora. Um estado de disponibilidade enorme. Nenhuma exigência, a não ser… o que está acontecendo agora?

Agora estamos no bar Sambaqui, em Santa Mônica, Ilha de Santa Catarina, dita Florianópolis, antiga Desterro, tomando cervejas wit fabricadas pelo dono, preparando a leitura que faremos daqui a pouco. O público já se avoluma, o bar é pequeno, o que faz parecer maior ainda o grupo… leitores ávidos, percebe-se. A música é boa, a conversa divertida. No corpo, ainda o efeito das conversas da tarde, provocadas pelo Fred, que se impôs a tarefa de fazer um documentários sobre nós, sobre o projeto, sobre… não sabemos ao certo, apenas que ele nos manda gravar nossas opiniões num CD e vender na Santa Ifigênia. Não lhe interessa nossas opiniões. Nem a nós, verdadeiramente, mas apenas o que fazemos. Mas o que fazemos?

Daqui a pouco vamos ler. E tirante os relatos de nossa viagem, dos efeitos e reflexões que nos provoca, e o que escrevemos aqui, e o que já fizemos, no passado, e publicamos, o que será que fazemos, tão intensamente, compenetrados, sensíveis, suscetíveis? O que fazemos, agora?

Mas será que você estava prestando atenção?

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