Começa a jornada

Quando contamos uma história por mais prosaica ou simples que seja, fazemos o esforço de ordenar os acontecimentos e encadeá-los de forma que a sequência de causa e efeito fique claro para quem nos ouve. Não à toa chamamos a história de trama, que como na feitura de um tecido os fios se entrelaçam, o que se se soltam ou sobram são recolocados ou cortados para que no final o resultado seja “bem amarrado”.

A questão é que quando começamos uma jornada não sabemos que fios são esses. A história só é história quando termina, suas lições aprendidas e que fazem o significado do início ser revelado. Tudo parece fazer sentido, as águas turvas ficam claras e delas emerge o sentido.

Hoje começamos a nossa turnê. Depois de um começo confuso e um pouco tenso onde cunhamos o termo Namastreta (namastê com treta), onde as coisas dão errado mas a moral da tropa permanece alta, finalmente entramos no carro e saímos de São Paulo. No momento em que eu escrevo estamos em um posto de gasolina perto de Curitiba e alguns fios da trama começam a ser entrelaçados.

Quando no momento da saída percebemos que o bagageiro não ia comportar todas as malas, livros e bagagens de mão se instalou uma crise. Como bonequinhos obedecendo etapas da trajetória do herói estávamos lidando com forças ocultas e misteriosas que estavam impedindo que abandonássemos o mundo comum e atravessássemos o limiar que nos lançaria à aventura. Mas será que seriam forças ocultas mesmo? Ou as nossas falhas, incompletudes e inseguranças que entupiram malas, fazendo um peso real e metafórico que nos prendiam a São Paulo? Certo era que os tentáculos que nos impediam estavam atuando.

Logo percebemos que para continuar a viagem não ia adiantar entupir o chão do carro, enganar o destino. Fato era: deveríamos abrir mão dos excessos para podermos prosseguir. E nossas malas já eram enxutas, era fazer o pente fino do pente fino. E fizemos. Para os heróis conseguirem acessar o mundo especial e cumprirem a sua missão é preciso um ato de coragem, abandonar velhos hábitos, se despir das roupas do cotidiano. Ana deixou o computador, Fred alguns acessórios de câmera, Tarsila o kindle e o desodorante, Jeanne também o computador e alguns exemplares do seu livro, Miolos Frescos, e eu uma toalha felpuda e macia que foi substituída por uma pequena toalha de rosto. No espaço que a toalha abriu espremi trinta exemplares do meu livro, Vaca e outras Moças de Família. Prioridades.

Cada objeto simbolizando o abandono da velha maneira, do velho ego, sendo deixado para que possamos começar a reconstruir nossas identidades na jornada.

Coubemos então, todos no carro tendo que lidar com os lamentos desse abandono, com a quebra da nossa fantasia de controle, e mais unidos, posto que agora com menos coisas devemos ser mais generosos, afinal teremos que compartilhar alguns objetos de intimidade como laptops, meias e fones de ouvido.

Vejamos se a viagem dos Escritores na Estrada continuará a cumprir servilmente as etapas da trajetória do herói, tão bem sistematizada por Propp, Campbelle e Vogler. Caso continuemos os próximos passos do primeiro ato serão encontro com o mentor, testes, aliados e inimigos e travessia do primeiro limiar. Observemos o desenrolar desse novelo.

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