Aliados e inimigos

Ouço um rio lá embaixo. Agora que todos os carros e caminhões desligaram os motores, a corredeira murmura na noite. Continuamos na trajetória do herói. Muito do que fazemos é conversar. Pedi para a Rê contar mais sobre o assunto. Gosto de ouvir a Rê contar histórias. Entra naquele tom baixinho e manso, com o carioquês marcado e piadas. Veio nos contando da trajetória do herói, daí surgiu o post que vc leu antes.

No céu sem poluição, as saudosas estrelas. A lua tem um meio sorriso de gato de Alice. Estamos no meio de um congestionamento brutal. Algures, perto de Joinville. Houve uma mudança de planos e votamos ir direto para Florianópolis (decidimos por votação e, graças à nossa antiga habilidade de plenárias no movimento estudantil, o Daud não nos demoveu do plano). ==> Aqui, fazendo o copydesk, fico tentado a roubar e corrigir a história. Porque, veja, a habilidade no movimento estudantil foi conquistada em conjunto, e se não demovi o grupo da sua indústria, não foi por falta de talento, mas por encontrar outro talento não menos encaniçado no outro lado. Não foi minha primeira derrota nesta viagem, nem será a última. Tudo bem, não vim aqui para vencer. <==

Na trajetória do herói, há sempre uma busca. Não se sabe bem o que se busca. Mas se sabe que a busca é necessária. Por uma sede que assola a aldeia. Por um feitiço que imobiliza o vilarejo.

Nunca é simples ou fácil. Nos inícios do percurso, há algum tipo de demonstração de forças para apontar que tudo é muito sério. Aquela primeira queda do Neo, em que ele percebe o gosto de sangue na boca, cair do prédio na Matrix. A dificuldade é real, uma parede palpável e fria como a noite lá fora da van.

Na fronteira entre Paraná e São Paulo, os postos sumiram. Rodamos, rodamos. Sem sinal de um lugar para esticar as pernas e abastecer. O sol se pôs. Vermelho e triunfante se foi, com o elixir da vida automotiva. Sim, paramos sem gasolina. Bastante típico da Van Poesia, aliás.

Quis a Dyva que um carro de socorro estivesse muito próximo e nem precisamos improvisar mais para resolver a situação. Enquanto o Fred foi com o cara do carro de socorro buscar a gasosa, ficamos no matinho do acostamento. Conversando sobre inimigos e aliados. Pararam mais dois guinchos para perguntar se queríamos ajuda. A vida na estrada é assim. Você passa, mas é o dia-a-dia de tantas pessoas. Que vivem de ajudar viajantes. Que prestam socorro. Que talvez possam ser até bem desagradáveis. Na alternância entre a luz do pisca-alerta e dos faróis das cegonhas que deixavam tanto vácuo que se passassem no céu poderiam ser cometas, fizemos exercícios. Sim, esse lance hippie-odara irresistível. Abrir a pelve. Sentir o ar por todo o teu corpo. A conversa foi sobre inimigos e aliados. O suficiente para chegar a gasolina e prosseguirmos viagem, com aplausos.

 

A noiva
A noiva

Agora, parece que uma carreta tombou. Oito quilômetros pra frente. Há uma fila interminável de carros e caminhões estacionados. Sem previsões. Pode demorar mais 15 minutos ou quatro horas. O casal do carro vizinho é de noivos. Passaram o dia tirando fotos para a cerimônia. Ela me mostrou o vestido. O buquê. O noivo é músico. Fico aqui à cata de histórias. Enquanto permenecemos na mais absoluta imobilidade. Embora seja apenas passageira. A estrada fica parada, mas sendo estrada sempre nos move. ==> Nota mental: se tivéssemos ido pra Matinhos, isso não tinha acontecido. <==

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