A carapuça do artista não serve

Estive pensando o que é ser escritora, e melhor, por que é que esse rótulo, essa carapuça, às vezes é tão inapropriada, até indecente. Até onde é possível “ser escritor”, ou ainda mais, “ser artista”.

É possível ter imagem de artista. Conseguimos rapidamente projetar a imagem desta pessoa. É um gênio/louco incompreendido num atelier empoeirado?  Um ser iluminado que “vive da sua arte”, que “vive de luz”, que se alimenta do “êxtase criativo”? É um escravo da sua musa? Não me parecem imagens interessantes de perseguir, à mercê dos caprichos do impulso-artista.

É um sábio escrevendo livros numa cabana na montanha? É uma celebridade literária, plástica, midiática, é uma celebridade artística? É um artesão de pequenas belezas? É alguém que tem “duende“, que tem o poder de mover sentimentos dos outros? – como se mover sentimentos sequer fosse compatível com “ter o poder”. Me parecem imagens atraentes, porém… muito bidimensionais, inverossímeis, pro meu gosto.

É possível montar um estereótipo de artista, e tentar se encaixar nele. Existem guetos deles, tribos deles. Roupas são compráveis, cabelos são moldáveis, corpos são mais ou menos esculpíveis. Discursos são passíveis de ser aprendidos e reproduzidos. Quem, afinal, é esse escritor ideal a quem tantos querem incorporar, transfigurar o próprio corpo no corpo desta entidade platônica?

Pra quê, afinal, ser escritor? Ser artista? Pra não ter que ser a si mesmo?

É possível passar uma vida administrando a imagem do artista. É possível inclusive passar uma vida inteira se escondendo atrás da máscara do artista para esconder de si mesmo o sujeito que escreve – afinal, como bem disse o Daud, escrever é fazer algo mau. E quem é que consegue fazer algo mau enquanto tenta administrar uma pose de mau?

Ser escritor, ser artista, pode ser bem uma grande mentira.

Já o fazer-escrita, escrever, e fazer arte, parecem vir de outro lugar que não esse da imagem-artista.

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Não desprezo os textos confessionais que abundam a Internet, principalmente as redes sociais. Eu leio isso como pequenos despertares de escritores. Gente que diz, de sua maneira tímida: “Sabe o quê, este sou eu sem essa carapuça errada que me meti sobre a cara. Este é o meu estômago sujo de ódio, estes são meus sonhos mais medíocres e delicados, estas são minhas feridas emocionais mais purulentas.”

Como não se assustar, como não amar. O homem, o homem ético, em toda a singularidade em que ele se permite mostrar, quando se torna capaz de abandonar a hipocrisia de sua necessidade de seduzir.

Não sei responder de onde vem a escrita. Gosto de procurar esta resposta no corpo e na poesia, pois me parece que abrem uma frestinha de janela quando tudo parece um quarto escuro e fechado.

Falando em carapuças, temos Pessoa em Tabacaria para nos advertir de que a escrita parte de outro lugar, e cumpre outra função.

“Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.”

 

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