Um estado de atenção

HITCHTRUFFAUT

O ato de escrever, como permamente exercício de alternância entre alteridade e identidade pressupõe em si um movimento. Mas esse movimento, circunscrito no imaginário do que seria um escritor, e o ato de escrever também carrega em si uma imobilidade. Sentar-se corajosamente diante da página em branco e só sair dali depois de certa luta para preenchê-la onde o movimento só acontece na interioridade.

Eis um paradoxo: o escritor deve então executar a sua obra negando o corpo, imóvel, mas sem negar o movimento.

É claro que com novas tecnologias, o escritor pode começar aqui e acolá a fazer notas de áudio, fotografar uma referência, ou mesmo fazer de seu celular um moderno bloquinho de notas, digitando furiosamente o que passou pela cabeça e parece promissor. Porém mais uma vez, temos que nos debater com a contradição: se antes a flânerie era condição fundamental para o escritor que queria contato com o mundo, como abrir mão das facilidades de uma rápida consulta ao google, ao kindle, a outro escritor ou referência no email ou inbox do facebook, ou mesmo à wikipedia, no conforto na sua cama ou mesa de trabalho?

Quando Truffaut e Hitchcock se encontram pela primeira vez e se reconhecem, diametralmente opostos e complementares há uma espécie de enlevo amoroso. O flaneur francês se apaixona perdidamente pelo mestre do suspense, que tinha como principal premissa de produção o controle. Hitchcock fez a grande maioria de suas cenas icônicas em estúdio, com portas trancadas. Já Truffaut seguia seus personagens pelas ruas de Paris, pontuando com internas aqui e acolá, mas deixando o vento da cidade entrar pelas janelas. Ambos foram dramaticamente modificados pelo encontro – Truffaut realiza A Noite Americana onde remonta um complexo set de cinema e Hitchcock revela que dará a oportunidade para o inesperado, singelamente prometendo a Truffaut deixar agora as portas do estúdio encostadas.

Como senhora da força do acaso, mesma deusa que promoveu o encontro dos dois cineastas na década de 70, Ana Rüsche nos acenou com a possibilidade de uma “turnê” de escritores. A ideia toda parecia maravilhosamente sedutora, mas ainda não tínhamos a exata noção de como materializar esse tipo de ousadia. Seria preciso se imbuir do espírito da viagem. Nos abastecermos de um sentimento de necessidade real e literal de deslocamento como exercício da escrita. Transformar o paradoxo da mobilidade versus imobilidade em aforismo – viajar é preciso. Viver é necessário e impreciso.

Será possível unir o controle e o apuro técnico a de Hicthcock com a diluição de Truffaut e seu desejo de imponderável? Bom, em comum eles tinham a obsessão pela escrita cinematográfica. Essa obsessão nada mais é do que um estado de atenção permanente para essa grafia e para essa gramática semântica do filme. Viajar é estar atento. Estaria aí o pulo do gato?

E na volta, quem sabe?

E tem volta?, quem sabe?

Nós, Escritores na Estrada, estamos fazendo uma aposta que os dois lados podem viver na mesma moeda. Estamos fazendo as nossas malas percebendo a necessidade do deslocamento como fundamental para quebrar barreiras, para estabelecer contato, para colar a nossa escrita em nossos corpos. Estamos embarcando. Estamos indo. Estamos nos escrevendo nesse momento que você está nos lendo. É com muitas mãos e muitos ethos que esse barco está sendo empurrado para o mar.

 

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