rascunho preliminar sobre o guia do mochileiro da van poesia

estou preparando um texto compilando os aprendizados da viagem, mas dyva-do-céu, eu não tenho o pique dessa equipe que escreve posts quilométricos na estrada não. eu bocejo profunda e repetidamente, fico mau humorada às 21h30 e estou babando as 22h. Especialmente agora depois dessa viagem corrida, em que eu estou basicamente intercalando entre dormir, comer e tentar trabalhar.

mas vamos começar do começo, ou seja, do que eu cuspi hoje de manhã no divã às 9am depois de ir dormir as 3am:

Aprendizado número 1:

– sabe aquele desgaste natural que rola quando você viaja com os seus amigos fazendo uma função-trabalho, cumprindo horários puxados, passando frio, dormindo em lares desconhecidos e se espremendo num veículo apertado?

então. é mentira. não existe desgaste natural porra nenhuma. dá pra não ter esse desgaste, mesmo tendo problemas no percurso, e dá pra terminar a viagem sentindo ondas de amor e querendo mais.

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tipo aquela passagem do matrix em que a criança pega a colher e fala: there is no spoon. e a colher entorta. o desgaste natural que você espera é uma construção, inventada por alguéns que não puderam achar outro caminho.

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agora beijos que já são dez e meia e estou morrendo de cansaço.

:*

Deixa acontecer naturalmente

Eu e Ana em seu apartamento, já de volta a SP
Eu e Ana em seu apartamento, já de volta a SP

E foi assim que aconteceu: naturalmente. Em geral não gosto desse termo, “naturalmente”. Tanto de nossa experiência, se não toda ela, é permeada pelo social, pelo cultural e pelo histórico, que fica difícil não desconfiar. Beira-se sempre o essencialismo e o determinismo. Mas a palavra tem esse outro sentido, de deixar rolar, de ver o que acontece. De não planejar em excesso e de acolher as surpresas.

Nós sabíamos que essa viagem seria cheia de aventuras e imprevistos. De certa maneira, nos preparamos para isso. Mas, mesmo dispostos a abraçar o que viesse, era impossível não imaginar e especular o que aconteceria. Difícil não criar expectativas. Deixar acontecer naturalmente é mais complicado do que parece.

Mas o mais louco da estrada é que ela não está nem aí para suas expectativas. Se quer que a Dyva dê uma boa gargalhada, conte a ela seus planos, já diz o ditado. E assim é que essa jornada foi se costurando em surpresas, em pequenas alegrias e milagres de conexão e contato. Sim, tivemos também desventuras: fim da gasolina, pneus furados, incerteza sobre onde dormir, inseguranças sobre nossas leituras e performances, fomes e atrasos e cansaços. Mas as recompensas foram tão imensas que as provações, no fim, ficaram minúsculas. Cumpriram seu papel, nos fortaleceram, nos mostraram coisas. Mas não nos dominaram.

E entre as surpresas que a estrada trouxe está esse transbordamento que estou sentindo – e que percebo que os outros sentem também. Aqui não cabem ironias ou cinismos; só aquilo que sabemos ser a característica das cartas de amor: o ridículo. Ao chegar no Rio, a Renata nos avisou por Telegram que tinha escrito um post cafona. Bom, também eu me cubro de sentimentos cafonas, porque termino a primeira parte dessa turnê (ainda faltam BH e Rio) amando muito mais essas pessoas – Ana, Renata, Tarsila, Daud, Gonza e Fred – do que quando começamos.

Sim, eu já as amava, por supuesto. Somos amigos, e é por isso que resolvemos encarar essa empreitada. Mas entre essas expectativas e ilusões que criei, estava a ideia de que a gente ia acabar se agastando uns com os outros, que tretas surgiriam, que terminaríamos a viagem querendo nos esganar.

Para minha surpresa, o contrário aconteceu. Estamos relutantes em nos separar, e morrendo de saudades da Renata, que foi embora mais cedo. A Dyva riu da minha visão pessimista da humanidade e me presenteou com essa dorzinha melancólica de antecipação da separação, uma dor boa, porque denota a presença do afeto. Há amor: por isso a saudade. E tudo isso rolou naturalmente, muito naturalmente, contra as expectativas pessimistas dos hobbesianos entre nós. Claro, criamos as condições e o ambiente para que coisas acontecessem. Mas o que viria daí, não sabíamos. Nao havia garantias.

Agora estamos quase em São Paulo. Mordor se aproxima, e já podemos sentir seus tentáculos: o cinza se insinua na noite e nos lembra das contas a pagar, das louças a lavar, das rotinas e empregos e burocracias. A ansiedade ameaça tomar conta. Como voltar à rotina, depois de conhecer o mundo especial? Como retornar ao Kansas, depois de Oz? O consolo é saber que não é um retorno; as coisas serão diferentes dessa vez. Sim, é verdade que Mordor continua, e continuará, a mesma, com seu céu sem cor, seus preços altos, seu trânsito e sufocamento. A megalópole segue rumo à catástrofe e paralisia, e não poderemos restabelecer a ordem, nossas armas são delicadas e insuficientes. Mas nós não somos os mesmos. Trazemos conosco alguma espécie de elixir: os laços criados e fortalecidos, os aprendizados, as experiências, a poesia. Uma tiara de chifrinhos vermelhos e o poder de nos transformar em seres mitológicos.

Louco constatar que tudo isso já estava lá o tempo todo: no fundo, o elixir sempre foi a gente, nossa amizade, e nosso amor pela poesia, pela literatura. Pode não salvar o mundo, mas salva o minuto, como disse a poeta portuguesa Matilde Campilho. E isso há de ser suficiente. E Mordor já não será, então, a mesma.

A mesma foto? Olhe de novo...
A mesma foto? Olhe de novo…

a festa!

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Se fosse descrever o DUM Day, ia começar pelas estrelas.

Deitados em sacos de malte na grama orvalhada, riscavam os dedinhos as constelações. Escorpião. Riamos de histórias passadas. Avaliei mais uma vez os últimos anos. Ando ruminante, mais uma vez aquele meu excesso típico de pensamentos. Abracei e chorei o Daud, meu irmão mais velho. Gente de cidade é insuportável, não pode ver um lugar bonito e iluminado – como é o Museu do Olho do Niemeyer – que quer ficar ali na grama, deitado olhando o céu.
Segui a Rê para onde ia. O sobretudo azul e o sorisso mais cintilante da festa. Eu estava feliz como pinto no lixo. Pra contar meus motivos exatos, teria que contar “a verdadeira história da turnê”. Cuja escrita já está sendo providenciada, no melhor do gerundismo. Aguarde!
A gente chegou tarde, o sol tinha ido, mas estávamos com a moral da tropa tinindo. Conforme prometido, lá estavam os nomes na lista de entrada e avistei a querida Dani Volcov andando pra lá e pra cá (admiro tanto o trabalho dessa mulher). Entramos, ganhei o abraço da Dani e um borrifo de spray de beleza, te juro. Pegamos os copinhos e o primeiro brinde, alguns de Jan Kubis, alguns com um dos muitos tipos de Petroleum. Não fizemos selfie. Nem precisa, quem iria esquecer?
Aos poucos, fui encontrando os rostos de cervejeiros conhecidos. Mais abraços, papos e planos sobre o Butantan e Marechal Food Park em São Paulo, onde faço a curadoria das cervejas artesanais (o que, além da paixão, explica as relações amigáveis e necessárias entre cervejarias e a turnê).
Demorei pra avisar o Murilo, cervejeiro da DUM, anfitrião da festa, com os cabelos nas costas, gesticulando com o braço tatuado e já reclamando nem sei do quê. Só conseguimos conversar direito depois, escutando histórias cabulosas duma casa de avó do amigo. Encontrei o Luizinho, também da DUM, cuja mãe fez um ragu cheiroso e acolhedor que comemos às colheradas a la miolos frescos.tarsi-gonza
Qualquer preocupação minha sobre se meus companheiros de jornada iriam aproveitar a festa se desvaneceu. Diante das mais de 70 torneiras de chope, dos nomes mais diferentes, cores e cheiros, riam e faziam brindes. Era o grande dia de ir de taxi e deixar nosso motorista, Fred, ter a folga na atribuição e beber conosco. Jeanne se encontrou com uma porter. Renata fazia perguntas e passava por aquela surpresa boa de contar pra própria pessoa que fez aquela cerveja o “curti muito!”. Gonza e Tarsila tiraram fotos como astronautas. Numa, a Tarsi dá um bocejo e passa pela misteriosa experiência especular de não conseguir mais olhar a foto sem bocejar.

Difícil foi ir embora. ‘Olá, eu sou o chato’ do segurança simpático não amenizou a fissura de pegar o mais um último copo de Jan Kubis. Também não queria dar tchau pro Murilo, não queria o fechamento, a despedida, o começo do retorno. Me abraçou e perguntou o que a gente ia fazer amanhã, respondi que era comer barreado em Morretes. Ele não teve dúvida e foi contar aos outros Escritores na Estrada que ia junto!
Como a Renata voaria para o Rio para estar com sua filhinha, tinha um lugar vago na van e parecia perfeito. Fiquei feliz em adiar despedidas. Ainda festejamos noite a dentro (no caso da Tarsila, bocejamos) na casa do Ricardo, com as garrafas de Perro Libre que trouxemos de POA.

tarsi
bocejo especular

Pela manhã, o acordar é aquela bagunça arrastada e a palavra mágica “postais”. Ninguém sai se não escrevermos os 70 postais de recompensas do Catarse. E bora rir com as frases mal humoradas do Daud, com os números fora dos quadradinhos da Ana Erre, lembrando de tantos amigos e pessoas queridas.

Agora tem o pedaço de história que a Renata não sabe, pois ela já tinha partido rumo aeroporto: durante a missão postaica, recebo mensagem do Murilo pra saber do barreado. Daí descobrimos o furo do plano: decidimos voltar pela Graciosa. E não conseguiríamos o deixar de volta em Curitiba. Fred, Horse Spice, me desenha um triângulo com as mãos pra explicar as rodovias. Não tinha muito jeito. Pensamos confusamente pensamos. Era abortar missão Murilo-na-Van. Dei o recado chateada. Saber perder é uma das artes majestáticas da vida.
A Renata pediu pra alguém escrever sobre a festa. Acho que diria o seguinte

: tem aquele lance de dizer que beber champagne é beber estrelas. É estranho te explicar, mas te digo que não era nada além de cerveja. No entanto, bebíamos estrelas distraídos.

 

(Posto da estrada, já em Itapecerica da  Serra. Perto de São Paulo, “Mordor” como carinhosamente a chamamos. 3G tinindo. Mordor tem lá suas vantagens. Nem reviso, pq a vontade é de parar de escrever, pois agora é passado).

 

PS.: Rê, a Van sem ti tem menos umas 8 pessoas. Te amamos.

Um pouquinho de tristeza

Passamos um dia maravilhoso em Morretes hoje. Mercê de nosso novo amigo, Guilherme Gontijo, grande poeta, professor de latim em Curitiba e tradutor rico. Temo falar demais e expor alguém que, se não é tímido, parece viver de maneira reservada ― o que, também, pode ser unicamente nossa fantasiação sobre um certo modo de viver que não tem necessariamente qualquer coisa que ver com reserva. É um pequeno punk pônei, em resumo. Sua filha é uma graça, além de malandra. Tiozinho bonitinho foi o apelido que me impingiu ― junto com sua amiga inseparável ― o que está em algum lugar entre uma declaração de amor e um desprezo sobranceiro, os quais, se isoladamente não são atitudes estranhas a crianças e gatos, surpreendem pela ambiguidade precoce, maliciosa, irônica.

Isso, junto com a doçura do pequeno poeta italiano de 1 ano de idade que é seu filho, e de sua esposa, a Fernanda, mais a companhia dos tantos amigos, os vizinhos, que vieram para o barreado, prato típico da cidade, tão esperado, e que tivera de ser suspenso no domingo passado, na vinda, por circunstâncias pesarosas, fizeram com que esse convite, depois da ótima leitura que fizemos juntos ontem, na Livraria Arte & Letra, em Curitiba, se tornasse uma surpresa imensamente bem-vinda. Assim foi que acordamos meio de ressaca, depois da maravilhosa festa da Cervejaria DUM, ontem à noite, no Museu Oscar Niemeyer, também dito Museu do Olho, empolgadíssimos, ansiosos por ir a Morretes e conhecer o lugar onde vivia essa pessoa tão carinhosa, tão generosa, que é o Guilherme, e não menos que isso, conhecer seu lugar de estudo, e talvez obter uma resposta à pergunta que depois lhe fiz: como você trabalha?

Eu faço uma coisa por dia. Acho que essa talvez seja, se fosse possível resumir em uma frase toda nossa conversa, a resposta. Mas, fizemos tantas coisas! Ele nos contou sobre a casa, o riacho que passa lá atrás, as frutinhas chamadas inphoto_2015-07-27_00-01-31hotingas, que talvez virem uma boa cerveja, como ele nos disse que preparou uma pimenta com elas; entramos no riacho e, na volta, ele nos mostrou a fruta do urucum, e as sementinhas, que esmagadas, soltam uma forte tinta laranja, com a qual pintamos o rosto, como guerreiros famintos… ele próprio conseguiu o tom avermelhado, recobrindo a tinta com várias camadas; a experiência faz diferença. E as cachaças! Cachaças da região, curtidas com frutas e cascas de árvore e outras partículas vegetais que eu não pude identificar, mas não de maneira descuidada, propositadamente grosseira, mas cuidadosa, artesanal, resultando em bebidas que lembravam vermute, conhaque, uísque… depois um doce de banana, nossa! Comemos muito muito muito, realmente. E a conversa, o ar, o sol… A verdade é que fizemos uma coisa nesse dia. A volta a São Paulo, então, foi só isso, a volta a São Paulo, depois de uma tarde deliciosa. Depois de uma semana deliciosa. Depois de uma viagem deliciosa.

 

E agora, às onze e meia da noite, depois de uma parada no caminho, pra esticar ― impressionantemente, minha coluna suportou super bem a viagem toda, mesmo dormindo em lugares variados, conquanto confortabilíssimos, mesmo com a Van Poesia apertada, e quase sem exercícios, já que estávamos na pegada ― e mijar, já que nenhum de nós mijou por um mês, e até comer, porque a boa comida não apenas satisfaz o apetite, ela também o amplia, paro pra pensar nessa tristezinha, de sentar com o computador aberto aqui e tentar escrever sobre o que vivemos… tristeza porque, nisso, obrigo-me a admitir que é vivido, passado particípio, já não tanto presente. Já começa a fazer falta…

Melencolia I - Albrecht Dürer
Melencolia I – Albrecht Dürer

Mas não nos paralisamos, não! Temos dois planos em andamento. O primeiro, uma oficina. Nossa oficina, o Curto Circuito Literário, deu muito certo. Estamos preparando uma oficina, não só pros outros, mas pra nós mesmos. Pra trabalhar. Pra deixar não só o que ensinamos, mas o que aprendemos, o que ouvimos, nessa viagem, dos outros escritores, tudo isso decantar em nós. Leva um tempo. Isso é um.

O outro, falar do amor. Porque essa foi uma viagem muito amorosa. Com toda a ambiguidade que o amor carrega, seja o das crianças, dos gatos, ou dos poetas. Que é do nosso estilo. Do meu mau humor, do meu preconceito, minha intolerância, que eu tive que superar minimamente pra poder estar com essas pessoas, e que eu queria tanto. E de todas as coisas que, tratando-se de amor, também dizem respeito à saudade, ao tesão, às carências, ao desamparo, às paredes finas, às camisinhas que vieram na mala, às paradas nas churrascarias na estrada, aos pneus furados, às hospedagens perdidas, à falta de gasolina, ao apagar o fogo com gasolina. Mas para isso o relato cronológico não basta. Então é um plano. Vamos ver como daremos tratamento a ele.

Curitiba: o que teve?

Teve festa, teve amor, teve escritores, teve curto circuito literário, teve carne de onça. E teve SOL. Juro. Teve sol.

Chegamos em Curitiba mortos de frio e fome. Eu e Ana sequer tínhamos tirado os pijamas que tínhamos dormido na noite anterior em Porto Alegre. Ricardo Pontoglio, nosso anfitrião, nos recebeu no Bar Baran. Bar recomendadíssimo por várias pessoas pela seleção de cerveja e a elogiada comida ucraniana. A cozinha fechava 23:30. Olhamos no relógio: 23:33.  Não existiu negociação possível. Frustrados, molhados, esfomeados, esfarrapados tentávamos nos agarrar ao último fio de bom humor brincando com uma tiara de chifres carnavalesca que era a metáfora perfeita de todos nós: vistosa porém um pouco despencada pelo uso. Ricardo nosso anfitrião conseguiu deixar a moral da tropa alta nos levando até a Mercearia Fantinato. A recomendação do garçom simpático era a Carne de Onça, iguaria curitibana que consistia em carne de vaca crua temperada com páprica, pimenta do reino, cebola, cebolinha, ou seja: gostoso. Uma parte da mesa torceu o nariz, mas eu, Fred e Daud demos um salto de fé e apostamos. Experiências gastronômicas fazem parte de qualquer viagem que se preze – Indiana Jones comeu miolos frescos, viu Jeanne? – e logo nosso entusiasmo curioso contagiou a mesa.

No meio, Ricardo, nosso anfitrião corajoso.
No meio, Ricardo, nosso anfitrião corajoso.

Finalmente estávamos de barriga cheia e prontos para apagar. Ricardo foi o louco que nos recebeu todos na mesma casa. Foi a primeira vez que isso aconteceu na turnê. Jeanne e Fred num colchão inflável no átrio, Daud e Ricardo no segundo andar, Gonza e Tarsila no sofá do primeiro andar acompanhados por mim e pela Ana que estávamos no chão com os sacos de dormir. Estávamos super cansados, a viagem de PoA foi muito longa – teve engarrafamento, pneu furado, chuva. Demoramos cerca de 13 horas no percurso. E claro que com isso, acordamos atrasados para nossa leitura e encontro com escritores na Arte & Letra.

Simplesmente ninguém colocou o celular para despertar e a coisa toda começou a ganhar contornos épicos com a gente se enfiando na van poesia como loucos. Deu tudo certo. O lugar era lindo de morrer, uma casa de pedra, um jardim que a cada ventinho fazia folhas amarelas caírem sobre nossas cabeças. Alguns poetas e escritores já estavam lá, o Thiago tinha deixado todo ambiente bem acolhedor. Para abrir os trabalhos cantamos trechos de músicas que cantávamos na estrada. A escolhida foi “Deixa Acontecer Naturalmente” do Grupo Revelação. Foi bem divertido. Fizemos uma breve leitura de nossos livros e dos livros dos nossos convidados. Estavam presentes Andreia Carvalho, Guilherme Gontijo, Ismar Tirelli, Lubi Prates, Marcia Pfleger, Mari Quarentei, Mariana, Ricardo Pontoglio. Se eu esqueci alguém por favor se manifeste para eu poder incluir. O que teve depois foi um dos momentos mais gostosos da turnê, um bate papo sobre a cena literária da cidade, diversidade, processo criativo, mercado editorial. É delicioso poder dialogar com nossos pares, vislumbrar frestas, aparar arestas, construir algo através dessa troca. Fred e Gonza super atentos na funça, captando tudo que podia ser captado.

Escritores na Arte & Letra
Escritores na Arte & Letra

Almoçamos na correria e seguimos para o espaço Das Nuvens que receberia o Curto Circuito Literário. A Keiko além de nos receber no espaço ainda providenciou os cartões postais que iríamos mandar de curitiba. Muito agilizo. O espaço era inspirador e estava lotado. Grupo diverso, atento, interessado. Ana fez as apresentações, eu comecei com a Trajetória do Herói, seguida pela Jeanne com o Leia Mulheres (Suave Pantera não me sai da cabeça), Ana com sua oficina anti engavetamento, Tarsila que botou a galera pra se mexer e Daud com a Escrita do Inconsciente, que sempre faz os oficineiros fazerem Ohs e Ahs de espanto. Ao fim da oficina autografamos alguns livros, e fizemos uma visita ao espaço e entendemos perfeitamente o nome do lugar. É um skyline maravilhoso de Curitiba com as cores de um pôr do sol de tirar o fôlego. Espia só.

Nas nuvens do Das Nuvens.
Nas nuvens do Das Nuvens.

Depois partimos para o Dum Day. Mas isso é outra história que espero que um dos meus companheiros tenha a generosidade de narrar.

Eu e Tarsila mandamos beijinho no ombro para quem perdeu.
Eu e Tarsila mandamos beijinho no ombro para quem perdeu.

 

 

O Rio, de volta ou Derramamento emocional

Em estado alterado de percepção e consciência devido a degustação dos mais finos néctares em forma de cerveja no Dum Day em Curitiba.
Em estado alterado de percepção e consciência devido a degustação dos mais finos néctares em forma de cerveja no Dum Day em Curitiba.

Enquanto meus queridos e intrépidos Escritores Na Estrada seguem para Morretes para encontrar o Gontijo e comer um barreado eu me enfurno no caos do aeroporto de Curitiba para voltar ao Rio de Janeiro.

Eu, Daud e Gontijo curiosamente conversamos dias antes na Arte e Letras sobre as limitações de algumas mulheres pós maternidade em se deslocar geografica e metaforicamente sem os filhos. Apesar de me identificar com isso, o nascimento da Liz foi tão libertador para mim que só depois do parto eu me senti autorizada como autora. E continuamos desdobrando a conversa dançando nessas dualidades.

Acontece que eu precisei efetivamente voltar ao Rio para ficar com a minha filha e não terminar a última parte da viagem e peguei esse vôo. E apesar de ter ficado triste, ambivalente e um pouco angustiada, no fim eu gosto como a maternidade se integra e vaza para minha vida. Eu não deixo de ser mãe da Liz quando estou longe dela. E uma outra maravilhosa revelação é que eu não deixo de estar com vocês, queridos escritores, mesmo estando aqui. Liz dorme ao meu lado, e eu cheiro o cabelo dela avidamente, dou uma paradinha e escrevo para vocês.

Li atentamente o Miolos Frescos no avião, Jeanne. Li como se nunca tivesse ouvido antes você o ler. Li como se nunca o tivesse lido. Quis pegar teu livro na mão como objeto inédito, como conjunto. Seu livro é tão tão lindo, querida. Sua estréia é tão madura, consciente. Eu sinto de forma palpável a permanência dos seus poemas. A posteridade. O posfácio do Dirceu não tem um único excesso – ele é preciso e sabe exatamente o que está falando. Você é tudo aquilo ali. E mais. E esse mais que eu descobri na viagem é muito bom. Tua voz calminha, seu desajuste temporal, sua figura que não precisa de uma única violência impositiva para se fazer notar. Estou com você comigo aqui.

Daud, grumpy grandpa, eu sempre gosto de ser a pessoa mais desinteressante da mesa. Ter ficado na casa da Rita em Floripa e convivido com você naquela cápsula me fez ter certeza que essa é uma preferência sábia e acertada. Suas referências e formação são tão diferentes das minhas que às vezes uma conversinha besta me dava uma perspectiva tão nova, tão surpreendente que eu esquecia o que estava pensando anteriormente. Obrigada por não ter cansado da função de olhar no olho do dark side of the moon por nós, que estávamos na maioria do tempo eufóricos o suficiente para esquecermos que existia também melancolia na estrada.

Aí vem a Tarsila, com a coragem de fazer perguntas. E fazendo perguntas a respeito dela mesma, transitando no terreno difícil da dúvida nos fez a todos fazer perguntas sobre nós mesmos. Você empreendeu a jornada mais clássica, você é nossa heroína. Era tanta doçura em cada pequena coisa, no trato, esse seu comportamento de praticar a empatia como se ela fosse a coisa mais natural do mundo e não fosse necessário nenhum esforço para isso. Navios e Foguetes me comoveu e não só pelo conteúdo (tão delicado, a aranha, a teia), mas também pela ponte que você atravessou para realizá-lo. A feitura na mão, na unha. Gosto de abandonar a metáfora e imaginar como foi literal essa feitura manual, noite adentro.

Ana, Aninha, Anuschka, Ana Ruth, Fox Spice: não é à toa que você tem tantos nomes, né? Não é à toa. Toda vez que você falava sobre a Diva, e aquela sua entonação ambígua entre irônica e séria, eu não conseguia deixar de pensar que se existe a Diva ela tinha encarnado e se manifestado na sua face Punk Pônei bem ali na nossa frente. Essa sua força realizadora é maravilhosa, parece mesmo um desastre natural, avalanche, inundação. Duvido que exista alguma coisa que você não possa, e cada desejo secreto ou exibido que partilhamos eu tenho certeza, certeza, nem uma sombrinha de dúvida que a Diva vai iluminar. Temos a prova: as nuvens sumiram e o sol apareceu em cada cidade onde colocamos nossos pés.

Gonza e Horse Spice: amo vocês muito. Se existe uma regra de alívio cômico em viagens vocês fizeram a preza com perfeição – além da funça pesada que é documentar esse caos que chamamos de turnê. Obrigada. :-)

Queridos,

Baby doll de nylon combina muito muito muito com a gente. Até nossa próxima parada.

O escritor não tem somente o seu espírito

No carro, vivenciamos grandes experiências. Porque o carro pode, sim, ser um lugar. A Van Poesia tornou-se um lugar, desde que a ocupamos. E nesse lugar, temos encontros. Depois de ter publicado o texto de ontem, no blog, o pessoal pediu pra que eu o lesse, em voz alta. E o ler em voz alta proporciona uma experiência diferente do ler em silêncio.

Historicamente, o ler em silêncio vem depois do ler em voz alta. A reflexão que essa experiência permite, o voltar-se para a interioridade, é testemunhado por Santo Agostinho, que relata observar, com espanto, um monge lendo textos bíblicos em silêncio. Mas hoje, quando tudo é tão barulhento e o ler se torna uma atividade solitária, silenciosa, a reflexão passa a ser o normal, o regular, o corriqueiro. Então, ler em voz alta passa a ser o que nos põe num lugar diverso, onde podemos escapar às nossas próprias reflexões, necessariamente limitadas, e alcançar a experiência de outros, o espírito de nossos amigos.

Também por isso lemos em silêncio, na verdade, para ouvir os mortos ― e todo autor é, em certo sentido, morto. E as reflexões que tenho feito, assim como o texto que apresentei na quarta, têm por base algumas dessas escutas. Para a viagem, tive o cuidado, de outra forma raro, de escolher não os livros que estavam atrasados, não os que estavam emperrados, mas dois, e somente dois, que servissem de guias para a investigação que eu queria empreender. Tudo isso vem muito a calhar.

Os livros, portanto, eram os seguintes: Homens interessantes e outras histórias, do Nicolai Leskov, e A pornografia, do Witold Gombrowicz. O primeiro não cheguei a abrir, o segundo estou terminando. Leskov, porém, é um autor que já vinha lendo, a partir de um outro livro de contos, publicado aqui sob o título A fraude e outras histórias. Ele é, também, creio que já mencionei isso aqui, o autor que Walter Benjamin escolheu como epítome do narrador, considerando essa uma arte em extinção. Minha aposta é contrariá-lo, em primeiro lugar: não ler Leskov como um documento histórico, ou modelo de uma época, por exemplo como Proust, mas de fato para aprender com ele, como ele faz.

Meu conto, de quarta, é o documento dessa tentativa. Eu sentia que ela fracassava, por isso o texto de ontem. Mas, fracassava em quê? Foi a Renata quem sacou.

Fracassava em que a narradora, sendo mulher, me induziu, o que não era ruim, a princípio, a adotar uma perspectiva confessional, como se buscasse o íntimo, o mais íntimo, da experiência. Não uma moral qualquer, por exemplo, mas a experiência na sua crueza, ou na sua sensibilidade, características que, de resto, como bem dito pela Jeanne em sua oficina, são, às vezes pejorativamente, atribuídas às mulheres autoras. Nisso, creio, não fracassei, provando, tangencialmente, que isso não é uma característica das mulheres como escritoras, mas um lugar possível da literatura, como outros, e se é verdade que aos homens escritores este lugar não está vedado, às mulheres não está prescrito.

Tal experiência, íntima, confessional, não menos assim por não ser a minha, ou por não poder prová-la como sendo a minha, senão pelo escrito ― mas ela não é tão única assim que o texto se valesse apenas por ela ― é o que tentei denominar ali como “uma segunda tragédia”. Por que segunda? Como a Segunda Troia, de W. B. Yeats, ela não opera singularmente. De novo: não é tão única assim que o texto se valesse apenas por ela. Apenas em sua conexão com a primeira tragédia, a tragédia comum, dos alagamentos e desabrigados em Porto Alegre, ela poderia se alçar à categoria de uma experiência comum, ou seja, não que não seja comum, ao contrário, já afirmei que não é de forma alguma única, mas que pudesse ser comunicada, que estabelecesse alguma comunicação entre essa experiência privada, íntima, confessional, e esta outra, coletiva, histórica, geográfica.

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Eu e Fred trocando o pneu a caminho de Curitiba

Isso é o que alcançam tanto Leskov quanto Gombrowicz. De fato eles o fazem de maneira explícita, evidente, e o realizam. Não que a conexão, ela mesma, entre as duas tragédias, ou dramas, ou comédias, não que esteja a cada vez necessariamente óbvio, ou evidente. Mas essa intenção claramente existe, e talvez o valor intrínseco das suas obras esteja, justamente, na emersão repentina dessa conexão, que no meu conto, evidentemente, não ocorreu. Ou, talvez, tenha ocorrido?

Seria preciso relê-lo, com essa perspectiva, reler O narrador, do Benjamin, para entender os caminhos pelos quais essa conexão pode se efetivar, e aprender a identificar quando ela ocorre, quando não, e por quê.

Um conto deve dizer algo sobre alguém, mas deve dizer algo para alguém. Essa conexão, entre as duas tragédias, é necessária. É absolutamente necessária.

Sobre meu texto de quarta

Há uma certa decepção que acompanha toda realização. Gombrowicz assim o descreve:

Fiquei sozinho, decepcionado, como acontece cada vez que alguma coisa se realiza ― pois a realização é sempre tumultuosa, insuficientemente precisa, privada da grandeza e da pureza do projeto. Tendo cumprido minha tarefa, sentia-me subitamente desempregado ― que fazer? ―, literalmente esvaziado pelo evento que eu havia provocado. A noite caía. De novo, a noite caía. (W. Gombrowicz – A pornografia)

O mesmo ocorre, por exemplo, depois de publicar alguma coisa. Depois de dar uma aula. Lembro ainda quando publiquei meu primeiro poema. Tinha a impressão de que nunca mais escreveria algo à altura. Um equívoco, claro, porém faz-se preciso algo para quebrar o encanto.

Quando lidamos com um texto mais cuidado, sobre o qual já nos debruçamos mais de uma vez, costumamos conhecer suas qualidades e defeitos ― seus pontos fracos ― com mais intimidade, a permitir ver o que nosso próximo texto exigirá como superação. Sob outro aspecto, reler um texto algumas vezes faz-nos ver o que ele mesmo exige de si, para que prossiga, para que produza uma continuação, para que revele seu charme. Não assim com um texto recém escrito. Os contos têm, ao menos para mim, esse efeito: se não o realizo por inteiro, já não posso terminá-lo. Por outro lado, se o concluo, mal posso avaliar seu alcance: sou mais cego que aquele que o lê, pela primeira vez, e não sabe como se realizou. Por isso, disponho-me, agora, a analisar como fiz o texto que apresentei quarta-feira, no Mondo Cane Bar. Creio que estarei me expondo bastante, mas creio também que devo algo aos que nos levaram para lá.

Como dito, achei que não cabia ler um texto pronto. Um poema do meu livro, por exemplo. Quando começamos o projeto, pensei em levar poemas novos; não inéditos, necessariamente, mas que pertençam ao próximo livro, que planejo há tempos, sem nunca ter reunido seus poemas. Mas também queria ler uma prosa, achei que funcionaria mais. Então, chegando em Porto Alegre, já acolhido, confortável, com cobertor e aquecedor ligado ― obrigado, Marco e Ana Narvaez! ― ― esqueçam essa coisas de beatniks, nenhum de nós tem grande apreço por esse tipo de literatura, a não ser por aquilo que, neles, era periférico, e isso não por qualquer desapreço ao que seja canônico ― sentei-me à mesa e comecei a escrever, sabendo que teria apenas a quantidade de minutos disponível até o início da leitura. Não havia muito espaço para planejar.

Meu texto, então, começa tentando nos remeter ao agora ― nossa chegada a Porto Alegre, as notícias dos photo_2015-07-24_21-10-54alagamentos, os desabrigados ― ao mesmo tempo que nos remete àquilo que eu sabia que não veríamos ― os alagamentos, os desabrigados, a tragédia que isso representava, e que conhecemos tão bem, os que vimos de São Paulo. Para manter algum interesse na história, ou seja, para que ela nos tocasse num nível pessoal, já que a tragédia dos outros só nos toca quando podemos nos identificar com seus protagonistas, anuncio uma segunda tragédia, que deveria afetar minha personagem. Nesse ponto, decido, também, adotar uma personagem-narradora mulher, uma forma de me afastar ligeiramente dela, a fim de descolar minimamente minha própria chegada à cidade, da qual tirava o cenário, a inspiração e o caráter, da história que pretendia contar.

Mas que história era essa? Eu ainda não o sabia. Comecei pela preparação, sem saber a que levaria. Não é assim que eu começaria um conto, se fosse planejá-lo. Mas eu escrevia sem plano, de modo que preparava, anunciava uma tragédia, sem saber em que ela consistia. Era o preço a pagar por escrever um texto em cima da hora.

Então me recordei das redações de escola, quando sabia ser preciso escrever um certo número de linhas, sabia ter um prazo limite para escrever, e tinha total liberdade quanto ao resultado. Minhas redações eram, via de regra, consideradas competentes ― suficientes ―, então eu nunca me preocupava muito. Desta vez, era parecido: se o texto saísse ruim, eu apelaria para o plano B, leria os poemas já publicados, terreno seguro. Era parecido também sob esse outro aspecto: eu escrevia sem ter o quê, apenas para escrever, para cumprir uma tarefa ― ainda que o fizesse com gosto, com ímpeto de obter um bom resultado ―, mas sem ter sobre que falar, sem ter, a princípio, algo a dizer. Fazia o caminho ao caminhar. Como boa parte da minha escrita, que tem, então, percebo agora, essa raiz comum, as tarefas escolares da aula de redação.

Não, diferente deste texto, eu não partia sequer de uma ideia, partia simplesmente de um tatear. Quando concluí a primeira parte, a preparação realizada, pensei em parar: eu sei que este texto não está levando a lugar nenhum, mas sei que a preparação está adequada. Sei o que se diria, se eu parasse aí: que dá vontade de saber como termina. Mas, bem analisada, era uma preparação incompetente, e dessa incompetência nasceria o julgamento, a instigação, que tornaria o texto supostamente interessante: dá vontade de saber como termina. Porque se intuiria que não há como terminar, não há caminho.

Ao mesmo tempo, garantido pelo terreno sólido dos poemas que teria para ler, caso tudo desse errado, ousei prosseguir. Além disso, sabia que se parasse não poderia prosseguir, depois, que então minha explicação de que se tratava de um texto em preparação, um trecho, a ser concluído, não passaria de uma mentira, uma mentira consciente, inconsequente… achei que não seria uma chegada digna em Porto Alegre. Decidi continuar.

E a cada passo da narrativa, percebia que não havia mesmo como concluir a história. Simplesmente, a preparação não havia sido suficiente, não havia pistas, não havia ambientação, não havia profundidade psicológica, não havia conexão entre a ação, a personalidade, e os fatos que serviam de pano de fundo ou mesmo justificativa para a história ― que a tornaria relevante para nós. Nada disso. Portanto, não havia como terminar. Nada que acontecesse poderia se ler como uma tragédia, como anunciado. Talvez, uma grosseria, talvez, uma decepção, talvez, uma frustração. Mas não uma tragédia.

Conforme aproximava-se o momento da leitura ― a Ana e a Jeanne já haviam se apresentado ― eu precisava urgentemente de uma solução. Costumo escrever quase sem rasuras. Recorto, colo, acrescento ― às vezes corto ― mas sempre depois, no computador, quando releio, falo em voz alta, experimento o texto impresso. No caderno, quase nenhuma rasura. Não os últimos dois parágrafos: tinham de ser precisos, pois tinham uma função precisa: a de esconder o terrível fato, de que eu não tinha uma história, como, de resto, quase nunca tive.

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E assim fiz. A pergunta que se coloca, então, é: meu não ter história, mas haver conseguido (será?) ocultá-lo, faz com que eu tenha uma história? Será que houve espaço, no conto, para que o leitor complete minha falta de experiência com sua própria, fazendo, assim, com que meu vazio seja preenchido? Ou, então, a persona de escritor de que, escrevendo, me faço revestir, é suficiente para que a não história seja tomada por uma história? A leitura em público é muitas vezes suficiente para nos fazer ouvir a nós mesmos ― é o que pareço fazer aqui ― mas o que terão os outros ouvido? Ainda não pude constatar. A fatídica pergunta ― o que você achou? como foi? ― dificilmente alcança qualquer resultado. Não obtive qualquer resposta que me desse alguma pista. O que talvez seja, por si só, um indício: não alcancei ninguém. Mesmo que ninguém esteja pronto a admitir isso ― por generosidade, certamente. Que não me aproveita, como escritor, senão como um amigo um pouco mais contente.

Então minha decepção já não é tanto pelo realizado, mas por não encontrar meios de verificar se de fato o realizei. O que pretendia fazer, com este texto, mas também aqui verifico não ser possível. Por outro lado, isso é bom, não recaio sob a paralisia da realização. Continuo a escrever. Faço perguntas: se esse texto, feito às pressas, não funciona, o que é preciso para que funcione? Talvez não tanto ele, mas outro, um próximo. Como resolver um texto que é construído dessa forma? É possível fazê-lo? Ou essa é uma forma equivocada de construir um texto, será preciso mais preparação? Ou, ao contrário, será preciso, nesses casos, reconsiderar o que chamamos de “resolver um texto”, tomando outro resultado, diferente, sob esse título?

Nada mais digo, senão isto: esta viagem tem valido para me reconectar com este tipo de investigação. Ela foi necessária; absolutamente necessária.