Um pequeno exercício de desidentidade

Logo que entrei na Feira Plana, que aconteceu no Museu da Imagem e do Som em São Paulo no último fim de semana, tropecei neste livro, que já tinha ouvido falar na Internet. Eu sinto que alguns livros voam na minha testa como aves de rapina.

Acho interessante que cada livro parece ser um exercício de identidade do autor, e este logo pela capa já te diz: não-eu.

nao eu foto 1
Bonito pensar em uma identidade que fuça para além.

A capa foi feita por Dulcinéia Catadora, me lembrava algo que eu já tinha visto em algumas plaquetes editadas pela Eloisa Cartonera, uma editora argentina que faz capas em papelão feitas por uma cooperativa. Fiquei bem feliz de ver alguém fazendo isso também no Brasil. E posso ter entendido mal, mas me pareceu que não foi através de nenhuma editora não, foi na unha mesmo. Aliás, outra coisa bem bonita que se vê bastante na Feira Plana.

(Depois que a gente começa a aprender a diagramar, fuçar livros jamais será novamente apenas sobre o conteúdo. E a Feira Plana, especialmente, é um banquete neste sentido.)

Eu conheci o trabalho do Marcelo Ariel pelo Facebook – que pode ser uma mídia bem feliz e interessante se você encontra pessoas que a usam de uma maneira esperta. Fiquei bem contente de tropeçar num livro dele, assim logo de cara, com as fotomontagens surrealistas e as grandes perguntas existenciais que eu já tanto gostava.

nao eu foto 2 nao eu foto 3
É um livro bastante curto, no qual escuto uns ecos, umas noções duma psicanálise que apenas começo a conhecer, e aqui é como se ela fosse usada como massinha de modelar, como se a gente pegasse a filosofia e martelasse ela numa mesa de até que vire algo que sirva pra quando estivermos na frente do espelho, no meio da madrugada, nas tais das horas que não passam. Um utensílio que possa, ou que tente dar conta (temos preguiça às vezes) das horas em que nos pegamos indefesos nos limites da proteção do nosso eu, que desconfiemos do que haja além, um universo opaco do qual criamos um reverso imaginário, um holograma de nós mesmos para conseguir navegar.

– ou melhor, um inutensílio, como alguém que já não me lembro quem foi descreveu a poesia. E importa a identidade do poeta o tempo todo? Poesia tem dessas, os termos vão circulando e a autoria vai se diluindo na matéria escura da nossa memória, que mistura as lembranças de sonho e de realidade.

Levante a mão aqui quem nunca acordou de madrugada, levantou-se, foi para a janela e sentiu que se:

nao eu foto 4

inviolabilidades

para a rê
.
.
dentro dum quarto adentro,
é um saber que se viola,
a corda dos segredos se solta.
tem coisas que só se sabe na língua,
no sal, nos cantinhos,
o gosto de mordida ardida
das verdades, ah, as verdades,
dentro dum quarto adentro.
.
pq tem coisas que só se sabem peladas
.
o que te move é
o que te move

Hospedo uma bela poeta argentina na minha casa

A poeta argentina Nurit Kasztelan está na estrada também. No Brasil. Na casa da Renata no Rio de Janeiro. Em breve, na minha em São Paulo.

Escrevi sobre a livraria que a Nurit mantém em sua casa em Buenos Aires: Mi Casa, librería atípica – projeto incrível. A Renata escreveu um poema. Nesse toque de midas louco que hispanoablantes possuem. Extrair uma vontade de escrever lá de dentro.

Aí vai o poema da Renata que tanto gostei. Não tem título. Nem itálicos.

*   *   *

.

Hospedo uma bela poeta argentina na minha casa. Ela não se importa com a chuva.

::

Ontem em um café em Copacabana, fui encontrar uma amiga grávida. Gringos inconformados, me perguntam em inglês quando a chuva vai parar.

::

Assumo a minha condição de oráculo e respondo: aparentemente nunca.

::

É verão, mas já vivi invernos mais quentes no Rio de Janeiro. Não que isso queira dizer alguma coisa.

::

Cariocas fantasiados com mangas compridas e botas não desconfiam que a culpa é toda minha. Eu que engoli o sol e deixei o céu branco. Não consegui evitar.

::

Devolveria o sol, se pudesse.

::

“Lógica de los acidentes” é o livro que a poeta argentina escreveu. Um acidente. Como comer o sol.

::

Um acidente. Como o homem deitado de bruços com as pernas esticadas para fora dessa cama de hotel.

::

En Méjico me contaron
de una mujer
a medida que molía el maíz,
su brazo iba desapareciendo

Soy como esa mujer
Que se muele a sí misma
me escribo
y desaparezco

::

Ao menos as folhas do Parque Lage se alegram. Posso sentir enquanto caminho, o ondulante movimento dos vermes felizes debaixo da terra.

::

Corro até a esquina com o cigarro na mão. Abordo os gringos distraídos e prometo que até sábado vai melhorar.

Delmo Montenegro: Recife, No Hay

Esses dias me caiu na mão um livro do Delmo Montenegro: Recife, No Hay. Nunca tinha lido o Delmo, embora ainda lembrasse da sua figura grande, calma, que me faz pensar numa montanha. Imagino que, para ele, estar em São Paulo seja um pouco como estar entre os selvagens: mas ó, como ele sabe se portar entre selvagens. Gentil e tal, fico na incumbência de procurar algum sinal disso em sua poesia: um segredo, um truque, um guia.

Não é assim que vocês leem poesia? Procurando um caminho que já foi trilhado por outra pessoa, e que talvez você também queira trilhar? Acho que é assim que nós enfrentamos a poesia: os Escritores na Estrada. Claro que é essa minha forma de encarar, e esse o traço de identificação que me une aos outros; não sei mesmo o que eles diriam sobre isso. Não seguimos mestres, entre nós.

Seja como for: Recife, no hay. De maneira que encontro apenas pistas, como naquele filme do David Lynch. Por toda parte, tem-se apenas uma certeza: Delmo Montenegro was here. Tudo o mais parece aleatório. Ele joga para nós referências pacas, sem, é claro, fazer qualquer distinção entre as cultas e as populares, que isso seria grosseiro demais pra elegância da sua escrita, o que certamente não significa que facilite a leitura. Como quem cita o nome de ruas que ficam em lugares que você nunca visitou, ele vai mapeando suas amizades, seus amores, seus delírios, e você tenta acompanhá-lo, como quem sente que está prestes a testemunhar algo precioso acontecer.

Recife, No Hay, portanto, é o único título possível para este livro de poesia, algo raro, que denota a necessidade de tudo aquilo que se passa de maneira aleatória como a vida, diante de nós, seus leitores. Procuro um projeto, imaginando assim que um livro possa se constituir de um projeto, mas não neste caso, porque projeto não há, há ao contrário uma cartografia, nada menos que isso, feita de imagens e palavras “― não estamos falando de música, é claro”. Mas não do que ele leu, mas do que ouviu, o que torna tudo mais interessante: não se trata de alguém que leu sobre um país distante, mas de alguém que esteve lá. E daí, também, o paradoxal deste livro ter esse nome; porque aparentemente, esse país não há.

Sendo assim, creio poder dizer, também, que se trata, também ele, de um viajante. Mas ele, ao contrário deste, parece estar sempre em casa onde quer que vá.

Continuo lendo, já que não encontro aquele guia que gostaria de encontrar: ele só poderia ser guia em seu próprio país, mas isso já se exclui de saída, além de que não é o que eu poderia visitar. Como um koan budista, sua escrita se apresenta como um paradoxo: não se pode explicá-lo sem perder de vista o sentido, mas sem explicá-lo, tudo não parece um jogo alucinado? Bem, é o tipo de paradoxo que eu esperaria de uma montanha convertida em pessoa, se ela de repente ― e por que motivo, meu deus? ― se dispusesse a escrever o que se passa com ela. Mas se não explico, também não tenho do que reclamar.

PS.: Recife, No Hay foi publicado pela Companhia Editora de Pernambuco em 2013 e ganhou o Prêmio Pernambuco de Literatura.

Encontro em São Paulo!

Neste domingo, 13/12, a partir das 16h, receberemos, na Livraria, Bar & Café Patuscada, pessoas que acompanham os Escritores na Estrada em nossas jornadas e andanças. Um papo despretensioso sobre nossas viagens. Queremos compartilhar histórias, impressões, dar risada e dar abraços de final de ano. Puxem uma cadeira, aprumem a conversa.

O lugar não poderia ser mais bem pensado – a livraria, recém inaugurada, é do Eduardo Lacerda, quem capitaneia a Editora Patuá. O espaço pretende abrigar eventos culturais e tem um projeto aberto de crowdfunding para arrecadar fundos iniciais para colocar o projeto nos trilhos.

Fica na Rua Luis Murat, 40 em Pinheiros. Essa é a rua ladeia o cemitério da Cardeal Arcoverde. Assim, de ônibus é fácil de chegar pela Cardeal, Henrique Schaumann e Teodoro.

Estaremos lá a partir das 16h, sem muita hora para terminar.

Um grande abraço, até lá!

 

 

Português porteño

23135595859_8973a074d1_z

 

Conto de minha primeira viagem a Buenos Aires na última semana. Fui a trabalho, participar dos eventos de inauguração do escritório da Fundação Rosa Luxemburgo por lá. Os demais integrantes dos Escritores na Estrada estiveram comigo na palma da mão, mediados pelas wi-fi de cafés, praças, hotéis e na saudade.

23503614785_39f62f62c5_z
Madres de Plaza de Mayo, Casa Rosada ao fundo.

Bem, quando soube que ia pra Buenos Aires, a primeira pessoa que pensei em visitar foi o Cristian de Nápoli. Acho que o Cristian foi o primeiro poeta vivo hispanohablante que conheci de verdade. Isso já faz nove anos. Ele veio com o projeto da Eloisa Cartonera para a Bienal de São Paulo. Lembro ainda que o livro El Ring (Black & Vermelho, 2004) me causou bastante impressão. Encontrei-o ainda no Chile depois e muitas vezes em São Paulo, sempre organizando livros, eventos. Hoje o Cristian é grande tradutor do português. Enfim, era difícil imaginar uma Buenos Aires que não tivesse um alô pro cara.

Na lógica milongueira de idas e vindas, demorei para realmente tomar pé da cidade. Numa tarde de muita chuva, depois de ver as Mães da Praça de Maio e a saída da Marcha da Maconha que aconteciam vizinhas em frente à Casa Rosada, resolvi descer a Rua Bolivar com meus companheiros de trabalhos. Ensopados e risonhos como só estrangeiros sabem ser, chegamos a La Libre (Bolivar 646), livraria em San Telmo, onde o Cristian trabalha.

Vitrine da La Libre.
Vitrine da La Libre.

As roupas molhadas e os lamentos pelos resultados das eleições argentinas logo foram esquecidos pelo café brasileiro cheiroso, muitos livros de poesia expostos e os trabalhos mais recentes de tradução do cara: sua antologia premiada de Vinícius de Morais e um outro que fez agora, Cruz e Sousa: Prosas Selectas. Levei comigo ainda o livro de contos Darth Vader & Yo (Narración Imposible, 2015), depois digo o que achei.

A livraria tem muita coisa boa, de livros a plaquetes, projetos editoriais novos. Recomendo vivamente para quem estiver naquelas bandas.

23577965585_92520beba5_z
Joana e Zé em sua estreia na Feira de San Telmo, Colectivo Bu.

Tanto recomendo que, no domingo, na Feira de San Telmo, pertíssimo da livraria, conheci um casal lindo de poetas portugueses, que faziam sua primeira aparição na feira: Joana e Zé do Colectivo Bu. Logo recomendei que fossem lá, hehe.

A Joana e o Zé já moraram em Salvador e lançam esse projeto de divulgar poesia portuguesa em Buenos Aires. Armaram um cavalete, uma caixa e vendem heterônimos do Fernando Pessoa em envelopes caprichados e sorrisos na feirinha. Conheça mais o trabalho deles aqui. Ainda de San Telmo, só faltou mesmo conseguir tomar cerveja no bar Antares (Bolivar 491), recomendado por gente muito sábia das artesanais. Lotadíssimo. Ficou pra próxima.

.

EM BREVE: farei um post com traduções de poemas que escutei em uma leitura genial na livraria Mi Casa, projeto incrível capitaneado pela Nurit Kasztelan. A Nurit também é poeta e mantém uma livraria funcionando dentro de sua casa. Por lá, quem recebe as pessoas é uma gata persa lindíssima. Meu plano é solicitar aos poetas que leram alguns textos para que eu possa traduzir e compartilhar. Na melhor da vocação de atravessar pontes, espiar por um furinho no muro de Tordesilhas, que separa de forma triste tradições literárias tão bonitas.

Deixo vcs com a Orquestra Típica Sexteto Gato, que escutei por ali: ouça aqui.

..

P.s.: pergunta que não quer calar – será que a Editora Patuá estará ampliando o escopo dos negócios?

23495626091_8aa2c1b9cf_z

Flanerie Carioca & Grãos Imastigáveis

Depois de oito anos vivendo em São Paulo, volto a viver na minha cidade natal, o Rio de Janeiro. Fiquei com o meu coração literalmente partido, costurado com uma linha feita de ponte aérea de tanto amor pelas duas cidades. Nesses anos aprendi várias coisas, mas também desaprendi. São Paulo não é uma cidade muita afeita a flaneries – geralmente o paulistano cria seu bunker, sua bolha ideológica pessoal, e lá permanece. Isso não é uma crítica, é uma constatação. Não necessariamente pela falta de vontade, mas pelas circunstâncias geográficas – São Paulo é imensa – e político administrativas – aparentemente os governantes das últimas décadas não curtem o intercâmbio entre bairros diminuindo e extinguindo linhas de ônibus que sequer circulam durante a madrugada, fazendo essa experimentação ficar um pouco restrita.

A trupe de autores de Grãos Imastigáveis

Ao voltar para o Rio me instalei confortavelmente em um apartamento da Zona Sul carioca e paulistanamente não explorei muitos quilômetros além do meu umbigo. Em Copacabana eu tinha amigos, comida farta e barata, ciclovia, e um professor de stand up paddle com um corpo comparável as mais exuberantes maravilhas naturais da cidade, como o Pão de Açúcar, o Arpoador e o derriére da Valesca. Mas felizmente o Rio não perdoa os imóveis. Se você não circula, você perde. A cidade acontece in loco, ela tem gosto, tem cheiro, tem clima, atmosfera que precisa se experimentada para ser apreendida e compreendida. Sucumbi, desempoerei meus sneakers de oncinha e fui me aventurar para relembrar e reescrever a minha cidade, tomá-la de volta, recupar minhas memórias cheias de fantasmas adolescentes, festas e amigos que não existiam mais.

Descobri um templo budista na ladeira Saint Roman, entrada do Pavão Pavãozinho. Mais carioca impossível, no meio do sobe e desce de moto-táxis, policiais fortemente armados, crianças em uniformes escolares e ambulantes, fazer um Zazen no mais perfeito silêncio. Alex Castro, amigo e escritor que me apresentou a essa pérola. E foi só o começo. Uma pool party gay que aceita crianças em São Conrado, a Casa Porto do Raphael Vidal recebendo o melhor da cultura negra na região portuária, um bloco de carnaval em Paraty, um baile charme Madureira, uma cooperativa restaurante vegan no centro da cidade, um wi fi com expresso a preço justo na Urca, o melhor guioza da cidade na Praça Afonso Pena, Neymar, o distribuidor das quentinhas mais baratas do Rio alimentando os funcionários famintos da Gávea, uma suruba hipster no hotel Shalimar, um bazar feminista de troca de roupas no Grajaú e eu já estava me sentindo incorporada na cidade, como se o suor do 422 tivesse virado sangue e voltado a correr nas minhas veias.

Mas nada tinha me preparado para a última que me esperava.

Semana passada o Bando Editorial Favelofágico lançou o seu primeiro livro. Até aí, lançamento de livro no Rio de Janeiro consiste na mesma chatice blasé intelectual numa livraria na extrema Zona Sul, com vinho branco quente, castanhas com passas murchas e todo mundo querendo ir embora pro boteco da frente. Só que o bando é o bando, o bando é uma editora que fez uma residência criativa com autores de periferia e não estava lançando só um livro, estava fazendo um ato festivo e político no coração de Manguinhos.

Para quem não conhece o Rio, Manguinhos mais aparece nas páginas policiais do que nos cadernos de cultura. Nada mais injusto. O complexo de favelas tem a Agenda Cultural Mandela Vive que organiza eventos com artistas do complexo e de outras favelas, um dos saraus de poesia mais antigos da cidade, o Sarau Poético de Manguinhos, que lançou nomes como Celeste Estrela, um grupo de teatro com o seu próprio dramaturgo residente, Geraldo de Andrade. Artistas com um talento vivo, pulsante. Fora a Biblioteca Parque com uma programação permanente de exposições, peças, filmes. Bom, se você carioca, não sabia, fique sabendo.

Inteirada mais ou menos de como seria o lançamento, me meti num táxi na São Francisco Xavier carregando um buquê de rosas vermelhas e amarelas para parabenizar Janaína Abílio, amiga que iria lançar pela primeira vez seus contos na antologia do Bando Editorial Favelofágico. Mas antes de continuar, uma pausa para falar sobre Janaína.

Grupo Livre de Criação Literária presente!
Grupo Livre de Criação Literária presente!

No apartamento em Copacabana eu montei o Grupo Livre de Criação Literária. Um grupo exclusivo para mulheres, onde a literatura poderia ser exercida politicamente com a maior liberdade estética, temática, formal, possível.  No primeiro dia, todas aquelas mulheres chegaram tímidas e reticentes. Expliquei a proposta do grupo, e pedi para que elas lessem o material que trouxeram, mesmo que um trabalho ainda em processo. Janaína foi a primeira. Leu um conto curto do seu blog, um conto em primeira pessoa. Suas tranças caíam pelos ombros, seus óculos de armação lilás refletindo as letras do texto. Ao final, ela olhou para um grupo atônito, 9 mulheres com cara amassada e lágrimas na cara. Eu inclusa. De lá pra cá seu texto que já era bom, só melhora. E duas das sua protagonistas mais interessantes estão em contos do livro Grãos Imastigáveis, lançado naquele dia em Manguinhos.

Janaína Abílio, rainha da noite. <3
Janaína Abílio, rainha da noite. <3

Desci do táxi, e dei de cara com uma enorme lona de circo, amarela e azul, com luzinhas por dentro. Um palco, telão, crianças correndo pelo gramado, barraquinhas vendendo livros, cerveja, arroz com lingüiça. Na projeção o vídeo apresentava os autores da antologia. Janaína, de make metálico, calças de zebra e uma timidez não compatível com o seu talento recebeu as flores. Priscila Britto, outra integrante do grupo livre estava lá acompanhada de Vitor, seu namorado, que mais tarde revelou dominar a coreô de “Beijinho no Ombro”. Dançamos clássicos do funk ao som do DJ Buchecha, ouvimos trechos dos contos, comemos, bebemos, nos empolgamos com a curta apresentação de um grupo de rap feminino, o Ladies Gang, e saímos expulsos pelo temporal, que se avolumou, fez pingar água e estragou o equipamento de som. Tínhamos livros nas bolsas e a certeza que todo lançamento deveria ter um pouco de Manguinhos no coração. Seríamos autores mais felizes e provavelmente muito mais interessantes.

Para ler Janaína Abílio: www.egomettrica.wordpress.com

Comam miolos

No sábado estive com a Jeanne Callegari, a Ana Rusche, a Maira Mendes Galvão e o Pedro Tostes num sarau na Escola Estadual Di Cavalcanti. É muito doido ver como a poesia ressoa. A gente “depois de grande”, entre “ásperas”, esquece o que jogou a gente pra poesia pra começo de conversa. Tem um lance que a poesia tem de empurrar para o devaneio que é algo tão subestimado, tão reprimido até, principalmente em idade escolar e no ambiente de uma escola, e que tem uma potência incrível. As poesias falavam sobre esperança e desesperança, ironia, amor no meio do caos, humor, contas pra pagar, ódio, afirmação. A expressão e a identificação transformam, em resumo esse amor que brota como cogumelos entre desconhecidos no fim da tarde.

Entre os livros que eu poderia ter lido, escolhi por um momento o Miolos Frescos, da Jeanne. “Mas não tem nada a ver com a vivência que esses alunos estão tendo”, pensei. Fui pelo estômago, acho que a poesia não é óbvia e pensa melhor pelo corpo.

A Jeanne tem um estilo muito bonito, de passear com uma linguagem muito oral e corriqueira, trançada com outras referências para desenhar paisagens cotidianas – do ameno ao trágico – com um toque preciso, delicado, e sobretudo sem lição de moral. Clara, delicada, precisa, dizendo o essencial, abrindo espaço para não concluir pelos outros – como ela faz mesmo no dia a dia.

A gente brincava entre a gente sobre a nossa vocação para o drama, mas lendo esse livro juro que não achei. Ô Jeanne, quedê?
Juro que depois de escolher o poema dela no sarau, fiquei com vergonha de ter lido Vinícius de Morais antes, cheio de o-mundo-é-só-treva-mas-a-gente-tem-que-acreditar.

E agora, pra contar do Miolos Frescos, onde foi que botei os meus?… (achei!)

Li este, intuindo que liderar um movimento estudantil no meio de tanta dúvida deve ser bem difícil: (Clique na foto para ampliar)
foto1 foto2

Depois ela leu seu poema de trabalho, no qual as pessoas lembram do Hannibal Lecter, aquele cara bacana:
foto3

Mas eu lembro vagamente do caso clínico do cara que sofria de plágio incontrolável, cujo analista teve o saco-de-ouro de cavacar em sua obra e descobriu que não havia plágio coisa nenhuma, e após confrontá-lo, o paciente – bichinho deliciosamente criativo – escorrega num ato falho aparentemente aleatório, banal, “miolos frescos”, desejo sob disfarce estético, poesia mesmo.

Jeanne – beijo.

Ela deixou um barquinho igual à minha tatuagem no meu exemplar do livro, não é pra morrer de fofura?
foto4

a coisa mais bela

Tróiades: remix para o próximo milênio

Remix é um troço doido. Misturar, somar, transformar ao mesmo tempo que referencia – e, muitas vezes, que homenageia. Essa sobreposição de camadas, significados, referências e meios é algo que me interessa já há algum tempo. Acho maravilhoso, e ainda mais maravilhoso porque não é algo novo, surgido com os DJs nos anos 1970. Não. Apropriações, deslocamentos e intertextualidade povoam outras artes, como a poesia, desde a Antiguidade. Estão aí, talvez, desde que a arte existe.

E por tudo isso a proposta das Tróiades: Remix Para o Próximo Milênio, do Guilherme Gontijo Flores, me pareceu muito legal: um poema-site criado “a partir de uma série de colagens, traduções e apropriações de texto, imagem, música e plataforma”. Uma proposta transmídia, de remix mesmo. Eu já achava bacana a ideia, mas daí fui fuçar no site e achei ainda mais forte.

Poeta, professor e tradutor de mão cheia, Gontijo é também um dos editores da Escamandro, revista que traz coisas incrivelmente relevantes e raras de e sobre poesia (além de ser linda, bien sûr). Tivemos o prazer de encontrá-lo em nossa viagem rumo ao Sul, em um debate na livraria Arte & Letra e depois em uma visita ao seu pequeno paraíso particular em Morretes. Foi uma tarde excelente, com direito a lira, conversa, barreado e cachacinhas.

Além de ótimo anfitrião – o que nunca é de se desprezar, rs – Gontijo realiza algo extremamente interessante nessas Tróiades. Segunda parte da tetralogia Todos os nomes que talvez tivéssemos, iniciada com em 2013 com o livro brasa enganosa, o poema-site (que foi publicado em 2014) é uma colagem das vozes dos derrotados ao longo da história. De Tróia a Canudos, fragmentos de discurso que ajudam a dar voz ao lado que normalmente não é ouvido, que normalmente não faz parte da História. O poeta remixa fragmentos traduzidos das tragédias Hecuba e Troiades, de Eurípides, Troades, de Sêneca, e do aforismo 9, de Walter Benjamin, a fotografias de situações de guerra, escravidão e derrota. A música é Genocide — Symphonic Holocaust, de Mauricio Bianchi.

Um dos meus trechos preferidos é Umbral:

 

umbral

 

Mas que membros nos deixa o precipício?
Ossos despedaçados
soltaram-se na queda
a marca ilustre do seu corpo
o rosto os traços de um pai nobre
tudo o baque sobre a funda
terra confundiu
no tombo seu pescoço se quebrou
a cabeça aberta exalava
o cérebro
…..jaz um
corpo sem formas
Nisso também
igual ao pai

[S 1110]

 

São fragmentos curtos, condensados em intensidade, com significado ampliado pela mistura com os outros registros:

 


puerilla

 

Puerilla

Mãe de uma cidade vazia
Lágrima por lágrima
Porém um morto esquece as dores

[603]

 

E todo esse material, que foi remixado em formato de poema-site, acaba de sair também em papel: as imagens e trechos viraram um livro, composto por 25 postais, publicado pela Editora Patuá. Um trabalho muito bonito, que completa o ciclo site-música-imagem-texto-tradução-impresso.

Em tempos de notícias tão sombrias, de rios e cidades devastadas, e bombas e atentados e retaliações tomando conta dos noticiários, é bom relembrar, de forma tão potente, a sobreposição de vozes de perdedores dos conflitos dessa terra, a circularidade das tragédias humanas, demasiado humanas, que vivemos desde que o mundo é mundo. A História se repetindo, como tragédia, como farsa.

Vale a pena espiar. E juro que não estou falando isso só por causa do barreado.

 

a coisa mais bela

 

A coisa mais bela

Pra que chamar os deuses
se nunca ouviram
quando chamados?

Vamos correr ao fogo
que hoje a coisa mais bela
é morrer na pátria incendiada
O sol breu sobre o céu gris
e a chama não impede
a cobiça nas mãos do vencedor

Vai pé caduco
como puder para salvar
tua cidade arruinada

[T 1280, 1275, S 17]

Lembrar é uma arte

Ars memoriae. Li esses dias num texto dum cara chamado Paul Ricoeur. Talvez o nome não soe para alguns, talvez soe muito. De minha parte, havia feito a promessa, muito tempo atrás, de nunca saber nada sobre ele. E vinha cumprindo essa promessa a contento, até que ontem fui obrigado a destituir a promessa. Num grupo de estudos de que participo, trouxeram esse texto para estudarmos. Um capítulo de um livro chamado A memória, a história, o esquecimento.

E eu lembrava da promessa. Foi em 2007, exatamente. Haveria uma palestra sobre o filósofo, mas um amigo disse: vamos beber. Então nos fizemos a promessa de que jamais viríamos a saber nada sobre Paul Ricoeur. E vínhamos cumprindo, ora. Pelo menos eu. Recontei a história, como faço aqui. Uma amiga, parceira nessa promessa, está nesse mesmo grupo de estudos. E ela me lembrou que o motivo era exatamente esse. Queríamos beber. Recalcamos, portanto, Ricoeur, para beber. Anos mais tarde, percebi que em cima da estante tinha uma cachaça, de maneira que pudemos, como um sintoma que se forma, fazer coexistirem a tarefa de estudar Paul Ricoeur e beber cachaça. Foi maravilhoso. O texto é excepcional, do pouco que acompanhei ― não tanto pela cachaça, mas pela quantidade de assonâncias que esse texto ecoava ―, vale a pena. Talvez não tivesse valido naquela época, mas valeu.

E lembro também de outra coisa: um dia eu decidi que a grande tarefa do ser humano era decidir o que deve ser lembrado e o que deve ser esquecido: não se pode lembrar de tudo, mas é preciso lembrar de muito. Eu lembro exatamente o momento em que fui até o quarto de minha mãe, aquela profusão de livros sobre a cama, como ficavam durante o dia, e disse, olha, isso de filosofia é muito bonito, e a literatura, mas a minha tarefa, realmente, é aprender a lembrar do que deve ser lembrado e esquecer o que deve ser esquecido. Então eu não fazia ideia do quanto isso vinculava-se ao que seria meu trabalho cotidiano, anos depois, a psicanálise. Mas eu lembrei disso tudo.

E meu amigo de cachaças muitas, mas não de promessa, sendo quem me introduziu Paul Ricoeur, afinal, conta que numa passagem do texto a experiência dos medievais escolásticos com a memória, com a ars memoriae, é relatada cuidadosamente ― ou então foi o cuidado dele em nos expor algo que, de outra forma, dificilmente saberíamos, qual seja, que os mosteiros possuem o formato que conhecemos, com um recuo quadrado ou retangular em torno de um pátio, para que os monges pudessem andar enquanto faziam seus exercícios de memorização. Do mesmo modo como eu me lembro vivamente de entrar no quarto de minha mãe, quanto anunciava meu projeto, como me lembro de ter prometido, à saída da casa do Contraponto, na rua Medeiros de Albuquerque, onde estudávamos psicanálise naquela época, beber ao invés de saber, ou beber à saúde de Paul Ricoeur, e à minha, ao invés de sobriamente desaprender qualquer coisa, também os monges entravam e saíam, e caminhando memorizavam, como se a memória fosse um palácio que é preciso visitar ― parece que essa metáfora data do tempo de São Tomás de Aquino, que era capaz de memorizar a oposição que três centenas de alunos faziam a uma proposição filosófica que ele houvesse ficado responsável por defender, durante os debates que consistiam o ensino escolástico ― enganam-se os que creem se tratar de alguma forma de decoreba esse tipo de ensino ―, para então respondê-las, uma a uma, as trezentas, na mesma ordem em que haviam sido feitas. Sempre gostei dessa história, não lembro mais de quem a ouvi. Mas já me ouvi contando-a uma porção de vezes.

Ricouer conta outra história, a de um poeta que, tendo sido convocado para fora de uma casa, durante um banquete, acaba salvo do desabamento monumental que soterra todos os convivas. Será que um poeta é detentor de algum poder especial, e por arte dele se salva? Antes, aponta o filósofo, é o que ele faz depois o que importa: pela posição em que cada um se sentava, é capaz de identificar sua presença, ou de seu cadáver, de outro modo destruído ― as ciências forenses estavam nascendo, ou talvez ainda longe de nascer ―, e preservar, de algum modo, a existência daquele ser que já não era mais, porém, vivente.

Eu não tenho esses poderes de memória, e me tornei muito mais proficiente em esquecer que em lembrar, realizando, provavelmente, apenas a metade do meu projeto antigo. Considerando, pelo menos, que não o esqueci, ainda é tempo de recuperar sua existência.

E se digo essas coisas, é tanto por um projeto pessoal, como por achar que este é um projeto urgente. Por isso viajamos, creio eu. Viajar, para nós, é nossa maneira de visitar aquele palácio da memória. Não conhecemos outra forma.

E mais do que nunca é preciso lembrar, depois da catástrofe, o assento que tomavam aqueles que sob ela sucumbiram, para que, soterrados, abatidos, embora interrompido o curso de suas vidas, não deixe de correr até nós sua promessa.